segunda-feira, 22 de julho de 2019

[Pensando alto] Os Orixás, Mãe Menininha do Gantois e São Paulo provedor

Pedro Frederico Caldas

O governo não resolve problemas, ele os subsidia.
Ronald Reagan

Gratidão é um fruto de grande cultura; não se encontra entre gente vulgar.
Samuel Johnson

Nunca faça hoje o que pode ser feito amanhã.
Eu

Estou sentindo uma preguiça caymmiana tão gostosa que me deu vontade de escrever.
A Bahia é musical, por conseguinte, primeiro vamos cantar Caymmi:
               
“Você já foi à Bahia, nêga? Não? Então vá!”.
“Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia...”.

Ah, Dorival Caymmi, quanta contradição em teu nome! Se Caymmi fosse escrito com um “m” só daria menos trabalho.
               
Assisti a uma entrevista de Caetano Veloso no Jô Soares, se me não engano. Ponderou não ser tão preguiçoso como se dizia. Preguiçoso mesmo era Dorival Caymmi que só fazia música de dez em dez anos. Isso, obviamente, não era uma crítica, era um elogio a uma pessoa por ele tanto amada e admirada.
               
Nessa mesma entrevista, relata ter ido à casa de Caymmi, no litoral fluminense, salvo engano em Rio das Ostras. Caymmi pediu para ele ver uma coisa maravilhosa. Tinha comprado um desses ventiladores largos que se põe no chão. Ligou o ventilador e se sentou numa poltrona, na sala, todo refrescado, estava de alagodaça e perguntou a Caetano se aquilo não era uma maravilha.
               
Caetano relatou embevecido que os seus olhos iam da poltrona, onde sentado Caymmi, ao ventilador e do ventilador à poltrona, na contemplação daquela cena, de algo tão simples, mas tão importante para aquele homem famoso e de sorriso de Buda Feliz. Aquilo só poderia ser sabedoria em estado puro, algo difícil de as pessoas alcançarem. E eu aduzo: a contemplação do homem se bastando a si mesmo.
               
Estou aqui retratando, em minhas palavras, as impressões daquela entrevista.
               
Minha meta é a mesma de Caymmi: bastar-me a mim mesmo, ser feliz com o que tenho e com o que sou.
               
Já lestes o que escrevi acima?

Já, né?

Sois baiano?

Não?

Se não sois, deveis parar de ler, pois daqui por diante virou briga de família e roupa suja só se lava em casa. Vou tratar do que não é de vossa conta, vou tratar de assuntos de família, da família baiana, portanto, por favor, chispai daqui!
               
Diogo Mainardi, um iconoclasta, referindo-se a Caymmi, Caetano, Gil, Betânia, Gal e outros, disse que esses cantores famosos baianos só viviam dizendo que a Bahia era uma maravilha, mas preferiam morar na zona sul do Rio de Janeiro.
               
É verdade. Os baianos somos orgulhosos da Bahia, gostamos de cantá-la em prosa e verso. Salvador, por exemplo, é uma coisa diferente, você vai de uma parte da cidade para a outra de elevador! A Baia de Todos os Santos, com suas enseadas plácidas, de águas claras e ondinhas preguiçosas, é um convite ao dolce far niente.  E tome-lhe feriado, tome-lhe festa de largo, tome-lhe micareta, tome-lhe carnaval, que ninguém é de ferro.

Certa feita, já em São Paulo, conversando por telefone com meu administrador, perguntei como iam os trabalhos. Queixou-se da morosidade do pessoal e atalhou dizendo que, na Bahia, quando a colher cai na cozinha a pessoa já vai pegar dançando. Colher batendo no chão dá som, então...

Há sempre aquela conversa de que os festejos baianos são um ativo, rendem trabalho e dinheiro. Não vejo, por outro lado, o cálculo do passivo, do quanto se perde em trabalho e produção por tantos dias de festiva inação.

Assim, para que nos preocuparmos tanto se temos a proteção dos Orixás, as bênçãos de Mãe Menininha do Gantois, os despachos no terreiro de Coice de Mula, as louvações de Caymmi e São Paulo trabalhando por todos?
               
Na música Sampa, Caetano canta sobre a feia fumaça das fábricas e do povo oprimido nas filas, vilas, e favelas de São Paulo. Pois é, meu camará, é justamente esse povo oprimido nas filas, vilas e favelas de São Paulo que ajuda a sustentar a Bahia.
               
Duvida? Dá uma olhadinha nas contas governamentais, dá uma olhadinha no Portal da Transparência. Verá que a Bahia contribuiu, em 2015, com cerca de 24 bilhões em tributos federais e recebeu, do mesmo governo federal, 29 bilhões. Isso significa numa dádiva federal de cerca de 5 bilhões.
               
