sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A autoestrada da mediocridade

Pedro Batista e Silva

Realmente é triste observar esta realidade. Portugal, um país em que a sua gente demonstra ter tanto talento e qualidade, segue em velocidade cruzeiro na autoestrada da mediocridade.

Portugal é um país pobre. Com escassos recursos naturais, nunca fomos capazes de criar uma indústria capaz de evoluir ao ponto de se tornar uma verdadeira referência internacional. A nossa marca não tem prestígio, por isso a única coisa que as empresas Portuguesas podem fazer para se tornarem competitivas é fazer o mesmo que os outros fazem, mas a um preço mais reduzido. Devido a isso, a nossa economia nunca cresceu o suficiente para que fosse possível pagar bons salários aos trabalhadores, uma vez que isso sacrificaria o preço dos produtos, tornando as empresas inviáveis. Vivemos num país em que milhares de empresas vivem no limiar da sobrevivência, lutando ano após ano para que o barco não afunde, uma realidade que nitidamente passa ao lado de muita da nossa opinião pública.

Mas nós adotamos a realidade alternativa de que tínhamos as condições para viver como se fossemos um país com uma economia forte, e endividámo-nos ano após ano para artificialmente criar um sistema impossível de suportar. O problema é que este processo gera um ciclo vicioso, dado que para suportar um sistema já por si insustentável, é necessário acumular cada vez mais dívida, o que por sua vez aumenta os juros que o país fica obrigado a pagar anualmente, reduzindo-se o orçamento disponível para as áreas que são realmente importantes. Solução? Cobrar mais impostos e aumentar o ritmo de endividamento. Porque é que se considera então que aumentar a dívida e déficit é defender os direitos dos trabalhadores? Não deveria ser óbvio que é precisamente o contrário?

Então chegámos a um ponto em que para além de termos uma indústria sem qualquer capacidade de competir, temos um monstro que asfixia qualquer iniciativa empreendedora. E o que é que alguns discutem em Portugal? De quantos dias de férias deveríamos ter e de quantos salários mínimos pagam os patrões exploradores da Padaria Portuguesa. Até do único setor pujante no país, o turismo, se fala que é demais. Demasiado emprego, demasiado sucesso!

É frequente ouvir-se que na verdade isto funciona ao contrário, primeiro dão-se bons salários, boas pensões e regalias ao povo, e só depois é que se pode esperar que o país cresça. Se para perceber o quão errado é esta ideia não fosse suficiente o facto de nenhum país na história da humanidade ter conseguido aplicar com sucesso esta fórmula, aqui em Portugal isto já foi tentado múltiplas vezes, invariavelmente com o resultado precisamente oposto ao pretendido. Então porque é que esta é ainda uma ideia popular? Será que algum dia deixará de o ser? Tenho imensas dúvidas. A discussão deprime qualquer um que perceba que estamos a uma brisa internacional de deixarmos de nos poder financiar para pagar o nosso déficit.

Realmente é triste observar esta realidade. Portugal, um país em que a sua gente demonstra ter tanto talento e qualidade, segue em velocidade cruzeiro na autoestrada da mediocridade.
Título e Texto: Pedro Batista e Silva, Engenheiro de Software, Observador, 3-2-2017

4 comentários:

  1. Interessante, sou português de nascimento, não vivo em Portugal mas durante 50 anos estive incontáveis vezes em Portugal, até porque tenho ainda família nesse país. O que sempre me chamou atenção no povo português era o viver o dia a dia da política intensamente. Como nunca fui, até porquê vivo num pais não politizado sempre achei muito interessante a forma vigorosa como os portugueses tratavam o seu dia a dia político. Pelo visto continua da mesma forma, mas apesar de toda essa vontade política, não vejo muito sucesso na forma como esse mesmo povo contribui para o desenvolvimento de sua nação se engajando com afinco no sentido de elevar Portugal a um patamar vigoroso globalmente. Não seria por acaso a vida imperial que o povo gosta de levar nos cafés, nos restaurantes nas viagens, nas praias, nas férias, nos estádios de futebol sempre cheios ?
    Apesar disto, contra e prós, Portugal é classificado como o quinto país mais tranquilo para se viver, milhares de aposentados do mundo inteiro estão se mudando para Portugal, produtos alimentares portugueses reconhecidamente como os melhores, são consumidos pelo mundo todo e agora por exemplo com o protecionismo americano em alta, Portugal deverá receber milhares e milhares de turistas do mundo inteiro.
    Será que os cidadãos portugueses não conseguem ver por esse ângulo, ou será que não conheço realmente o país em que nasci ?
    José Manuel

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    1. José Manuel,
      É provável que o país que você conheceu seja o mesmo que eu conheci.
      Quando cheguei, em 2010, era o Partido Socialista que estava no poder, José Sócrates era o primeiro-ministro.

