sábado, 2 de julho de 2016

[Estórias da Aviação] General libera a mala

Alberto José

Em junho de 1975, ao pegar a "escala" eu vi que iria fazer o meu segundo voo para Roma. Então, um colega me disse que eu poderia ganhar uma gratificação para trazer uma encomenda de Roma. Mais tarde, uma pessoa me ligou e confirmou a proposta. Eu teria que pegar uma peça de carro na loja Fiat Olio.

Quando cheguei lá, pensei em desistir. Eram várias peças. Para manter a palavra (e a gratificação) assumi a tarefa. Quando cheguei ao hotel carregando quatro bolsas de material encontrei uma turma de comissários fazendo AFA. Eram os "expertos", que já tinham feito aquilo várias vezes! Eles começaram a rir e debochar... vai se dar mal, etc.

Eu perguntei qual era a razão da gozação. Me responderam que o voo não iria para o Rio, iria para Frankfurt. Calmamente, preparei tudo para chegar em Frankfurt. Fomos para o hotel, e lá havia o mistério da próxima etapa.

Dois dias depois avisaram que nós iríamos para Barcelona. Como eu lia os jornais, entendi qual seria a nossa missão: transportar o "homem forte" do governo, o General Golbery [foto], que havia se submetido a uma cirurgia naquela cidade.



Na tarde em que embarcamos para o Rio, entramos em um B-707 configurado para viagem presidencial. A Primeira Classe havia sido convertida em um espaçoso quarto com cama grande, mesa, poltronas, cortinas, etc.

Quando chegamos em Barcelona, a equipe que acompanhava o General perguntou quem trabalhava na PC. No caso, era eu e uma Comissária. Eles informaram que a Comissária seria dispensada e, pediram educadamente que os demais comissários passassem pelo pequeno corredor lateral e evitassem entrar na cabine para não perturbar o descanso do General.

Durante o voo servi queijos, suco e frutas pois o General não quis jantar. Quando fiquei livre, sentei no corredor e comecei a ler o livro Animal Farm, do George Orwell. A dona Esmeralda, esposa do Golbery, pediu o livro emprestado e foi mostrá-lo ao General.

Ele me chamou e disse que quem lia aquele livro devia ter idéias interessantes e que ele queria alguém para conversar. Eu perguntei se ele queria comer ou beber alguma coisa. Ele respondeu que como ficou muitos dias no hospital sem falar, o que ele queria era uma boa conversa.

Eu fiquei ali ouvindo a vida dele, as suas ideias políticas, me falou de generais da história, etc. Quando estávamos a algumas horas do Rio ele me perguntou se eu tinha comprado muitos presentes na viagem. Eu respondi que eu tinha algumas encomendas na minha mala.

Meia hora antes do pouso, ele pediu ao médico que o acompanhava, Dr. Galvão, que reunisse a tripulação na Econômica para dar um aviso. Todos reunidos, ele perguntou: "Alguém comprou presentes, lembranças, encomendas, etc."? Todos se olharam mas ninguém respondeu. Eu falei: “Doutor, eu comprei!”

Então, ele anotou o meu nome. Os "de sempre" fizeram uma cara de deboche. Quando chegamos no Galeão havia até carro blindado do Exército na pista; na Alfândega, o mais temido fiscal veio direto em cima das nossas malas. Nesse momento, o médico se aproximou e falou: "Comissário Alberto José, as suas malas estão liberadas por ordem do General Golbery". (Ri melhor quem ri por último!). 
Título e Texto: Alberto José, 30-6-2016

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