sexta-feira, 21 de agosto de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Borduna nas têmporas

Aparecido Raimundo de Souza

TONINHO FOI SE APROXIMANDO lentamente, sem que Antonella se apercebesse de sua aproximação. Quando deu com ele, a jovem se levantou e o beijou carinhosamente no rosto.
Antonella:
— Desculpa. Não vi você chegar. Faz tempo que está por ai?
Toninho:
— Uns dez minutos. Quando estacionava, topei com seu carro e, longo em seguida achei você. Não quis te importunar. Fiquei quietinho, esperando. Parecia distante. Onde estava?
Antonella:
— Longe...
Toninho:
— Onde exatamente?

Antonella:
— Em algum lugar do passado.
Toninho:
— Fazendo?
Antonella:
— Pensando...
Toninho:
— Em quê?
Antonella:
— Na vida. Em mim. Sobretudo, em mim...

Toninho:
— E o que pensava?
Antonella:
— Bobeiras. Coisas sem nexo.
Toninho:
— Não quer falar dessas bobeiras?
Antonella:
— Até posso. Afinal, não são coisas que precise esconder de ninguém. Pensava que não sou feliz. Imagine só: a vida inteira procurei pela felicidade e, ela, nunca chegou, sequer, aos meus pés.
Toninho:
— E o Marcos Vinícius?

Antonella:
— Uma homem lindo.
Toninho:
— Só isso?

Antonella:
— Excelente companheiro.
Toninho:
— Algo mais, Antonella?

Antonella:
— Um amor de pessoa. Rapaz de bom coração. Dotado de gestos nobres. Cabeça no lugar. Visão profunda, das coisas. Tem uma família legal, uma irmã maravilhosa. Estefânia é o nome dela. Na sexta passada saímos juntos. Estivemos aqui.

Toninho:
— Que legal, que bacana. Até onde vocês foram? Quero dizer, no encontro?
Antonella:
— Até um beijo descontraído nos lábios.
Toninho:
— Se beijaram? Que massa!
Antonella:
— Não pense maldades. Tudo rolou sem segundas intenções.
Toninho:
— Apesar disso... Foram além?

Antonella:
— O que é ir além, pra você, Toninho?
Toninho:
— Ultrapassar o sinal vermelho.
Antonella:
— Não estávamos de carro. Só eu. Logo...
Toninho, aos risos:
— Você entendeu o que eu quis dizer?
Antonella:
— Não. Sou meio burra para certas coisas. Explique melhor.

Toninho:
— Ultrapassar o sinal vermelho é chegar aos finalmente.
Antonella:
— Nem perto chegamos.
Toninho:
— Quem deu para trás na hora?
Antonella:
— Eu.
Toninho:
— Só isso?
Antonella:
— É. Só isso. Eu dei pra trás, literalmente.
Toninho:
— Conte os detalhes.

Antonella:
— Embaçou, amigo. Não existem detalhes. Caminhamos daqui até o farol. De lá, descemos à areia. Ele tirou o tênis. Eu os sapatos. Arregacei a bainha da calça. Ele idem. Começamos a andar pela praia. De vez em quando, parávamos para olhar o mar. Não se via nada. Só escuridão. O farol, como você sabe, está desativado há meses. Então eu...
Toninho:
— Você o quê, Antonella?
Antonella:
— Eu o beijei na testa. Foi um beijo assim tipo delicado, meigo, sutil, coisa de amigos. Depois... Depois viemos embora.

Toninho:
— E os "finalmente?"
Antonella:
— Não houve finalmente...
Toninho:
— Você uma moça tão linda, não jogou seu charme?
Antonella:
— Não quis jogar charme, tampouco forçar a barra. Chegamos ao — , perdão — , eu cheguei a um beijo. Um único beijo. Foi só. Se isso para você significa os finalmente...
Toninho:
— E o Marcos Vinícius, não partiu para o ataque?

Antonella:
— Ele bem que tentou, mas, diante da minha frieza, passou batido.
Toninho:
— Batido?
Antonella:
— Sim. Ele forçou algo mais sério, eu me mostrei fria e sem interesse...
Toninho:
— Eu teria caído matando.
Antonella:
— Toninho, quando um não quer, dois não brigam.

Toninho:
— Concordo com você.
Antonella:
— Fui tão indiferente que ele chegou a tremer de medo mesmo. Quem sabe estivesse pensando que eu fosse além do beijo, ou do pegar nas mãos.
Toninho:
— E depois do tal beijo?
Antonella:
— Ele fechou os olhos, abaixou a cabeça e sorriu. Me respeitou. Adorei esse gesto. Num momento me pareceu estar envergonhado.
Toninho:
— Antonella, o Marcus Vinícius tem fama de mulherengo. Até onde sei, traça todas. Não conheço ninguém que ele não tenha tirado proveito...

