sábado, 21 de novembro de 2015

O terrorismo e o suicídio da Europa

André Azevedo Alves
Uma Europa onde impera uma cultura de repúdio pelos pilares da civilização ocidental dificilmente se poderá defender de ameaças externas. Aliás essa cultura de repúdio é — a prazo — uma ameaça maior.

Na sequência dos bárbaros ataques terroristas de 13 de Novembro em Paris, a reacção do Presidente francês François Hollande foi considerá-los um acto de guerra, declarar o estado de emergência e anunciar o encerramento das fronteiras de França. A postura de Hollande – que parecia tentar empenhadamente imitar George W. Bush na reacção aos ataques de 11 de Setembro de 2001 – poderia ser considerada irónica, se as circunstâncias não fossem tão obviamente trágicas.

O mesmo pode ser dito do anunciado “encerramento das fronteiras”, especialmente tendo em conta a nacionalidade francesa de vários dos terroristas. Não espanta que assim seja quando o próprio Estado francês estimava que já em Abril deste ano houvesse mais de 1400 franceses no Estado Islâmico, representando cerca de metade do total de estrangeiros nas suas fileiras. Desses, cerca de 200 teriam já entretanto regressado a casa, em França.

Perante este preocupante panorama no interior de França, quase se poderia afirmar que, caso Hollande fosse efectivamente capaz de encerrar as suas fronteiras, estaria a dar um importante contributo para a paz no Médio Oriente. Infelizmente, a realidade é bem mais complexa. O primeiro passo para tentar compreendê-la é precisamente reconhecer que não há respostas fáceis (ou que talvez haja, mas estão muito provavelmente erradas). O segundo passo é não deixar de colocar questões difíceis e incómodas que se impõem, mesmo tendo presente que não há resposta fáceis, como fez aqui José Manuel Fernandes.

Em primeiro lugar, é inevitável que a questão do controlo das fronteiras externas da UE seja equacionada de forma mais séria do que tem acontecido até agora. A carga emotiva (compreensivelmente) associada à crise dos refugiados obscureceu o debate deste tema. Os atentados terroristas em Paris obrigam a reequacionar o problema e aumentam o preço político de desvalorizar o controlo efectivo das fronteiras externas da UE.

Seria no entanto ilusório e demagógico utilizar os atentados terroristas em Paris como argumento para proibir a entrada de quaisquer refugiados na Europa. Convém, aliás, não esquecer que uma parte significativa desses refugiados foge precisamente dos terrores do Estado Islâmico (em cujas fileiras combatem muitos cidadãos europeus). Daí que a estratégia de combate ao Estado Islâmico seja uma segunda questão central. Também aqui não há respostas fáceis, mas vale a pena recordar que PCP e BE – as duas forças partidárias das quais depende o suporte parlamentar maioritário anunciado por António Costa – já se manifestaram veementemente contra qualquer acção militar na Síria e no Iraque para combater o Estado Islâmico.

Em terceiro lugar, é fundamental perceber – sem com isso desculpabilizar os autores morais e materiais dos actos terroristas – que algumas das raízes mais fortes do terrorismo se desenvolvem no coração da Europa e decorrem de décadas de políticas falhadas. As eufemisticamente designadas ZUS (“zones urbaines sensibles”) que existem às centenas em França são porventura o mais flagrante exemplo do fracasso combinado das políticas de integração e das políticas sociais francesas. Como escreveu André Abrantes Amaral: “A França lembra uma panela de pressão. Durante anos insistiu-se numa política de integração que mantivesse as diferenças, mesmo quando os detentores das mesmas as queriam esquecer. Ao contrário do que é aconselhável num debate intelectual sério, em que as ideias devem ser debatidas de forma honesta e imparcial, qualquer chamada de atenção para os riscos dessas políticas foram carimbadas de racistas. Assim tem sido porque não se visa encontrar a melhor solução, mas impor uma ideologia, uma forma de vida, uma orientação política.”

Com elevados níveis de desemprego, dependência generalizada de subsídios estatais e ausência de ordem pública, muitas destas zonas são os campos de recrutamento ideais para os extremistas. Um recrutamento que é facilitado também pelo relativismo cultural que se tornou dominante na Europa. Como realçou Roger Scruton: “Take any aspect of the Western inheritance of which our ancestors were proud, and you will find university courses devoted to deconstructing it. Take any positive feature of our political and cultural inheritance, and you will find concerted efforts in both the media and the academy to place it in quotation marks, and make it look like an imposture or a deceit”.

Uma Europa onde impera uma cultura de repúdio pelos pilares da civilização ocidental dificilmente se poderá defender de ameaças externas. Aliás, essa cultura de repúdio é ela própria – a prazo – uma ameaça maior e mais difícil de derrotar do que qualquer organização terrorista.
Título e Texto: André Azevedo Alves, Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, Observador, 21-11-2015

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