quarta-feira, 7 de março de 2018

[Aparecido rasga o verbo] Mulher ideal

Aparecido Raimundo de Souza

Uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta”.
Do livro de Glória Steinem “Memórias da transgressão”.

QUAL SERIA, NA SUA CONCEPÇÃO, meu caro leitor amigo, a mulher perfeita? Acaso aquela donzela que os antigos veneravam como a Amélia, que era de verdade, que não fazia exigências, que passava fome e achava bonito dormir no chão, eternizada nos versos de Ataulfo Alves? Ou por outra, uma mistura de Marilyn Monroe em “Nunca fui Santa” e Anita Eckberg [foto abaixo] em "A Doce Vida" de Fellini? Afinal, qual seria a mulher ardente e impetuosa, a deusa desejada e insubstituível, a dos sonhos de cada um de nós, simples mortais? Na prática, a que Martinho da Vila afirmou “ter tido de todas as cores, de várias idades e de muitos amores?”.  A que Machado de Assis descreveu na pele de dona Camila, ou a que Roberto Carlos imortalizou na sua Mulher de 40?  Como um todo será que essa criatura magnânima e indubitavelmente inimaginável, ainda pode ser encontrada numa esquina qualquer do destino?


Segundo uma determinada corrente, a mulher das nossas quimeras é como a Aurélia Camargo, trazida à baila num conto de José de Alencar, se apresenta tipo peça rara, de museu, adorno não encontrado em lugar nenhum, principalmente em joalherias de shopping ou outras lojas de departamentos conhecidas. Embora tenha a concepção de um diamante não lapidado, jamais será vista em lugares como Serra Pelada.  Há os que a definam como a que não gasta telefone, nem água, nem luz, nem bebe refrigerante em excesso. A mulher tipicamente calorosa e fustiasticamente santuária não frequenta salões de beleza requintados, não faz fofoca com as amigas, não pinta as unhas de vermelho, não tinge os cabelos com cores berrantes, não usa brincos, não usa pielcing, nem raspa as pernas, tampouco outras partes mais requintadas de todo o seu magnânimo conjunto. Não usa sapatos de grife, nem veste roupas caras nem põem os cartões de crédito do marido à beira de um ataque de histerismo, contudo, o do amante, segundo Magda [foto abaixo], da série “Sai de baixo” - pulando ‘pela aí’ como um Canguru Perneta. 

Magda (Marisa Orth)
A mulher fascínio é tão perfeita que não gasta, ou melhor, não desperdiça sabão em pó, nem água sanitária. Não usa o fogão e, por via de consequência, mantém sempre cheia a botija de gás, principalmente se for de rua.  É adepta, como a Gabriela, de Jorge Amado, do “gás de cuzinho, que pode ser usado com qualquer tipo de mangueira, mesmo aquelas vagabundas que não levam braçadeiras nas pontas, quando se carece de subir no telhado”.

A mulher flamante não quebra copos, não suja pratos, nem diz palavrões. Tampouco peida em festinhas de crianças ou reuniões importantes. Alheia a caras feias e semblantes fechados, não seduz, se deixa ser cantada, emprega seus dias da melhor maneira, tentando aprimorar o conhecimento e expandir os horizontes, nem que seja para ver estrelas em pleno meio dia de um sol escaldante. Jamais paga o mico de xingar seu amado, quando ele chega quase ao romper da manhã, camisa manchada de batom, cheirando a perfume barato ou a cerveja choca. É impecável, submissa, dócil, leal, econômica, companheira, sobretudo, companheira. Tem o nobre dom de tocar na mente daquele que ousa a se ajoelhar a seus pés estimulando o infeliz a realizar tarefas importantes, como o ir ao mercado, levar o cachorrinho para fazer pipi, comprar o jornal de domingo e aturar a sogra chata e rabugenta. Contrariando Stanislaw Ponte Preta, a mulher ideal, mesmo que emprestada, não volta estragada.  

A mulher das nossas mil e uma noites vai além do esperado. Sempre. Sabe como ser a amante exata, a puta completa, sem deixar vestígios comprometedores. Igualmente aprendeu a distribuir seus encantos e atributos na medida certa, como um poema de Florbela Espanca e, acima de tudo, com a convivência diária, se diplomou em como deixar o coração da sua cara metade com as batidas descompassadas, sem que o sujeito, todavia, tenha um enfarto e caia fulminado. Isso, para a rainha, seria fácil demais e daria muito na pinta, trazendo a policia a tiracolo, com toda certeza. A mulher ideal não usa óculos escuros, jamais sairá de casa com uma saia comprida demais, é vidrada em calcinhas minúsculas e veste sempre blusinhas que deixam os peitinhos em constante estado de ebulição frenética. A mulher dos nossos eternos pecados é lógica como Cecília Meireles e, dentro dessa harmonia não comete certas asneiras como: arranjar um cara duro que pinte no pedaço só para tirar umazinha. Também não trai, não flerta, ou arranja uma barriga indesejável só para dizer para as amigas que é linda a gravidez.

