domingo, 2 de junho de 2019

Olhar para os pés

Vitor Cunha

Desde as eleições europeias, não há dia que passe sem alguém a procurar as virtudes do PAN para as copiar para o seu próprio clube. Vai ser difícil encontrar algo repartível por todos os partidos interessados: não só estes já possuem abundância de generalidades como nenhuma das propostas sobrevive aos requisitos mínimos da lógica, propósito e sentido de proporção. Todavia, dada a nova mania por profecias de apocalipse por garotas expostas em instituições tornadas tendas de circo, o mais certo é que toda a gente termine a declarar o amor incondicional a plantas e ódio visceral ao dióxido de carbono que estas usam para oxigenar pessoas e bichos (passe a redundância).

Não é que o ambiente não necessite de cuidados: até precisa. Por exemplo, a Organização Mundial de Saúde afirma que só em 2015 morreram 429.000 pessoas com malária, sendo que cerca de 70% destas mortes ocorreram a crianças de idade inferior a 5 anos. Não sei se há uma quantidade certa de tofu que devemos comer para conter a epidemia de malária, mas – e aqui assumo a minha discordância pela preservação de espécies estúpidas – quanto mais tofu existir, mais eu posso usá-lo para esborrachar e absorver ao mesmo tempo os estúpidos mosquitos.

Avert diz que 3 em 4 das novas infecções de SIDA na África subsaariana ocorrem em raparigas e jovens mulheres dos 15 aos 24 anos. Para evitar a repetição dos 380.000 mortos na região em 2017 com a doença, qualquer um vê que o que é preciso é tornar obrigatórias as quotas paritárias exigidas pelas feministas-missionárias para o parlamento português.

As tarifas proibitivas impostas aos países em desenvolvimento que impedem as pessoas de se estabelecerem, criando riqueza que lhes permitiria saírem de abjeta pobreza e permitindo que o privilégio do “mercado livre” seja exclusivo da oligarquia emergente da luta contra a “opressão colonial”, são, obviamente, combatidas através da proibição internacional de palhinhas de plástico.

A erosão da costa, que coloca em risco a casa do autarca nas dunas, é, como não teria de deixar de ser combatida com políticas de supressão de açúcar nas dietas escolares: coma quinoa, aumente o areal.

Assim sendo, não é de admirar que aumente o interesse de todos pelo PAN: o planeta é só um, mas a distração humana pelo mal dos outros origina múltiplas hipóteses para que cada um cultive as suas alegres virtudes.
Título e Texto: Vitor Cunha, Blasfémias, 1-6-2019

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