Carina Bratt
O TEMPO PASSOU. Se
esvaiu, inexorável, a cada dia que correu desembestado. Deixou, atrás de si,
uma pesada desordem opressiva de intensa e infinita saudade. Uma saudade
insatisfeita, angustiante, dolorida, macambuziada, destoada, cheia de feridas
que não se curaram como deveriam. As cicatrizes desse tempo também não se
fecharam, ao contrário, viraram, a cada minuto engolido pelos ponteiros do
relógio, chagas eternas, cujas marcas seguiram altivas e estão visíveis aos
olhos dos mais saudosos, usque aos devaneios, aos sonhos e as quimeras de
pessoas que viveram em épocas remotas de um ‘ontem’ desfalecidamente
mortificado.
Ventos irrequietos e agitados,
devastadores e buliçosos, passaram a soprar a todo instante, fazendo ressurgir
cadáveres insepultos, defuntos em estado de decomposição, como se pretendessem
varrer, da paisagem bucolizada, todas as lembranças que ainda perduravam
guardadas em algum lugar, à sete chaves. Ao apartado, espaçadamente remotado e,
por toda parte, a quinta extensa e contínua, esticada desde a banda da linha férrea
até o asfalto da BR, se pressente que algo sobrenatural se fez instituído de
vontade própria. Um não sei o que destruiu, abateu, em câmera lenta, o reino
vegetal que antes se vestia de cores flamantes e suntuosas.
No mesmo tom, as flores
coloridas perderam o viço, a exuberância, o vigor, a robustez, o pulso da
vibração. As árvores que sobreviveram tentaram conservar as ilusões, os
desvarios, os simulacros de um ‘ontem’ que há muito ficou estagnado,
imobilizado, represado na sobrecarga da poeira acumulada de décadas e décadas.
As casas, que outrora sorriam, estão igualmente, caindo aos pedaços. Seus
antigos ocupantes se foram. Partiram. Criaram longas pernas e fugiram,
amedrontados, pela estrada que agora é só um caminho abandonado ao acaso em
meio a um matagal que mal se dá para enxergar a trilha original. O presente,
por sua vez, se institucionalizou.
As variedades do hoje que
tomavam conta deste mundinho encantado, sufocaram as recordações, os gritos das
crianças, os mugidos dos gados soltos no pasto e os cacarejares das galinhas à
porta da cozinha. Havia um poço, logo ali, perto do paiol e da residência do
capataz e dos empregados. Um córrego de águas rápidas e límpidas (que desciam
das montanhas e cortavam o terreno imenso, em forma de cobras se movendo em
lisonjeirados espirais), se escafedeu. Do poço restou um pedaço de muro cheio
de ervas daninhas. Do córrego, um fio tênue de líquido barrento pareceu se
fartar de pavor e, agora, demonstra ter medo de correr pelo leito serpenteando
os quatro cantos da fazenda.