sábado, 2 de julho de 2016

Temor reverencial por tumores de estimação

Péricles Capanema

Um doente mentalmente saudável tem horror de seus tumores. Quanto maior a repulsa, mais saudável na cabeça.

Todos os escândalos nos últimos anos no Brasil tiveram estatais como pivô. Podem escrever, também o próximo. O último deles, o petrolão, sai da Petrobrás e da Transpetro, subsidiária daquela. Bastaria investigar outras estatais, por exemplo, a Eletrobrás e teríamos o eletrolão; se fosse o BNDES não sei qual nome fantasia poderia ser o escolhido. Revelados pelo senador Ronaldo Caiado, vejam os empréstimos feitos pelo governo Dilma via BNDES no meio da crise aguda de falta de dinheiro e meçam o disparate: R$ 14 bilhões para Angola; R$ 11 bilhões para Venezuela; R$ 8 bilhões para República Dominicana; R$ 7,8 bilhões para Argentina; R$ 3 bilhões para Cuba; R$ 2 bilhões para o Peru; R$ 1,5 bilhão para Moçambique; R$ 980 milhões para Guatemala; R$ 795 milhões para o Equador; R$ 755 para Gana; R$ 507 milhões para Honduras e R$ 155 milhões para Costa Rica. Imaginem o que existe aí de favorecimentos.

A estrutura dos repetidos escândalos é a mesma. Os fornecedores, para continuar trabalhando para a empresa contratante, a estatal, precisam contribuir por dentro (propinas registradas como doações legais) e por fora para os partidos que indicam os diretores. Se não contribuírem (os repasses, em linguagem eufêmica (hoje conhecidos por pixulecosacarajés), encontrarão dificuldades, podem até deixar de ser fornecedoras. Para muitas empreiteiras seria a falência, pois seu único cliente (ou o maior deles) é o Poder Público. No caso do BNDES muda apenas um ponto, o tomador do empréstimo; ele perderia facilidades para o crédito subsidiado se recusasse encaminhar os repasses para os devidos destinatários. Não custa lembrar, a principal função dos diretores nomeados por indicação política é fazer caixa para os partidos. E no caminho da grana, boa parte fica no bolso dos diretores, de líderes partidários e de intermediários.

No ponto de partida dos escândalos temos sempre o gigantismo estatal. Atividades econômicas naturalmente da alçada de particulares são exercidas de forma desastrosa pelo Poder Público.
Seria normal protesto generalizado pela extinção desse mal. Não o escuto. Ouço, pelo contrário, Pedro Parente, o novo presidente da Petrobrás, em declaração dispensável: “Não vim para cuidar de privatização da Petrobras. Não vou perder tempo com essa questão”. Sou chocado ainda por afirmações, como a de Rodrigo Janot, de que “roubaram o orgulho dos brasileiros pela sua Companhia”. Não o meu, nem de muita gente. Tinha razão Roberto Campos em lhe trocar o nome de Petrobrás para Petrossauro. Para ele, anacronismo pré-histórico dos tempos do estatismo delirante.

É que o uso do cachimbo faz a boca torta. Desde 1930 a maioria dos governos entre nós tem chamado para si a principal responsabilidade pela busca de melhores condições de vida para os brasileiros, em especial os de baixa renda. É certo, precisam mais do apoio estatal e este, na medida do razoável, deve existir. Mas eles vão muito além, chafurdam com delícias nos pântanos do intervencionismo e do estatismo.

Lá atrás, um exemplo: o governo Geisel impediu a entrada da iniciativa privada no setor do petróleo. A produção estagnada tornava necessárias as compras de óleo no Exterior. Com o andar do tempo, a dívida externa chegou a patamares explosivos. Comentou Delfim Netto, que conhece bem o assunto: “Quem quebrou o Brasil foi o Geisel. O Geisel era o presidente da Petrobras. Quando houve a crise do petróleo, as reservas eram praticamente iguais a um ano de exportação, não tinha dívida. A dívida foi feita no governo Geisel. O Geisel, na verdade, era o portador da verdade. O Geisel sempre tinha a verdade pronta”. Algo parecido aconteceu com a antipatia dos governos petistas à presença do capital privado na exploração do pré-sal. Jogamos fora a oportunidade, o Brasil não andou para frente, o governo não pôs na burra bilhões de dólares em impostos. Mais uma vez, mistura mortal de nacionalismo, esquerdismo e estatismo. O acima mencionado Roberto Campos, irônico, acertou: no futuro “campanhas econômico-ideológicas, como a do “petróleo é nosso”, deixarão de ser descritas como uma marcha de patriotas esclarecidos para serem vistas como uma procissão de fetichistas anti-higiênicos, capazes de transformar um líquido fedorento num unguento sagrado. Foi uma “passeata da anti-razão” que criou sérias deformações culturais, inclusive a propensão funesta às “reservas de mercado”. É sempre assim, fundadas como solução, as estatais logo se transformam em focos de inoperância, favoritismo e corrupção.

Lembrei acima que o uso do cachimbo faz a boca torta. É verdade, cria o costume, daí nasce a mentalidade, que inibe a busca da solução pelo esforço pessoal. Faz enorme falta entre nós o gosto da autonomia. E só crescem as sociedades embebidas de autonomia.

Em setores amplos do Brasil, e não apenas na esquerda, fazem coro também nacionalistas bocós, medra enraizado xodó pelo estatismo e seu xifópago, o intervencionismo. A maneira como se referem à Petrobrás, elidindo a crítica à concepção errada já no começo, evidencia silêncio obsequioso e até temor reverencial. E, raras as exceções, elas são focos infecciosos, deitam metástases na sociedade e na política. É ainda muito insuficiente a aversão.
Título, Imagens e Texto: Péricles Capanema, ABIM, 2-7-2016

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