Extremamente fina e requintada nos menores gestos, a mulher das nossas extravagâncias se assemelha àquela marca italiana e muito cobiçada de automóvel, a Ferrari. É sensual, nunca passa dos vinte anos, vive nativa do seu ar de superioridade. Ao mesmo tempo é comedida, tímida e carente, a ponto de se mostrar soberba e impecável no andar, no modo de se apresentar e de se trajar entre as demais da sua raça. Sabe como atrair os opostos sem trair os sentimentos verdadeiramente de quem ama e os deixar expostos, a céu aberto. A mulher divina e primorosa, não se importa com a pouca carne da bunda magra, nem em transformar os pneuszinhos e culotes em fantasmas a lhe assombrarem diante do espelho.

Milagrosa, extraordinária, consegue frequentar academias sem aparecer em suas dependências, como, igualmente, ao visitar o dentista deixá-lo de boca geometricamente aberta e os olhos esbugalhados sem saber o que fazer com os calcadores espatulados.

Maviosa, insuperável, faz chover em dia de sol, nevar em pleno calor e, quando gosta de verdade, deixa que a volúpia do amor maior atravesse o corpo da criatura que ama, de um lado para outro, sem se importar se o coração do seu apaixonado se quedará em frangalhos. Para outro seguimento, ou seja, para aqueles que desconhecem completamente a mulher dos nossos arroubos, a completa, é mais complexa que qualquer complexo por mais complexo que possa parecer: escorregadia, airosa, acessível, catita, galante, não contesta, seduz com palavras as próprias palavras, não pensa em luxúrias, não se embriaga, é tolerante e não tropeça na estupidez das desvairadas nem se deixa dominar pela burrice enfática das loiras. Acima de tudo se mostra forte, briguenta, boa no meio do campo, sabe chutar as bolas para o gol e, no momento exato, derrubar o guardador de redes por mais robusto e esperto que seja, ou queira parecer, diante da sua intransponibilidade. A mulher telúrica, no conjunto, é livre de pensamentos impuros, conhece os direitos melhor que qualquer advogado, sentencia uma causa como nenhum juiz seria capaz de fazê-lo. É a tábua da salvação para o náufrago, a bóia para o desesperado no meio do rio, a respiração boca-a-boca quando a vida de um moribundo admirador está se esvaindo em abrasada paixão.

É ainda um pouco mais: pode a encantada, se transformar na maca para alojar um atropelado no meio da avenida, ser como o sol quente que brilha resplandecente quando o frio gélido insiste em apertar os ossos. Para os filósofos e pensadores, a mulher ideal é aquela pessoinha divina, imaculada, que procura, acima de tudo, uma razão para viver, para buscar a si mesma, sem se perder na procura. A que se entusiasma com as parceiras que almejam um objetivo e o alcançam sem pisar nas demais concorrentes que vêm logo atrás. Para os loucos, bem, para os loucos, a mulher ideal é aquela que beija os pés, ajoelha, reza, engole o suor supremo com o regozijo de alcançar o êxtase da fome que a devora por dentro. É a regra que quebra todas as regras e exceções, que passa por cima de tabus e preconceitos e supera o irreversivelmente insuperável. É ainda, a mulher fenômeno, a que fala a língua dos homens e a dos anjos, como também a do diabo. 

Para os aficionados em sexo, a mulher objeto é aquela abjeta. A que já vem com o tanque cheio, as cinco marchas prontas para serem passadas, os motores esquentados. A esbelta que se abre gulosa e meretriz, convidativa e quenga, a um passeio agradável por suas dobras, gomos, úvulas e goelas e, vive somente para dar. Não só dar, na acepção da palavra, igualmente receber, ser tocada, tocar, pular, cavalgar, sentar no pesado, engolir a cobra que está lhe dando o bote, gozar com os músculos retesados da linguiça (às vezes enfraquecida) que o seu homem trouxe da rua e nela colocar o seu tempero secreto, a sua massa de tomate, o seu coentro, misturar salsa, cebolinha, pedacinhos de pimentão e uma pitada quase invisível de bom óleo português e, em seguida, enfiar tudo na panela e fritar, cozinhar a fornicação até que a trepada tome forma e vida e acabe virando comida de primeira, incendiada entre fantasias libidinosas em escala planetária. Para a maioria, ou seja, para o resto, para a ralé, a mulher matéria, propósito, ideal é a que não é necessariamente ideal nem tem nada de especial. O que realmente conta, é que a sua forma não existe, é utópica, onipresente, onisciente, como Deus no céu. Para os que nunca puderam pegar ver, cheirar, tocar, sentir, manusear, provar, amar, amar, amar de verdade, a mulher ideal nasceu morta, ou melhor, como a definiu a mineira de Divinópolis, Adélia Prado em seu livro ‘Bagagem’: “sequer chegou a ser concebida”.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, do sítio “Shangri-la”, um lugar perdido no meio do nada. 7-3-2018

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Um comentário:

  1. Assim se diz também do 'HOMEM PERFEITO"(aquele que nasce morto). Para a maioria dos homens, a mulher perfeita é aquela que fica maravilhosa em um biquíni de praia, de preferência com algum dote culinário (homem adora "comer") e que não reclame de nada. Lembrando que esta mulher até existe, não para acompanhá-lo para vida toda, pois somente o amará enquanto ele prover uma "boa vida" e outro detalhe; ao passar dos anos, a beleza é pura ilusão. Brincadeiras à parte, o fato é que todos almejam alguém "perfeito", porém, ninguém o é.

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