sexta-feira, 27 de março de 2020

O medo e a servidão

Jean-Baptiste Noé

“Provocar o medo é uma arma de desestabilização para atordoar o adversário.”


A epidemia do coronavírus não foi atribuída ao Brexit; é uma das raras catástrofes que o populismo não parece ser o culpado. Todavia, desde 2016, os comentaristas anunciavam que, se ele saísse da União Europeia, as dez pragas do Egito iriam se abater sobre o Reino Unido. O Tâmisa não se transformou em sangue e os gafanhotos não são abatidos na Cornualha.

O Reino Unido apresenta uma pequeníssima taxa de desemprego e continua a atrair os melhores estudantes secundários da França, que preferem cada vez mais continuar os seus estudos nas universidades inglesas.

A guerra civil ainda não eclodiu na Irlanda, e a Escócia não se separou do seu vizinho inglês. Se ainda é muito cedo para fazer um balanço do Brexit, forçosamente constatamos que todas as previsões catastróficas não se realizaram.

Mais uma vez, muitos comentaristas e políticos sopraram o medo anunciando o pior, mas tudo isso não passou de vento.

O medo é uma arma política. Ele impede qualquer reflexão, qualquer distanciamento analítico; ele suscita paixões, radicaliza opiniões e joga o bode expiatório à condenação popular para ser degolado. O medo aniquila a especificidade das pessoas para criar grupos de massa em direção ao sentido imposto. Ele é o primeiro inimigo das liberdades e das democracias.

Na China, Xi Jinping tenta se aproveitar do medo causado pela epidemia para reforçar a centralização do poder e o controle das populações.  Em outros locais, é o medo do inimigo externo que justifica o recrutamento das massas e a militarização da juventude. O efeito da sideração impede toda e qualquer reflexão e distanciamento, resultando na ditadura da maioria: este novo despotismo já detectado com receio por Tocqueville.

A formação e a cultura são os anteparos do medo. São eles que nos evitam de cair no emaranhado da demagogia e da mentira, e asseguram a constituição de povos livres.

François Guizot já havia percebido este perigo da servidão. Só pode existir democracia num povo formado e educado; a abertura das escolas deve, portanto, preceder o início da lei do sufrágio universal. Daí a lei escolar de 1833, que favoreceu a criação de escolas em quase todas as vilas e aldeias de França.

Um país só é livre quando os seus habitantes são suficientemente instruídos para perceber a complexidade do mundo. Somos forçados a constatar que o país que se reclama de Descartes e da razão cai frequentemente no obscurantismo científico, que deixa o vento do medo soprar pelos espíritos.

Na agricultura, na economia, no clima, nas relações internacionais etc., o pluralismo intelectual é contrariado pela ausência de debate e a proibição de questionar perspectivas. Em vez de propor à juventude de se instruir, de passar o tempo nas bibliotecas lendo os clássicos, mergulhar nas ciências, descobrir disciplinas desconhecidas, propõem a ela marchas e manifestações que não levam a nada. Em vez de acender as luzes do seu espírito para iluminar os mundos que ela deverá percorrer, lhe fazem acreditar que os monstros que ela vê desenhados nas paredes do seu quarto de criança são reais.

Esta sociedade da mentira só pode desaguar em dramas: drogas para uns, seitas para outros, movimentos radicais para aqueles outros.

Se informar e saber analisar. É claro, cada um tem seus viés cognitivo, suas preferências, seus desatinos. Mas se informar e se abastecer em fontes não adulteradas é fundamental. A informação é a arma vital para estados, empresas e particulares. “Eles se instruem para vencer”, afirma a divisa de Saint-Cyr. É imperioso ser capaz de filtrar a informação, interpretá-la e analisá-la.

Somente a instrução é capaz de espantar os medos, e daí formar homens livres, homens aguerridos, como lembrava Paul Claudel: “A juventude não é feita para o prazer, ela é feita para o heroísmo.
Título e Texto: Jean-Baptiste Noé, Editorial da Revista Conflits, nº 26, março/abril 2020
Tradução: JP, 27-3-2020

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