      Assistia aos telejornais e comprava jornais e revistas. Aí veio o pedido de ajuda financeira. (Só pede ‘ajuda financeira’, eufemismo para ‘empréstimo’, quem está falido). Seguiram-se as eleições legislativas no princípio de 2011, ganhas pelo PSD coligado com o CDS.
      Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro. Cheguei a escrever no meu perfil do Facebook algo como “bom, realizadas as eleições, Portugal, vamos que vamos!”.

      Nossa! Aí começou. Ou melhor, eu comecei a perceber a orquestração e manipulação da mídia… assistia a mesas-redondas com a presença de fulano, beltrano e sicrano, todos “comentadores” do canal A ou B… Aí eu ouvia todas as profecias da desgraça nas bocas daqueles “comentadores”… peraí! Comecei a pesquisar quem eram aqueles caras. Bingo! TODOS militantes ou quadros dos partidos de esquerda e de extrema-esquerda. Tem um que me causa (causava) uma repulsa incontrolável: Pedro Adão e Silva. Eu olhava para aquela coisa, o cinismo e o sorrisinho pelo canto da boca, e fui ver quem era a peça: Membro da Comissão Nacional do PS.

      Os “presidentes” dos “sindicatos” – que eram ouvidos dia sim, noite sim – ou são membros do Partido Comunista (campeão com os sindicatos dos transportes e da Função Pública), do Bloco de Esquerda e/ou do Partido Socialista.
      Um tal presidente dos funcionários dos impostos é quadro do Bloco de Esquerda.
      Outro, do Sindicato dos Técnicos de Contas, é socialista.
      A múmia Ana Avoila, do sindicato da Função Pública, é do PCP.
      E tantos outros exemplos.

      Em resumo, este país se tornou um feudo da extrema-esquerda. Partidos sem votos mas acantonados nas redações dos jornais, revistas e estações de TV.
      É o marxismo cultural no seu apogeu.
      É significativo que o Partido Comunista Português – sem votos - seja o ÚNICO na Europa dos 28 que ainda “existe” propagando os anacronismos mais do que conhecidos.

      Os “excessos revolucionários” e os “experimentos do socialismo científico” pós 25 de abril formataram este povo. Mas, veja bem, eu tenho uma dúvida: ouso julgar que os “formatados pelo marxismo” não sejam os ‘populares’, mas sim, vamos dizer, a classe média e os ‘intelectuais’ que o amigo sabe onde estão. Nas universidades, Observatórios disto ou daquilo e, claro, na manjedoura de fundos públicos, a “cultura”.

      Hoje tenho ojeriza à imprensa portuguesa, não leio nada, não assisto TV local. Vou sabendo do que acontece através das opiniões em alguns blogues que sigo ou através de alguns poucos colunistas que remam contra a maré.

      Para você ter uma ideia, me ocorreu agora, é tão nojento o Bloco de Esquerda promover reuniões com os moradores de alguns bairros de Lisboa para denunciar… o excesso de turistas na cidade de Lisboa. Seus militantes, travestidos de jornalistas, escrevem o mesmo!

      Neste post recente dá para ter uma ideia: http://www.caoquefuma.com/2017/01/as-10-questoes-do-colapso-portugal.html
      Ficando por aqui. Um abraço./-

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    2. Para o estimado leitor brasileiro ter uma ideia mais nítida do atual governo português: imagine, em Brasília, um governo do PT coligado com o PSOL e o PSTU...

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  2. Lixo virtuoso
    Sei que o lixo é, por estes dias, um negócio que dá milhões. Mas há lixo e lixo. Nunca me passou pela cabeça, por exemplo, que alguém exultasse com o facto hoje conhecido de, em relação ao rating da dívida soberana portuguesa, uma das agências de notação - no caso a Fitch - ter mantido o nível de "lixo". Mas, pasme-se!, não só houve quem se manifestasse satisfeito, como esse alguém é Presidente da República.
    É de ter medo, muito medo...
    JM Ferreira de Almeida à(s) 19:19:00 in 4R – Quarta República, 3-2-2017

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