terça-feira, 27 de junho de 2017

O homem que afinal não tem sempre sorte

Rui Ramos

Ao fim de uma semana, tivemos desculpas do líder da oposição por um comentário, mas nem uma palavra de contrição do governo pelo descontrole que matou 64 pessoas e deixou mais de 200 feridas.

O incêndio do Pedrogão Grande foi um dos fogos florestais em que mais pessoas perderam a vida nos últimos cem anos em todo o mundo. O espetáculo ignóbil do colapso do Estado no exercício das suas funções mais básicas espantou quem pôde seguir o noticiário: imprevidência, abandono das populações, descoordenação, informações contraditórias. Mas no meio do caos, enquanto os mortos e os feridos se acumulavam, o que inquietava o jornalismo e as redes sociais que geralmente zelam pelos interesses de António Costa? Isto: a identidade do autor de um artigo sobre Portugal no El Mundo. A pressão (vinda de Portugal) sobre os editores do diário espanhol terá sido maior do que quando tratam de temas irritantes em Espanha e nas Américas, como a Venezuela chavista. Ficámos assim com uma ideia da máquina de que o atual governo de Lisboa dispõe para “afeiçoar” a comunicação social.

Que fez El Mundo? Apenas isto: especulou sobre as consequências políticas da catástrofe do Pedrógão. Acontece, porém, que El Mundo não refletia o debate público em Portugal. Nenhum partido ou personalidade influente exigiu a demissão de um ministro, nem sequer de um secretário de Estado, quanto mais do governo. O presidente da república, segundo depois terá feito constar, repetiu fielmente o que o governo lhe disse. A oposição respeitou o luto. O PCP e o BE tiraram, que me lembre, as primeiras férias desde 1974: foi como se não existissem. Não houve, como em Londres depois do incêndio da Grenfell Tower, nenhum “day of rage”. As televisões faziam desfilar “especialistas” a repetir muito disciplinadamente o que dizem todos os anos.

O que aterrorizou então o clube de fãs de António Costa? Não foi a perspectiva de uma improvável insurreição à latino-americana, mas outra coisa: o perigo de acabar o mito que tem sido a força de Costa. Desde o princípio, que António Costa foi apresentado aos portugueses fundamentalmente como um homem de sorte e de habilidade. Perdeu as eleições, mas o PCP e o BE deram-lhe a mão, e chegou a primeiro-ministro. Passos Coelho deixou a economia a crescer e o desemprego a diminuir, mas é Costa quem está a registar os resultados. Que mais provas podia haver da sua boa estrela? Napoleão, como é sabido, preferiu sempre generais menos capazes, mas com sorte, a generais muito competentes, mas azarados. Costa seria talvez um bom general para Napoleão, e era disso que, segundo a oligarquia, o país precisava: um governante a quem tudo corresse bem, um “optimista”.

É óbvio que a oligarquia sabe que nada está assim tão bem. De facto, os oligarcas estão pessimistas. Tão pessimistas, que já só acreditam na sorte e no “pensamento positivo”. Mas a certa altura pareceu mesmo haver sorte: era o dinheiro barato do BCE, era o turismo, era o campeonato da Europa, era o festival da Eurovisão — tudo falava de uma fortuna que não se cansava de sorrir a António Costa. Até ao Pedrógão Grande. Na semana passada, o encanto quebrou-se. Afinal, as coisas também correm mal a António Costa. Pior: a sua encenação de sucesso rasgou-se, para revelar a vulnerabilidade de um país onde o Estado, gastando o equivalente de metade do PIB, nem assim é capaz de poupar os cidadãos a um massacre como o do Pedrogão.

Ontem, porém, houve luz na escuridão. O provedor da Misericórdia de Pedrogão Grande induziu Passos Coelho num lapso, de que o líder do PSD decidiu pedir desculpa. Foi a alegria do costismo. Era a sorte outra vez. Mas talvez o sarcasmo do regime tenha desta vez ficado demasiado patente: é que tivemos desculpas do líder da oposição por um pequeno comentário, mas nem uma palavra de contrição do governo pela incompetência e descontrole que mataram 64 pessoas e deixaram mais de 200 feridas.
Título e Texto: Rui Ramos, Observador, 27-6-2017

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