sexta-feira, 28 de agosto de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Inimigos silenciosos

Aparecido Raimundo de Souza

DEPOIS DE muito relutar a boa senhora dona Gertrudes resolveu ligar para a secretária e marcar uma consulta com seu clínico geral. No dia aprazado, lá foi ela ter com o especialista, um pouco angustiada, ruborizada e muito, muito embaraçada e confusa:

—  Bom dia, doutor.
—  Bom dia, dona Gertrudes, quanto tempo! Estava sentindo a sua falta. A última vez que a senhora esteve aqui o doutor Godofredo ainda gozava de boa saúde:
—  É verdade.
—  Por favor, sente-se. O que me conta de bom?

—  Doutor, de bom... Nada. As mesmas baboseiras de sempre. Tenho, porém, um problema novo... Nem sei por onde começar... Nessa idade, quase beirando os oitenta e nove... Sinto um certo constrangimento e... Confesso, estou com vergonha do senhor.
—  Que é isso, dona Gertrudes. Vergonha de mim? Tenho idade para ser seu neto. Ademais, leve em conta um detalhe importante: sou seu médico há mais de trinta anos.
—  Nunca esquecerei desse detalhe. Mas o senhor deve ter em mente que das vezes anteriores os motivos eram outros e claro, não tão sérios.

—  Vamos fazer o seguinte: faça de conta que no meu lugar a senhora está vendo seu marido, o falecido e saudoso doutor Godofredo —, que o Altíssimo o tenha em sua santa bondade. Abra o jogo. Não pense em mim... Concentre-se...
—  Sabe o que é doutor?
—  Só saberei se a senhora me contar o que está realmente acontecendo.

—  Doutor... Misericórdia, que horror! Estou cheia de gazes.
—  Isso é natural, dona Gertrudes. Todos nós temos problemas com gases. Eu, particularmente, minha esposa, meus filhos, minhas netas, minha secretária, até nossos bichinhos de estimação...

—  Eu sei, eu sei, acredite doutor, não me aborrece a coisa, ou o fato em si. Me deixa avechada a coisa. Ou melhor, as coisas...
—  As coisas?
—  Isso mesmo, doutor. E são estas coisas que me causam estranheza. Eles...
—  Eles, dona Gertrudes? Eles quem?!
—  Os traques...

—  Ah agora entendi. Claro, os traques, ou as flatulências...
—  O pior vem agora, doutor. Eles nunca cheiram.
—  Pois sim!... Isso é normal.
—  E são literalmente silenciosos.
—  Silenciosos?
—  Completamente, doutor. Não fazem barulho.

— Um bom quadro, dona Gertrudes. Um bom quadro. Silenciosos e sem odores acres.
—  Odores o quê?
—  Perdão. Quis dizer que não exalam mau cheiro.
— Ah! Pois bem, doutor. Desde que cheguei ao seu consultório, contando o tempo que passei na recepção —, soltei aproximadamente uns trinta puns. Sua secretária, tão amável —, serviu várias xícaras de café e água gelada. Coitadinha, não reclamou, nem fez cara de deboche. Significa dizer que não sentiu nenhum cheiro esquisito nem torceu o nariz ao ouvir minhas  bufas.

— Honestamente não vejo onde reside a sua preocupação, dona Gertrudes.
—  Vou tentar ser mais clara. Posso?
—  Por favor!
— Enquanto estou aqui a falar com o senhor, soltei meus repolhos intestinais... Desculpe... Soltei mais uns quarenta ventinhos. O senhor não percebeu.

Sempre sorridente o médico prescreveu uma receita:
—  Compre estas pílulas na farmácia e tome uma de duas em duas horas durante uma semana. Após esse prazo, retorne e marque um novo horário com a Fabiana. Vamos ver que progresso conseguimos.
—  Fico muito agradecida, doutor. Passe bem.

Uma semana depois a velha Gertrudes retornou ao consultório:
—  Doutor, não sei que droga me receitou. Por Nossa Senhora do Sagrado Coração de Maria. Meus chulos, desde então, passaram a feder terrivelmente. Já sentiu cheiro de carniça? Um horror! Não estou aguentando mais ficar perto de mim. Parece que morri e esqueceram de me enterrar. Todavia, devo esclarecer um detalhe importantíssimo: eles, ao menos, continuam silenciosos e comportados.

— Dona Gertrudes, graças a Deus embrenhamos pelo caminho certo. Conseguimos curar definitivamente a sua sinusite. Agora que vencemos esta etapa, vamos dar uma atenção maior e mais acentuada aos seus ouvidos.
— Não entendi, doutor. Aos meus ouvidos?
—  Sim dona Gertrudes. Vou encaminhá-la, agora mesmo, a um otorrinolaringologista.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, Espírito Santo. 28-8-2020

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