segunda-feira, 16 de março de 2020

A agenda progressista do jornalismo brasileiro

Vinicius Sales

Como o jornalismo tenta alterar os valores da comunidade por meio da guerra de narrativas e da corrupção da linguagem.


A entrevista realizada pelo Fantástico com o travesti Suzy Oliveira, no dia primeiro, acendeu no meio jornalístico o debate sobre a necessidade de transparência por parte dos profissionais em comunicação. O ponto de polêmica no caso da revista eletrônica da Globo foi a postura do doutor Drauzio Varella em abraçar um homicida em solidariedade ao seu isolamento penal há oito anos.

Após a polêmica se instalar nas redes sociais, Drauzio argumentou que não perguntou sobre os crimes cometidos por Rafael Tadeu de Oliveira (Suzy) devido a sua profissão como médico. Vemos aí o primeiro argumento falho, afinal ele estava exercendo a profissão de repórter quando realizou a entrevista. Segundo a boa prática jornalística, é de praxe informar ao público o crime cometido por um detento entrevistado, como de fato foi feito com os outros detentos que aparecem na reportagem.

Vemos logo no início da reportagem que ela se trata de uma defesa de tese, em que se joga ao público uma teoria ou opinião acerca do assunto. Isso pode ser notado quando Varella comenta a “situação” de travestis na sociedade. “É uma pressão para que a trans seja considerada marginal, o tempo todo”.

Ao contar histórias sobre detentos travestis, ele escolhe Suzy como personagem que perpassa outras histórias, colocando-o como um detento a ser olhado com mais atenção pelo telespectador. A estranheza no tratamento dado a Suzy se torna gritante quando o crime de Lola, outro travesti preso, é revelado de forma tácita após ser relatado as estatísticas sobre travesti presos: “Foi por roubo que a Lola veio parar na prisão”, informa Varella.

Além do crime não ser informado, também não é citado que Suzy está “isolada” de outros presos devido ao seu crime hediondo: estuprou, matou e escondeu o corpo do menino Fábio, de apenas 9 anos. Em resposta, a TV Globo argumentou que “só depois da exibição do quadro ficou sabendo da gravidade dos crimes”.

O sociólogo Eduardo de Alencar, e autor do livro “De quem é o comando? O desafio de governar uma prisão no Brasil”, conta que o isolamento social de detentos é algo compreensível, dependendo da gravidade do crime. “O normal é que mães visitem seus filhos na prisão. Amor de mãe uma é força da natureza. A maior parte delas aguenta tudo. Inclusive pelo fato que muitas vezes moram num lugar em que é normal haver alguém com filho preso. O que não é normal, socialmente aceito em nenhuma circunstância, é um filho monstro. Disso as pessoas correm, afastam-se, renegam”.

Ele complementa: “Casos de presos solitários geralmente estão associados a crimes sexuais ou escandalosos, ou então àquele tipo de criminoso que transformou a vida da família num inferno - matou irmão, pai ou mãe, bateu, roubou de dentro de casa etc. Os outros casos, menos normais, de preso sem visita, tem a ver mesmo com o sujeito que já perdeu os pais, ou mora longe do local de origem da família.”

CONDUTA

No pedido de desculpas exibido no Jornal Nacional, ele afirma em um determinado trecho que o abraço a Suzy se deu pela comoção ao saber que o travesti estava solitário por oito anos. Nesse momento Varella simplesmente esquece que o ato não é apenas uma posição pessoal, mas também, aos olhos do público, representa a posição da Rede Globo. Nesse momento, a frase “uma imagem vale mais que mil palavras” se torna uma verdade absoluta para o telespectador.

Dentre outras práticas jornalísticas, o distanciamento com a fonte é essencial para o bom desenvolvimento de uma matéria ou reportagem. O jornalista não necessariamente precisa ser indiferente ao que está acontecendo, como foi o caso do repórter Edie Polo, da Rede TV, que abraçou Aparecida dos Santos, mãe do menino morto. Porém o jornalista precisa ter a clara noção de com quem ele está simpatizando, criando assim um critério moral para suas ações.

Lembrando que se o padrão moral do profissional for distante do que é acordado pelo telespectador, o boicote é quase certo.

Apesar de atuar como médico, Varella se esqueceu que também é comunicador e exerce a função de repórter. Seu status devido a seu trabalho social não o exime das críticas por burlar o que é comumente aceito no jornalismo (e o que é percebido pelo público).

No mesmo pedido de desculpas, ele se esconde atrás do bordão “não sou candidato”, como se em algum momento os ataques feitos a ele fossem de natureza eleitoral e não moral, e como se alguém estivesse dizendo que se solidarizar com um pedófilo assassino fosse uma estratégia para conquistar votos.

CONDUTA II

A postura da produção de jornalismo da TV Globo também merece ser avaliada segundo os critérios jornalísticos e morais. O trabalho de produzir um programa consiste em reunir o máximo de informações para que os jornalistas estejam munidos na hora de realizar seu trabalho. A edição também é outro ponto chave que pode elevar um conteúdo ou jogá-lo no abismo da rejeição. O abraço que catapultou toda essa polêmica foi decisão dos responsáveis pela seleção do conteúdo gravado (o material bruto), ou seja, da Edição.

Nisso podemos dissociar a postura de Varella e a edição do programa: se houvesse uma curadoria preocupada com o ato feito pelo médico, esse abraço jamais teria sido veiculado em rede nacional – principalmente quando a segurança pública e a violência estão no centro do debate público.

INDUÇÃO

Sob o ponto de vista teórico do jornalismo, o material produzido pela Globo abertamente defende uma agenda: a de que travestis presos são marginalizados na cadeia e merecem algum tipo de atenção por parte da sociedade.

O estudo que melhor explica os efeitos dessa produção é a Teoria do Agendamento, desenvolvida pelos pesquisadores Maxwell McCombs e Donald Shaw. O estudo foca na capacidade que a mídia possui em determinar os assuntos que serão debatidos pelo público. A estratégia envolve publicar constantemente conteúdos acerca de um determinado tema até que ele "caminhe sozinho". A ideia não é necessariamente convencer o público, mas normalizar a discussão a respeito, ou empurrar alguma tese sub-repticiamente. Por exemplo, apesar da rejeição do público e das críticas à matéria, muitos jornalistas e comentadores conservadores, e muitos sites de direita, fizeram toda a cobertura do episódio referindo-se a Rafael Machado como “a transexual Suzy”, tratando-o sempre por pronomes e artigos femininos, seguindo à risca as demandas da ideologia de gênero, que é uma das pautas mais caras aos progressistas e ativistas de esquerda.

De certa forma, a Globo conseguiu influenciar o debate público - afinal Suzy esteve no noticiário por quase duas semanas. Todavia, se não conseguiu influenciar a massa, que é conservadora, a adotar uma atitude progressista de solidariedade com um criminoso desse nível, conseguiu ao menos empurrar a linguagem ideológica aos mais insuspeitos comentaristas e dissociar a percepção de um fato da sua expressão linguística.

A corrupção da linguagem para atender pautas ideológicas é uma vitória do jornalismo militante muito mais importante do que a imposição de narrativas, pois narrativas são sempre influenciadas pelo sentido das palavras. De certa maneira, a guerra semântica ainda precede a guerra de narrativas. Para ressuscitar o jornalismo brasileiro é preciso restaurar a linguagem pública, e para isso acontecer, os formadores de opinião precisam resistir à corrupção ideológica da língua.
Título e Texto: Vinicius Sales, Brasil Sem Medo, 16-3-2020, 8h59

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