terça-feira, 25 de julho de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Tiques nervosos

Aparecido Raimundo de Souza

MANUELINO TEM UNS TIQUES estranhos. Mastigar gelo e torcer o fio do telefone toda vez que vai usar o aparelho. O mais esquisito, entretanto, é o de se contorcer todo para comer as unhas do pé esquerdo. Carlito, o irmão mais novo, adora tirar meleca do nariz e limpar na roupa dos amigos. Diferente do Joselito, o do meio. Esse adora cuspir à distância.  Aliás, é campeão nessa modalidade. Na escola ninguém consegue ganhar dele. É o oitavo ano que leva o troféu “Cuspidor Inveterado”, uma vez que nenhum outro conseguiu alcançar a sua marca de três metros e dez.

Manuelino começou a namorar recentemente. A garota dele, a Catulipa Xorobó não fica atrás. Os dois quando se encontram, passam horas triturando e contorcendo o fio do telefone. Até chegam a disputar, para ver quem consegue cochar ou dobrar mais a porcaria do cordel. Quando o vencedor é ela, ganha um beijo na ponta do nariz. Todavia, quando o campeão é ele, Joselito, o do meio, pula nos pés da garota e come todas as unhas dos seus pés, sem claro, ter que precisar se distender para levá-los até a boca.

Carlito, o irmão mais novo, dia desses, se deu mal. Após tirar uma suculenta resolveu se livrar da gosma limpando o dedo na camisa de um sujeito que brincava de ficar vesgo dos olhos. Pego de surpresa, Carlito levou uma porrada no meio da fuça. Por minutos rodopiou sobre o próprio corpo num turbilhão de pequenas estrelinhas multicoloridas. Manuelino jura por tudo quanto é mais sagrado, que pretende se livrar dessa coisa chata de ficar o tempo todo ruminando gelo. Os reflexos dessa brincadeira lhe causaram um pigarro irritante na garganta, que dura o dia inteiro e, à noite, quando está dormindo, dana a ranger os dentes.  A Catulipa Xorobó, por sua vez, não conseguiu parar de esguichar.

Cada jorrada sai uma enxurrada de bactérias numa velocidade que atinge 160 km por hora. Aliás, essa é a real aceleração de um nariz constipado quando resolve expelir tudo que o está aprisionando. Voltando ao casal, ambos pensam em pôr um fim nessa história do gelo e da linha do telefone. Segundo ela, é mais cômodo roer o lápis ou mamar a tampa da caneta. Na ausência desses dois, quebra um galhão chupar canudinhos de plásticos.

Joselito, lembrando, o do meio, ao oposto dos irmãos Manuelino e Carlito se diverte com a nova loucura que inventou, aliás, já está em prática faz um bom tempo. Mágicas. Tem dado certo. Contudo, na última tentativa realizada, conseguiu sumir com a carteira de dinheiro de seu tio Ambrosiano. Em razão disso, todas as contas da criatura venceram inclusive o aluguel. O senhorio do cubículo onde Ambrosiano reside, cidadão conhecido como Velvel concedeu três dias. Três dias. Nem mais, nem menos. Em resumo: ou Ambrosiano paga tudo o que deve, ou vai para o olho da rua, com todas as quinquilharias. E bota quinquilharias nisso!
Título e texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Do Rio de Janeiro RJ. 25-7-2017

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