sábado, 18 de junho de 2016

A sociedade aberta e os nossos inimigos

Alberto Gonçalves

Numa época em que se reclama a abolição dos tabus, ergue-se um tabu gigantesco: admitir a peculiar relação entre o terrorismo contemporâneo e o islão

A matança numa discoteca de Orlando lançou a esquerda ocidental na habitual busca de “explicações”.

Como o assassino nascera na América, o problema é a sociedade em questão.

Como o assassino era homem e heterossexual o problema é o “heteropatriarcado” (juro!).

Como o assassino era inadpatado, o problema é a exclusão social causada pelo capitalismo.

Como o assassino comprara armas, o problema é a facilidade de acesso às ditas.

Como o assassino batia na esposa, o problema é a violência doméstica.

Como o assassino sofria de distúrbios mentais, o problema é a falta de um sistema universal de saúde.

Como o assassino era religioso, o problema é o fanatismo de todas as religiões.

Como as vítimas eram gays, o problema é a homofobia.

Como o assassino detestava mulheres e negros, o problema é a misoginia e o racismo.

Como assassinos similares rebentaram com cartunistas, transeuntes, espectadores de concertos, frequentadores de aeroportos, clientes de restaurantes e banhistas, o problema passa por fobias diversas que urge estudar. Qualquer desculpa serve desde que caiba na cartilha em vigor, idêntica ao programa da SIC E Se Fosse Consigo?.

Claro que o objetivo do exercício consiste em desprezar a circunstância de Omar Matteen, o psicopata desta história, não ser ateu, cristão, budista, judeu ou jeová, mas – segurem-se bem – muçulmano. Numa época em que se reclama a abolição dos tabus, ergue-se um tabu gigantesco: admitir a peculiar relação entre o terrorismo contemporâneo e o islão. Por acaso, é possível que tanta cautela em não ofender provoque um efeito contrário ao desejado.

Deve ser muito irritante para os zelotas do profeta verem as suas reivindicações repetidamente desvalorizadas. O senhor Omar ocupava o tempo em fóruns radicais online? O que importa é o peso da National Rifle Association.

O senhor Omar dizia-se jihadista? Isso é tudo muito lindo, porém, o perigo é a nossa cultura machista.

O Estado Islâmico assumiu o massacre? Conversa fiada: convém é repudiar o imperialismo dos EUA.

Enquanto as autoridades analisam o crime e ponderam deter o “heteropatriarcado” para interrogatório, o criminoso confessa-se aos berros à porta da esquadra – e ninguém lhe liga. Não custa imaginar as cúpulas do Daesh próximas de uma crise nervosa.

Infelizmente, também não custa imaginá-las a conspirar (ou a “inspirar”) os atentados que se seguem, os quais contarão, deste lado, com a alucinada subserviência do costume.

A cada chacina, as “causas” do dia a dia mostram o seu caráter oportunista: por mais que se finja defender os homossexuais perseguidos ou as mulheres agredidas, o que realmente interessa é acarinhar a crença que persegue aqueles e que agride aquelas.
Quem “luta” pelos direitos humanos e aplaude sem reservas a construção de uma mesquita não engana.

Quem “sofre” pela discriminação e marcha contra Israel não disfarça.

Descontados os ingénuos terminais, é lícito reconhecer que, hoje, a esquerda não se limita a tolerar excessivamente os excessos do islão: a esquerda (e alguma “direita” trafulha ou confusa) é a sua embaixadora – às vezes oficial, conforme prova o finaciamento iraniano ao Podemos espanhol.

Dado o ódio de ambos à liberdade, não admira. Admirável é ainda não ser evidente que o sangue suja as mãos de uns e outros.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Sábado, nº 633, 16 a 22 de junho de 2016
Digitação: JP

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