sexta-feira, 30 de junho de 2017

O governo já fez “o mais fácil”

Rui Ramos

Dizem-nos que a demissão seria “o mais fácil”. Mas o governo já fez “o mais fácil”: na prática, já se demitiu, perante o conjunto de organismos e de interesses a que, por hábito, chamamos "Estado".

Perante a desordem administrativa que deixou 64 mortos e mais de 200 feridos no Pedrogão-Grande, o governo fez duas coisas. Primeiro, invadiu o terreno, com coletes refletores e olhos humedecidos, confiado em que este seria mais um problema que se resolveria com encenações de proximidade e afeto. A prova de velocidade da Ministra da Administração Interna para aparecer ao lado do Presidente da República ficou a simbolizar essa primeira fase, em que o que se tratava era de ficar bem na fotografia, segundo a manha que o furacão Katrina ensinou às elites políticas ocidentais em 2005 (apareçam e ponham caras tristes).

Mas a certa altura, o governo percebeu que a comédia dos abraços não bastaria desta vez para diluir a perplexidade e a indignação perante um Estado incapaz de desempenhar as suas funções mais básicas. Mudou então de táctica, e começou a fazer perguntas, muitas perguntas, às mais variadas entidades. As respostas, chegadas ao longo dos dias, foram frequentemente contraditórias entre si. O caso do SIRESP é significativo: segundo a Proteção Civil, falhou; segundo a empresa concessionária, não falhou. E segundo o governo? Segundo o governo, não se sabe. Os ministros não dão respostas, só fazem perguntas. É uma situação curiosa, em que o governo não se comporta como um órgão de decisão e de liderança, responsável em última instância, mas como uma espécie de comissão arbitral, neutra entre as várias partes. Quando a oposição, na Assembleia da República, propôs um inquérito independente, o governo aderiu logo. Se amanhã a Assembleia Geral da ONU sugerisse o envio de capacetes azuis, fica-se com a impressão que o governo também apoiaria. Tudo, menos assumir responsabilidades.

No meio disto, explicaram-nos que a demissão seria “o mais fácil”. Acontece que o governo, à sua maneira, já fez “o mais fácil”: na prática, já se demitiu, perante o conjunto de organismos e de grupos de interesse a que, por hábito e à falta de melhor termo, chamamos “Estado”. Em Portugal, o poder público está capturado por uma massa indefinida de interesses corporativos e privados, que submetem os serviços às suas conveniências. O atual governo é o menos capaz para enfrentar e corrigir essa desordem.

Em primeiro lugar, porque tem à sua frente alguém que os portugueses, em 2015, rejeitaram claramente quando o seu partido o propôs como “candidato a primeiro-ministro”. A derrota deixou António Costa dependente de toda a espécie de boas vontades para chegar ao poder, a começar pela dos seus parceiros parlamentares, que precisamente fazem lobby por alguns dos maiores grupos profissionais e corporativos instalados no Estado. Manter esses e outros grupos satisfeitos é a chave da sua sobrevivência.

Em segundo lugar, porque este governo é, no fundo, o regresso dos indivíduos e das equipas que, sob António Guterres e depois sob José Sócrates, governaram o país durante a maior parte das últimas décadas e criaram e promoveram os interesses anichados em todo o lado, da banca às PPP, como é o caso da concessionária do SIRESP (António Costa é, precisamente, o homem do SIRESP). Como pode o criador, sem se negar, destruir as criaturas?

Este governo pouco mais é do que uma comissão de gestão da massa falida de vinte anos de regime, que a política monetária do BCE e o acaso feliz do turismo vão, por enquanto, mantendo à tona. Por isso, como já foi notado, só parece funcionar quando as notícias são “positivas” e há coisas para distribuir. Aos primeiros reveses da sorte, ei-lo a fazer angustiados testes de popularidade. Enfim, ainda não sabemos quando isto vai acabar, mas já sabemos como vai acabar.
Título e Texto: Rui Ramos, Observador, 30-6-2017

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Um comentário:

  1. Em primeiro lugar, porque tem à sua frente alguém que os portugueses, em 2015, rejeitaram claramente quando o seu partido o propôs como ‘candidato a primeiro-ministro’.

    Mas então como explicar os 60% de ‘popularidade’?

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