sábado, 22 de agosto de 2020

Baile de máscaras

A sombra de qualquer perigo para um corpo que se supõe imaculado deixa as cabecinhas à nora e a reclamar proteção divina. Na ausência de Deus, irrompe o poder político.

Alberto Gonçalves

Na sua página do Facebook, um médico português, devidamente identificado, afirma que se tiver um único ventilador para dois doentes com covid, o atribuirá ao cidadão que usou sempre máscara, incluindo ao ar livre. Não seria muito diferente se, entre dois pacientes com HIV, o senhor doutor fornecesse os antirretrovirais ao monge. Porém, esse nem é o ponto. O ponto é que os comentários na tal página do Facebook são quase todos favoráveis à decisão de uma criatura que, em vez de ganhar elogios, devia perder a licença para exercer. E uma comentadora exige: “Porrada nessa gente sem máscara. Levavam tantas que na próxima nem pensavam não usar.”


Nas últimas semanas tenho andado a cirandar pelo país, literalmente de Norte a Sul, com passagens breves por Espanha. O cenário é melancólico. Há gente com máscara nos sítios onde a regulamentação desconexa e grotesca obriga a usar máscara. Há gente com máscara nas ruas. Há gente com máscara a passear isoladíssima no cimo de uma colina só discernível com binóculos. Há, eu fique ceguinho, gente com máscara a conduzir sem passageiros no carro (já vi um condutor com máscara e viseira, provavelmente numa candidatura espontânea ao Campeonato Mundial da Foleirice). E depois há gente com máscara que, não satisfeita com a prova de bom comportamento, ainda faz questão de se desviar seis metros ao cruzar-se com os inconscientes de rosto à mostra. Comigo ninguém foi tão longe, mas contaram-me episódios em que malucos gritam ao transeunte desmascarado: “Chegue-se para lá!” Em suma, estamos perante uma humilhação coletiva sem grandes precedentes.

O problema nem é a humilhação: é a facilidade com que as pessoas a aceitam, o orgulho com que a ostentam, os exageros com que a alimentam e o empenho com que odeiam os renitentes. Não ocorre por um instante a estes devotos da submissão que as regras que postulam a utilização da máscara foram evoluindo, para a frente e para trás, de acordo com alucinações diversas – e com a capacidade de socialistas criarem empresas para importar o pechisbeque.

E os devotos da submissão não se lembram de questionar decretos produzidos pelos exatos gênios que, em sete meses de “pandemia”, deixaram os velhos nos “lares” entregues ao abandono e, desculpem a redundância, ao PS.

E os devotos da submissão não duvidam da propaganda espalhada pelos “media” ligados à vida por subsídios governamentais.

E os devotos da submissão não ligam às opiniões de especialistas que desaconselham a máscara e, em caso de hereges terminais, desvalorizam a covid.

Os devotos da submissão não questionam coisa nenhuma, nem sequer as exceções abertas para que comunistas festejem o estalinismo, pasmados aplaudam comediantes, o dr. Costa assista à bola e o prof. Marcelo finja resgatar banhistas em apuros.

Os devotos da submissão limitam-se a obedecer às mais absurdas diretivas a propósito dos mais absurdos pretextos. O curioso é que os devotos da submissão julgam que os indivíduos sem açaime os ameaçam com um vírus gripal, e não reparam que eles é que nos condenam a todos ao vírus da tirania, que parecendo que não é ligeiramente pior.

Resistir? É escusado. Por mim, não cedo à máscara salvo por alguns minutos mensais, a fim de pagar o combustível ou operação similar. Nos restaurantes, ainda não me obrigaram a semelhante embaraço para percorrer o caminho da porta à mesa (se obrigassem, comeria noutro lado).

Contas feitas, não uso máscara ou aquela gosma para desinfectar as mãos, não vejo canais de “notícias” e, logo, sinto-me teoricamente distante da histeria em curso. A não ser, claro, quando transito na via pública, repleta de mascarados que me recordam a inutilidade de ter vergonha na cara, ao invés de um farrapo pendurado nas orelhas. Em matéria de servidão, o voluntarismo da maioria arrasta a população em peso.

Para cúmulo, nem a tradicional propensão nacional para curvar a espinha explica a resignação demonstrada. Em Espanha, sob uma mescla de socialistas corruptos e socialistas doidos, descobri que é proibido não usar máscara em espaços públicos, fechados ou abertos. Também é verdade que, ao contrário de Portugal, célebre pela mansidão a que aqui se chama civismo, em Espanha já aconteceram protestos contra o enxovalho. E na Alemanha. E na Bélgica. E na Inglaterra. E na América. Infelizmente, trata-se de raridades, ou anomalias. Em geral, nos países onde os governos fomentam o enxovalho (os nórdicos, curiosamente ou não, dispensaram-no), os cidadãos têm acatado as ordens sem estrebuchar.

É engraçado, sobretudo para apreciadores de tragédias, que em 2020 se consinta de cara alegre a prepotência que em 1920, ou 1930, ou 1940 exigiria pancadaria firme para ser implantada. Suponho que a diferença passa pela saúde. O aumento dos níveis de conforto, assistência e infantilização levou a que, nas últimas décadas, o ocidental médio decidisse achar-se imortal. A sombra de qualquer perigo para um corpo que se supõe imaculado deixa as cabecinhas à nora e a reclamar proteção divina. Na ausência de Deus, irrompe o poder político, que vê no pavor dos simples uma oportunidade para redobrar o domínio sobre eles.

Para o poder político, passadas as fases do desnorte e da incompetência, a covid foi uma oportunidade e uma bênção, apenas variáveis de acordo com os escrúpulos de cada um.

Governos minimamente escrupulosos procuraram evitar o pânico e privilegiar a economia e, afinal, a sobrevivência.

Governos pouco escrupulosos aproveitaram para testar o grau de tolerância ao despotismo e à arbitrariedade.

Governos nada escrupulosos fizeram o que o governo português tem feito. Sobre os escombros de uma nação falida e as vítimas de doenças graves, o dr. Costa já promete vacinas inexistentes – e gratuitas (não riam) – às massas aturdidas pelo medo de uma doença que mata, se mata, duas ou três alminhas por dia.

É muito difícil recuperar a liberdade que se perdeu pela força. É quase impossível recuperar a liberdade de que se abdicou livremente. A máscara, tradicional símbolo de assaltantes, é agora emblema de assaltados, uns e outros cúmplices deste gigantesco roubo.

Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 22-8-2020

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