Antonella:
— Ele é um gentleman. Diria que hoje em dia é difícil encontrar um cara igual a ele.
Toninho:
— Tudo bem: e depois do balde de água fria, o que ele fez?
Antonella:
— Voltamos, de novo ao farol. Antes de nos calçarmos...
Toninho:
— Continue...
Antonella:
— Repeti o beijo. Só que desta vez, não na testa, mas nos lábios. Selinho. O tremor do corpo dele desaparecera por completo. Senti o seu coração batendo descompassado. Abracei-o pela cintura. Depois, entrelacei minhas mãos em volta de seu pescoço e disse: gato, não há nada de errado com você. Eu é que estou com a cabeça em outro lugar.


Toninho:
— E ele?
Antonella:
— Concordou. Quando eu iria revelar um segredo a ele, avistamos uma luz.
Toninho:
— Um carro?
Antonella:
— Certamente.
Toninho:
— Prossiga...
Antonella:
— Rapidamente calçamos os sapatos, desdobrei a bainha da calça, ajeitei os cabelos...
Toninho:
— E...?

Antonella:
— A luz veio se aproximando, se aproximando. Então parou. A uns duzentos metros de nós.
Toninho:
— Ladrões?
Antonella:
— Pensávamos que fosse. Era a polícia. Dois fardados saíram do carro e se aproximaram com uma lanterna nas mãos. Perguntaram o que fazíamos por ali, àquelas horas. Eu expliquei. Eles falaram que era perigoso ficar, devido ao adiantado da noite. “Tem havido uma série de assaltos por estas bandas. Seria melhor que vocês fossem embora”.
Toninho:
— Então?
Antonella:
— Achamos melhor seguir o conselho. Entramos em meu carro. Deixei-o em casa.

Toninho:
— Em casa?
Antonella:
— É no portão.
Toninho:
— Como foi a despedida?
Antonella:
— Voltei a lhe dar um beijo no meio da testa. Repeti o abraço. Permanecemos agarradinhos bem uns cinco minutos. Depois ele entrou, silencioso. Antes de fechar, de vez, a porta e apagar a luz da varanda, olhou para mim e me jogou um beijo com a mão direita. Então me afastei, entrei em meu carro e fui embora para minha casa dormir.
Toninho:
— E conseguiu conciliar o sono?

Antonella:
— Não.
Toninho:
— Por quê?
Antonella:
— Fiquei ruminando umas coisas. Não falei a ele do meu segredo...
Toninho:
— Que coisas? Que segredo?
Antonella:
— Poderia ter jogado ele aqui na areia onde estamos agora, ou lá no farol. Igualmente arrancado as roupas daquele deus grego com sofreguidão, e as minhas peças íntimas e então, partido para o ataque, como nossos amigos costumam dizer: e “feito a festa”.

Toninho:
— E por que não deu seguimento à sua loucura?
Antonella:
— Quer saber?
Toninho:
— Claro que quero...
Antonella:
— Não conseguiria fazer nada. Acho que... Acho que na hora entraria em pânico.
Toninho:
— Cara, você entraria em pânico estando em cima, quero dizer, embaixo de um homenzarrão daqueles?

Antonella:
— Completamente...
Toninho:
— Não estou entendendo. E quanto a mim? Vamos supor: se eu ficasse nu, aqui agora, na sua frente e lhe agarrasse. Acha que não conseguiria fazer amor comigo?
Antonella:
— Não, não faria...
Toninho:
— Por acaso me acha feio?
Antonella:
— Claro que não. Você é delicioso. Um gato. Tem tudo que uma mulher aprecia num macho. Sério.

Toninho:
— Nossa, você me deixou lisonjeado.
Antonella:
— Você é como o Marcos Vinícius. Perfeito. Sublime, angelical. Tem os lábios maravilhosos... Carnudos, como gosto... ah!...
Toninho:
— Então? O que há de errado comigo? Você sabe que no fundo tenho uma quedinha por você. Adoraria fazer sexo contigo. Se você me pedisse, eu me transformaria no seu garoto de programa, aqui, agora. Afinal o que nós homens, de um modo geral temos de errado que faz você se afastar?
Antonella:
— Se eu falar você me odiaria. Esse é o segredo.
Toninho:
— Jamais. Fale.

Antonella:
— Tem certeza disso?
Toninho:
— Absoluta. Você é minha amiga. Abra seu coração comigo.
Antonella:
— Eu...
Toninho:
— Em frente, minha princesa. Sou todo ouvidos...
Antonella:
— Acho melhor a gente mudar de assunto.
Toninho:
— Claro que não. Seja lá o que for que está querendo me dizer, vá em frente.
Antonella:
— Tem certeza que não me olhará com raiva e desprezo depois?

Toninho:
— Você disse que sou como o Marcos Vinícius. Perfeito, sublime, angelical. Acho que no fundo está me dando uma cantada. Antonella, responda: na boa. Você quer ser minha namorada?
Antonella:
— Não. Não posso. Não quero. Toninho, eu gosto... Aliás, amo de paixão a Estefânia... E o Marcos Vinícius captou essa mensagem. Este é o meu segredo que não contei a ele e o estou fazendo agora, a você. Quer saber? Estou louca pra cair de corpo e alma nos braços e abraços dela e me entregar até ver estrelinhas brilhando em pleno sol de um meio dia radiante. Resumindo, meu amigo: a fruta que você gosta, eu chupo até a exaustão.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo, 21-8-2020

Colunas anteriores:

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-