domingo, 25 de junho de 2017

Jornalismo português

Rui Rocha

Não, senhor. Não mesmo. Por muito que nos queiram fazer acreditar, o maior escândalo jornalístico associado à tragédia de Pedrógão Grande não é um artigo publicado no El Mundo sob pseudónimo, nem a reportagem da Judite, nem a impreparação dos jornalistas, nem a repetição das frases feitas, nem a exploração abusiva dos sentimentos e das emoções. Tudo isso levanta naturalmente interrogações deontológicas e é susceptível de crítica cerrada. Mas há pior.

Vejamos os factos. Temos, desde logo, sessenta e quatro vítimas mortais, ao que parece doze desaparecidos e centenas de feridos. É uma das maiores tragédias humanas à escala planetária provocada por um incêndio florestal.

Temos depois a política da floresta e de prevenção e combate a incêndios mais do que questionável ao longo de décadas.

Temos os Kamov que não voam e não servem para combater fogos.

Temos o SIRESP cuja aquisição está envolta em suspeitas sérias e que não funcionou em várias situações de emergência já conhecidas em 2016.

Temos uma estrada que não foi fechada e onde morreram mais de quatro dezenas de pessoas.

Temos o camião de frio da Proteção Civil que não funciona.

Temos a origem do incêndio que é preciso apurar para lá das versões pré-estabelecidas. Tudo isto são factos que um jornalista experiente deveria querer conhecer e aprofundar.

Como compreender então que, entre outros, Paulo Baldaia e Fernanda Câncio se tenham apressado, no DN e com os cadáveres ainda quentes, a decretar a inevitabilidade do sucedido?

Como é possível que tenham prescindido imediatamente, perante tudo isto, da função essencial de jornalista que é fazer perguntas? Este sim é o elefante no meio da sala do jornalismo português, o escândalo que é preciso investigar. Com que propósito, em nome de que interesses, a mando de quem abdicaram das perguntas para abundar nas respostas?
Texto: Rui Rocha, Facebook, 25-6-2017
Título: JP 

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