terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Espanto e choque. O que fazer face a Trump

José Manuel Fernandes

Não se iludam: Trump está a explorar a cegueira de quem o critica sem compreender as inseguranças que levaram tantos americanos a elegê-lo. O nativismo não se combate com um cosmopolitismo histriónico

Não vale a pena disfarçar: a rapidez com que Donald Trump começou a assinar “ordens executivas” apanhou-nos de surpresa. Como já nos tinha apanhado de surpresa a sua vitória. Escrevi no dia seguinte que acordáramos num mundo que deixáramos de conhecer, e falei de espanto e choque. Pouco mais de uma semana depois de ter tomado posse é necessário ter a humildade de reconhecer que Trump continua a surpreender-nos – quem preveria que ele ia cumprir à letra as promessas de campanha, mesmo as mais excessivas? – e que o mundo se tornou assim não apenas mais imprevisível como mais perigoso.

Antes de tudo o mais, procuremos, com a serenidade possível, compreender o que se está a passar, até porque o corte de Trump com o passado é, em muitas frentes, mais retórico do que substancial – e por isso mesmo pode ser mais perigoso, pois mexe com emoções a irracionalidades.

Deu ordens para que a construção do “muro” na fronteira com o México avance? É verdade. Mas também é verdade que um terço desse muro já está construído, obra de sucessivos presidentes, uns republicanos, outros democratas. O que é diferente em Trump é que o que era motivo de vergonha passou a ser motivo de orgulho. O que é significativo é que tenha passado a chamar “muro” ao muro, em vez de lhe chamar “vedação” ou “gradeamento”. As palavras têm imenso significado, mas já voltaremos a elas.

Deu também ordens para que os visitantes provenientes de sete países de maioria muçulmana não entrassem nos Estados Unidos por um período de três meses. Que países escolheu? Os que a anterior administração, a de Obama, tinha colocado na lista dos mais perigosos no que respeita à exportação de terroristas. Nem mais um, nem menos um. E se essa ordem executiva barra a entrada a refugiados sírios, que moral tem a Europa (quase toda ela) para falar desse assunto? Mais: que moral tem o próprio Obama, já que nos primeiros anos do conflito os Estados Unidos quase não receberam refugiados desse país (29 em 2011, 31 em 2012, 36 em 2013 e 105 em 2014, só em 2016 este número tendo ultrapassado os 10 mil)? De resto o próprio Obama emitiu ordens de restrições temporárias e seletivas à imigração vinda exatamente dos mesmos países.

Mais uma vez o que aqui é radicalmente novo é a linguagem adoptada e o “orgulho” em barrar a entrada a imigrantes vindos desses sete países de maioria muçulmana. E o sucesso da mensagem: numa das primeiras sondagens divulgadas depois de conhecida esta “ordem executiva” 48% dos americanos disseram apoiá-la, contra 42% que disseram estar contra. Noutra sondagem o apoio à medida chega mesmo aos 57%. As manifestações que enchem os noticiários não parecem refletir o sentimento da maioria, pelo que em vez de nos entusiasmarmos com elas devemos preocupar-nos com o sucesso de Trump junto dos eleitores – mais uma vez.

Por isso regresso ao tema da humildade e da linguagem. Humildade porque temos de perceber as razões do sucesso político – persistente – de Donald Trump. Linguagem porque aquilo a que estamos a assistir é a uma corrupção de valores que se traduz numa sistemática violação de interditos. Sendo que há interditos e interditos.

Nas últimas décadas assistimos a um assalto do “politicamente correto” que tratou de impor uma linguagem única que, mais do que corresponder a valores democráticos e humanistas partilhados por todos, correspondeu à tentativa de impor uma agenda ideológica de “engenharia social”. Ainda esta semana Helena Matos nos falava de como as palavras se tornaram na nossa prisão, e não há dúvida que colocou o dedo na ferida.

Na sua campanha, e agora na sua Presidência, Trump explorou o ressentimento contra essa ditadura do “politicamente correto”, mas ao fazê-lo não ridicularizou apenas os seus excessos, minou ao mesmo tempo os interditos que nos permitem conviver de forma civilizada. A forma como tratou na campanha, e está de novo a tratar com todo o teatro em torno das suas ordens executivas, os mexicanos e os muçulmanos não tem a nada a ver com recusar a ortodoxia dos polícias da linguagem, antes desperta e explora os sentimentos mais rasteiros da sua base eleitoral.

Não gosto de estabelecer paralelos históricos que podem induzir em erro, e não julgo que estejamos a reviver esse tempo sombrio e de extremos que foi a década de 1930, mas se lermos a história com cuidado então saberemos que nessa época a catástrofe das democracias foi uma consequência da radicalização das margens e do colapso do centro. Hoje não assistimos a guerras de rua como as que opunham, nesse tempo, os grupos armados de extrema-direita e de extrema-esquerda, mas a guerra de linguagens, de preconceitos e de palavras a que já estamos a assistir é disso um inquietante prelúdio. Um incendiário prelúdio. Um prelúdio onde o excesso e a javardice – perdoem-me o termo – são já demasiado comuns.

Quase tudo aquilo que os adversários de Trump têm vindo a fazer tem contribuído para que ele reforce a sua posição. Quando os atores milionários de Hollywood fazem comícios em cada cerimónia em que aparecem, os eleitores de Trump não vacilam, cerram fileiras. Quando Obama quebra a regra do silêncio que os ex-presidentes sempre respeitam está a dar força aos que protestam, mas não a enfraquecer a legitimidade de Trump, antes a reforçá-la. Quando os órgãos de informação tratam de forma totalmente desproporcionada os protestos anti-Trump e as manifestações de apoio estão a fechar-se ainda mais na “bolha” que os impediu de perceberem o descontentamento anti-establishment que grassava (e grassa) na América que não vive nas grandes cidades.

Eu sei que tudo o que escrevi no anterior parágrafo contraria o espírito do tempo, pelo menos o espírito do tempo que domina a nossa comunicação social. Mas isso não me interessa. O que me interessa é contrariar Trump (e os seus aliados europeus) no seu próprio território, falando aos que o apoiam, mostrando que compreendo os seus problemas, mas que as minhas soluções são melhores, mais eficazes, mais moderadas e mais inclusivas. Ora não posso fazê-lo sem começar pelo princípio, isto é, por reconhecer que existe um problema e que esse problema está na forma como lido com as fronteiras e com os poderes do Estado-nação. O que implica desafiar muitos tabus.

O nativismo floresce em muitos países – e não apenas nem sobretudo nos Estados Unidos – porque grande parte da população sente que deixou de controlar o seu destino, nalguns casos que é quase estrangeira no seu próprio país. O que é confortável para a elite cosmopolita, que aboliria já hoje todas as fronteiras, cria insegurança entre todos os que vão ficando sem as suas referências tradicionais. Essa mesma elite que se diz pronta a acolher todos os migrantes que chegarem ao mundo desenvolvido também não vive nos bairros onde esses migrantes depois se instalam, nem anda nos mesmos transportes públicos.

Não era preciso haver ameaças terroristas para que, nos dias da globalização, fosse necessário controlar o movimento das populações. Não era necessário termos visto chegar Trump (e os seus amigos europeus) para concluirmos que só no quadro dos Estados-nação é possível forjar consensos democráticos coletivamente assumidos, e que não há Estados-nação sem fronteiras e que estas, mesmo porosas, têm de ser fronteiras. Porque senão algum dia alguém fará delas muros. 
Título e Texto: José Manuel Fernandes, Observador, 31-1-2017

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