sexta-feira, 8 de julho de 2016

Uma heroína do nosso tempo

Alberto Gonçalves
Vou respeitar um minuto de silêncio para que o leitor controle o pranto e enxugue as lágrimas. Já está? Tentemos prosseguir. Na segunda-feira, a dona Isabel surgiu no noticiário da TVI a exigir a obrigação de as empresas organizarem “seminários sobre assédio laboral”

Elie Wiesel, que morreu há dias, sobreviveu ao Holocausto e tornou-se um dos seus mais conhecidos divulgadores. Podemos discutir se Noite, livro de 1958, é uma grande obra literária. É indiscutivelmente um testemunho brutal da vida, se disso se tratava, em Auschwitz e em Buchenwald. Só não é único porque, felizmente, muitas vítimas do nazismo escaparam para contar a sua infeliz história, criando um subgénero que pelo menos um crítico designou por “indústria do hocausto”. Para inúmeros anti-semitas e self-hating jews, lembrar o horror é um golpe para encher páginas e ganhar dinheiro. “Denunciar” o golpe, e com isso encher páginas e ganhar dinheiro, é que é um gesto nobre.

Se a extrema desumanidade  da “solução final” é para desvalorizar e esquecer, ignoro que tipo de acontecimentos traumáticos estes vigilantes julgam digno de preencher um volume de memórias. Talvez o terrível bullying entre crianças. Ou, valha-nos Deus, o crucifixo na sala de aula. Ou, cataclismo dos cataclismos, o assédio sexual no trabalho.

À primeira vista, a deputada Isabel Moreira [foto], que partilha com Wiesel a tatuagem no braço, não passou por atrocidades comparáveis. Aliás, o partido que representa encontra-se tacitamente coligado com um partido assumidamente comunista, cujos regimes se especializaram em campos de concentração, e com outro assumidamente trotskista, cujo mentor ajudou a inventar os campos de concentração modernos. Mas que importam os detalhes? Os queixumes do Gulag ou das câmaras de gás são para meninos. A trágica verdade é que a filha de Adriano Moreira, e emérita activista pela Palestina, sofreu assédio quando, menina e moça, iniciava a carreira num escritório de advogados.

Vou respeitar um minuto de silêncio para que o leitor controle o pranto e enxugue as lágrimas. Já está? Tentemos prosseguir. Na segunda-feira, a dona Isabel surgiu no noticiário da TVI a exigir (as almas sensíveis exigem imenso) a obrigação (as almas sensíveis obrigam imenso) de as empresas organizarem “seminários sobre assédio laboral”. E foi aí que, enquanto explicava a necessidade da lei (as almas sensíveis legislam imenso), confessou, quase contrariada, o drama pessoal: “(A coisa) chegou ao ponto de, para mim, ser aflitivo ir trabalhar, aflitivo ser chamada para trabalhar a horas que não era suposto. (…) Ao fim de meses de desgaste (…), acabei por ganhar coragem de dizer a quem de direito e resolver a situação.”

Até sinto um nó na garganta. Como é possível uma pessoa aguentar tamanha violência? Como é possível uma pessoa achar “aflitivo” trabalhar? Como é possível uma pessoa ser chamada a trabalhar a horas “que não é suposto” (sic)? Como é possível uma pessoa pôr termo a este desmesurado suplício? Pelos vistos, dizendo “a quem de direito” e pronto. Porém, isso implica possuir a “coragem” da dona Isabel, benesse que não coube a todos. Se os prisioneiros não fossem medricas e fizessem as queixinhas adequadas, o extermínio dos judeus nunca teria acontecido.

Só não espero que dona Isabel converta as suas feridas para livro na medida em que follheei um “romance” (?) dela e é escusado alargar a tortura à língua. Mas, a bem da memória e do futuro, é urgente que a senhora percorra empresas a reivindicar uma sociedade que respeite as mulheres. A título de modelo, a senhora pode citar a sua amada Palestina.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Sábado, nº 636, de 7 a 13 de julho de 2016
Digitação: JP

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