Enquanto isso, saiu do bolso do paulista quase 493 bilhões para o governo federal, contra um retorno de 39 bilhões. São Paulo, só naquele ano, foi doador de 453 bilhões aos estados que, como a Bahia, não conseguem se sustentar nas próprias pernas.
               
Você, meu conterrâneo, pode dizer que estou sendo duro demais para com a nossa Bahia Velha de Guerra. Outros estados do Norte e Nordeste, você pode ponderar, estão em situação pior, quase na mendicância. Concordo, mas sou baiano e isso mexe com os meus brios e espero que mexa com os seus também.
               
O pequenino Santa Catarina, em área e população, de orografia complicada, dá um óbolo de 37 bilhões e meio a estados gigantescos e muito mais populosos. O Espírito Santo, do meu amigo Elias Assef, idem. Injeta 12 bilhões nas veias do Brasil. Isso por acaso não nos é vexaminoso?
               
Pernambuco não passa por tal vexame, é exceção no Nordeste. São poucos estados a sustentar o resto do Brasil. Olho para isso e morro de vergonha.
               
Vamos a São Paulo e ficamos admirados com as suas autoestradas, os prédios monumentais, agricultura de alto nível, indústria moderna e competitiva, e sempre dizemos que se São Paulo fosse um país seria uma nação desenvolvida.
               
Por que a Bahia, sendo maior que a França, tendo mais do dobro da área de São Paulo, estando geograficamente bem no centro leste do Brasil, está tão distante dessa realidade paulista? Aí se pode avançar uma outra questão: já viram o ritmo do paulista, já viram sua mística do trabalho, o senso de organização de suas empresas? Será que não está faltando, a nós baianos, um pouco mais de afinco?

Confesso ter a indagação, mas não ter a resposta. Ela pode ser mais complexa do que aparenta. Dito isto, passo a palavra a todos nós, os formidáveis baianos, tão orgulhosos de si próprios e de suas tradições.

Bem sei que festividades e um certo relaxamento não são tão determinantes aos nossos problemas, mas também sei que são indicativas de um certo zeitgeist, de um certo “espírito do tempo baiano”. Mas também sei que é possível conciliar a nossa joie de vivre com espírito de determinação, o sentido de um certo “destino manifesto” que tanto impulsiona o povo americano.
               
Vocês viram que expulsei quem não é baiano para podermos lavar a roupa suja sem intrujice alheia. Então, vou admoestar baixinho no ouvido de vocês: vamos tomar tenência, gente?
               
Você pode estar molestado, pode estar pensando: que cara chato, que baiano desnaturado, se eu trabalhar mais como terei tempo de dançar na boquinha da garrafa?
               
Dance, meu filho, desfile nos Filhos de Gandhi, faça discurso em cima de trio elétrico, corra atrás de Carlinhos Brown e se empanturre de “água mineral”. Em contrapartida, empreenda mais, espere menos do Estado, siga os ensinamentos políticos e econômicos do Grupo Liberal da Bahia, preste atenção ao que dizem os liberais da Bahia, gente como André Borges, Josuelito Britto, Odilardo Galvão, André Azin, Eduardo Abreu, Romildo Pessoa, Siderval Couto, Nazareno Barbosa e muitos outros, homens de ação, empresários, profissionais liberais, técnicos, empregados de diversos setores, e tenha sempre presente a advertência de Ronald Reagan de que o governo não resolve problemas, ele os subsidia. No caso, São Paulo, aquele da “feia fumaça e do povo oprimido”, cujo povo muito trabalha, é quem basicamente fornece os recursos que o governo malbarata através de subsídios aos que não conseguem viver de recursos próprios.
               
Podemos continuar cantando a Bahia, mas não nos esqueçamos de louvar o providencial São Paulo. Como bem lembra Samuel Johnson, não sendo gente vulgar, devemos ser gratos.

Por outro lado, prestem bem atenção: quando Ivete Sangalo ou qualquer cantor mandar que vocês tirem o pé do chão, não façam isso. Pés fora do chão, cabeça nas nuvens. Lembrem-se da expressão “fulano tem os pés o chão”. Isto diz muita coisa.
               
Lembrem-se igualmente que se houvesse uma secessão e o Sul e parte do Centro-Sul se separassem do resto do País, a sobra, a imensa sobra espacial, afundaria.
               
E a nossa preguiça gostosa, oh baiano desnaturado?
               
Não se avexe, conterrâneo, vá dançar na boquinha da garrafa e deixe a preguiça comigo, eu tomo conta. Ninguém é de ferro.
               
Se começamos, terminemos cantando Caymmi: “Pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz”.
               
Com uma leseira doida, desejo uma boa semana para todos
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, 22-4-2017

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