terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Mundo das palavras

Aparecido Raimundo de Souza

A PROFESSORA DE PORTUGUÊS CONVOCA SEUS ALUNOS PARA QUE escrevam um poema romântico como lição de casa. Os trabalhos deverão ser apresentados na primeira aula vindoura. O melhor, o mais autêntico e criativo, será afixado por trinta dias no mural da escola, logo na entrada do estabelecimento, além de ser publicado no jornalzinho semanal. O autor ganhará, ainda, um livro de sua predileção a ser escolhido numa livraria do shopping e, de lambuja, ter a chance de ser agraciado com uma bela nota dez.

Aula seguinte, logo que adentra na sala, a mestra, com os óculos pendurados no pescoço por uma fita preta, percebe a plateia cheia. A primeira coisa que pergunta antes de cumprimentar a galera é exatamente pelos trabalhos:
– E então? Fizeram o que pedi?
Um tremendo de um “sim” em uníssono se ouve de um canto a outro.
– Vamos ver quem apresentará o melhor. Luizinho comece mostrando o seu.

Luizinho levanta da carteira, pega a folha de caderno e vai até à frente. A um gesto da professora, se põe a ler:
– “Eu sei...
Talvez eu tenha sufocado teu sentimento
Não consegui sintonizar teu pensamento
Saber o que você queria arrancar de mim”.

Imediatamente a professora interrompe o garoto levantando a mão branca que se estende como uma língua de sapo seguida com um gesto de desaprovação:
– Luizinho, isso aí não é criação sua.
– Claro que é professora. Fiz ontem à noite.
– Luizinho, mentir é muito feio. Não fica bem para um piá na sua idade. Você não é mais uma criancinha. Já tem até projeto de bigode. Sem contar que completou, semana passada, doze anos. Quase um homem. Diga a verdade: não foi você quem fez esses versos.
– Foi eu, sim, senhora.
– Não foi.
– Não costumo mentir.
– Pois bem: já que insiste em manter a lorota não vejo outra saída a não ser desmascarar você, aqui e agora, na frente de todos. Esses versos pertencem a uma música que está em um dos CDs da dupla Bruno & Marrone.
– Quem?
– Não se faça de desentendido...
– Qual foi o nome que a senhora falou aí?
– Bruno & Marrone.
– Nunca ouvi falar. O que eles fazem?
– Cantam.
– Nossa! Não é do meu tempo...

Um dos guris estica o braço e interrompe o diálogo. Grita:
– Seu burro. Bruno & Marrone são aqueles caras que dormiram na praça.
– Ué! E eu lá tenho culpa deles não terem casa?
– Chega. Luizinho. Volte para seu lugar.
Pego de calças curtas, na mentira contada, o moleque sai de fininho. Volta direto para seu lugar. Não consegue evitar uma enxurrada de vaias.
– Silêncio. Jorginho, sua vez.  

Jorginho passa a mão em seu caderno e se empertiga ao lado do quadro negro.
– Pode começar. Estamos ouvindo.
– “Sempre chega a hora da solidão,
Sempre chega a hora de arrumar o armário
Sempre chega a hora do poeta a plêiade
Sempre chega a hora em que o camelo tem sede”.

A professora volta a interferir, desta vez mais nervosa:
– Jorginho, até você, o mais aplicado da turma? Que decepção!
– A senhora não gostou da minha poesia?
– Não, não gostei. Aliás, detestei...
– Quer que eu faça outra?
– Não.
– Por quê?
– Essa poesia não é sua...
– Claro que é...
– Quer passar pelo mesmo vexame do Luizinho?
– Professora, por favor, me escuta. Não vou passar por vexame nenhum. Já disse a senhora que fui eu quem fez...
– Ok. Darei minha mão à palmatória se você me esclarecer o que significa essa palavrinha que você colocou no seu poema.
– Palavrinha?
– Isso mesmo.
– Que palavrinha?
– Plêiade.
– Plêiade?!
– Sim senhor.
– Chiiiii!... Professora. Me deu um branco.  Esqueci...

– Estou muito envergonhada. E decepcionada. Não esperava isso de você...
– Só porque esqueci o significado da palavra, professora?
– Não. Por querer me dar diploma de burra. Jorginho, esses versos que você nos apresentou nunca foram seus. É de uma música de Ana Carolina.
– De quem?
– Ainda por cima, um tremendo cara de pau e sonso. Volte para seu lugar. Gustavinho venha até aqui.

O menino solicitado se ergue num salto em resposta ao chamado e se prostra, em pé, não ao lado da lousa, mas da mesa onde estão os pertences pessoais da preceptora. Cuidadosamente desdobra uma folha suja que traz no bolso e se prepara para ler. A professora, porém, crava o baixinho bem dentro dos olhos, com ar de profundo nervosismo e praticamente esbraveja:
– Espero, sinceramente, que você não contribua para irritar ainda mais a minha indignação. Fez a poesia?
– Sim, senhora. Posso...?
–Tirou da sua cabeça ou copiou de algum CD como fizeram seus coleguinhas?
– Inventei. De verdade! Lá vai...
– Devo acreditar em suas palavras?
– Sim, senhora. Deve.
– Se vocês me aprontarem mais uma – anuncia num gesto quase formal -, mais uma só que seja, comunicarei à direção da escola e mandarei chamar os pais de cada um para uma conversa séria. Fui clara, Gustavinho?
– Pra mim está tudo bem, professora.
– Perfeito. Então você vai apresentar agora, para todos nós, um texto que você fez, sem ter tirado ou copiado de nenhum livro ou CD. Certo?
– Tem minha palavra...
– Em nome dela darei um voto de confiança. Comece.

– “Eu, calado, peido.
Tu, ao meu lado, cagas,
Ele não limpa a bunda.
Nós contamos para a turma
Vós, amada mestra, brigais com a gente,
Eles nos pegam, de porradas, lá fora”.
– Chega! Pode parar Gustavinho. Estou realmente pasma. Sem palavras, boquiaberta. Horrorizada. Desde quando essa porcaria que você escreveu pode ser considerada uma poesia romântica?

Na maior das inocências o jovenzinho se vira para a amada professora e rebate à altura, bastante seguro de si:
– Meu trabalho pode não ser muito romântico professora, até concordo. Mas a senhora deve convir comigo que, além de ser de minha autoria, e, o mais importante, de não ter copiado de ninguém, o troço é bastante criativo e profundo...

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Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista, de Vila Velha no Espírito Santo. 14-2-2017   

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