quarta-feira, 21 de junho de 2017

Um país entregue à sua sorte

Rui Ramos

Os oligarcas não querem que se “faça política” com a tragédia. Mas se não “fizermos política” com a morte evitável de 64 pessoas, para que serve a política? Só para festejar vitórias na Eurovisão?

Sim, nem tudo é previsível ou controlável. Se no fim de semana passado tivesse caído um enorme nevão no Algarve, teria sido um acontecimento extraordinário e creio que todos perceberíamos que o país não estivesse preparado. Mas no fim de semana mais quente do ano, com temperaturas elevadas e ventos fortes — a ninguém ocorreu a probabilidade de fogo e a necessidade de tomar providências, como por exemplo alertar a população, numa região de floresta densa e abandonada, em que quase todos os anos há grandes incêndios? No sábado, houve 156 ignições em todo o país, o que quer dizer que o incêndio de Pedrogão-Grande não foi uma singularidade. Mas o principal é isto: o incêndio terá sido detectado por volta das 14h00, e a maior parte das mortes terão acontecido ao fim da tarde, na estrada, depois das 18h00. Que fez o Estado durante toda essa tarde? Tudo isto se parece demasiado com a crónica de muitas mortes anunciadas.

Não, não é a altura para discutir a limpeza das matas e das bermas da estrada, a desertificação do interior, a propriedade rural, o aquecimento global e a relação dos seres humanos com a natureza. Tudo isso são temas muito interessantes, mas desta vez temos de resistir à mania nacional de fazer derivar as conversas. Neste momento, há apenas uma questão relevante: o Estado tem um sistema de proteção civil, e esse sistema falhou tragicamente. Porquê? A “natureza” e os “problemas estruturais”, como o mitológico ordenamento do território, não ilibam o sistema, porque a proteção civil existe para defender as populações nas condições existentes, mesmo quando tudo é “muito rápido”, e não apenas em condições ideais, como fossem aquelas em que o país se tivesse desenvolvido de outra maneira ou a progressão dos fogos fosse sempre muito lenta.

Talvez seja preciso explicar isto a muitos comentadores, mas não à oligarquia política, que pressentiu o que estava em causa desde o primeiro momento. Afinal, houve regimes que ficaram feridos na asa por muito menos. Daí a garantia inicial de que tudo tinha sido bem feito. Daí a proclamação da “unidade nacional”, para barrar dúvidas e perguntas. Daí as visitas ao terreno, de colete da proteção civil e olho húmido, para simular “proximidade”. Mas na segunda-feira, já era claro que distribuir afeto e culpar a “natureza” não iam chegar. Foi quando o primeiro ministro antecipou, para memória futura, as perguntas que toda a gente começava a fazer.

Tudo isto é espantoso. Temos um Estado que gasta o equivalente à metade do PIB e que tem por sua conta cerca de 13% da população empregada, mas que não tem gente nem meios para lidar com uma emergência previsível, ou capacidade para enquadrar ajuda, como se viu no caso da oferta do Xunta de Galicia, asperamente desprezada como “excesso de voluntarismo”.

Ninguém está a exigir milagres, o domínio total da natureza ou a correção súbita da história. Pede-se apenas que as coisas funcionem regularmente. Porque não foi isso que aconteceu. Sim, o fogo num terreno montanhoso, com muito vento, é imprevisível. Mas durante a tarde de terça-feira, o Estado nem sequer conseguiu, durante horas, confirmar se tinha ou não caído um avião.

Os oligarcas não querem que se “faça política” com a tragédia. Mas se não “fizermos política” com a morte evitável de 64 pessoas, para que serve então a política? Só para festejar vitórias no Festival da Canção? A oligarquia convenceu-se recentemente de que a política são uns abraços. Mas a política não devia ser um programa televisivo da manhã, mas o debate sobre o estado de um país onde desta vez faltou a sorte que houve noutras ocasiões. Porque com esta oligarquia política, só a sorte nos pode valer.
Título e Texto: Rui Ramos, Observador, 21-6-2017

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