Ontem, pelas 13H47, na cidade ameaçando chuva, uma lisboeta de avental parou, preocupada com um casal de turistas. Este agitava um mapa e tinha estampado, nas faces de ambos, a dúvida de ir pela Rua da Ribeira Nova ou pela Rua do Arsenal. A lisboeta interrogou-os com um sorriso. Eles assustaram-se, primeiro, e depois apontaram o Rossio no mapa. Ela disse-lhes, com a mão em forma de quilha de falua rasgando o Tejo, para irem pela Rua do Arsenal. Os turistas foram e, por alturas daquela loja de bacalhau, olharam para trás. Ainda lá estava a mulher lisboeta, com o sorriso e a mão em quilha: que seguissem, iam bem... Entretanto, a revista alemã Interim publicou um manifesto anunciando ataques aos turistas em Berlim. A cidade (20 milhões de visitantes no ano passado) acaba de ultrapassar Roma em número de turistas. Alguns berlinenses estão fartos desta invasão e estão dispostos, diz o manifesto, a "roubar carteiras e telemóveis, fazer arruaças nos restaurantes e locais públicos, deitar lixo à porta dos hotéis" - enfim, importunar os turistas. Há pouco, o ministério da Economia alemão reviu em alta o crescimento do seu PIB, baseado "na sustentada procura externa de produtos e serviços germânicos." No entanto, eu tenho outros índices - como a lisboeta de avental e o manifesto berlinense. Estou muito preocupado com a Alemanha.
Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 05-01-2011
Rua do Arsenal, 2008. Foto: APS |
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