sexta-feira, 4 de agosto de 2017

[Aparecido rasga o verbo] O velho balanço

Aparecido Raimundo de Souza

ÀS VEZES, NA MINHA SAUDADE cheia de pesadas digressões e insípidos detalhes, recordo a infância distante, perdida, agora, na poeira do tempo. Dentro dessa saudade, afrontando perigos terríveis os mais diversificados, me transporto (como num sonho bom), levado que sou pelas asas coloridas da fantasia dimensional. Nessa viagem minhas prerrogativas se propagam e então, extasiado, alcanço os primórdios daquela quadra risonha e feliz, onde, pés descalços, palmilhando sofregamente a terra batida passava os dias brincando contente, numa adolescência puramente bucólica e envolvente destituída da maldade dos adultos e da perversidade dos homens sem lei.

Claro como a luz incandescente que abrasa meus dias atuais, vai se desenrolando, com a nitidez de uma reconstituição inesperada, uma espécie de visão cadente. Dentro dela, vejo o alpendre com as mesas e as cadeiras em madeira pura, a pinguela sobre o córrego junto aos canaviais, o curral, o paiol de guardar mantimentos (que, de tão antigo, se debruçava no peso de sua própria caducidade) e o monjolo que funcionava incansável, às margens de um riacho de águas límpidas e brilhantes, onde no começo de noite, por volta das dezoito, uma lua bonita vinha refletir a sua resplandescência. A tudo sinto claramente, como se tivesse vivendo aquele momento (tal e qual aconteceu exatos) sessenta e quatro anos atrás.

Mas esperem! Falta uma peça importante para completar esse jogo de recordações que invade meu “eu” entorpecido. Não consigo encontrar esse elo ausente, esse brinquedo que durante anos a fio representou a minha verdadeira razão de existir. Falo de um balanço. De um velho balanço que vivia escondido, lá bem longe da casa grande (mais para perto dos campos cobertos de primavera), quase a roçar nos trilhos da velha Maria Fumaça, que propriamente do imenso quintal que adornava a galeria em torno da construção principal. Todo cair de tarde, por volta das quatro horas, quando vinha descansar a estafa da escola primária, era naquele balanço de correntes enferrujadas, meu passatempo preferido.

Vezes sem conta, me punha a balançar em ritmo coordenado e eloquente, esquecido de tudo, da vida, das lições chatas de matemática (de português não, adorava as aulas de redação), da professora de história, da merenda ruim e repetida, dos colegas brigões e dos castigos impertinentes com joelhos ao milho (rosto colado à parede), ou quando, por qualquer besteira, extrapolava além da conta, entrava em cena, a admoestação endossada pela abusada e temida palmatória. Naquele vai e vem mavioso, algo bom e sensível espantava para as colinas verdes e adornadas de esperança, as intempéries e incertezas de meus dias memoráveis. 

Dava a impressão em minha desenvoltura espiritual, meus tesouros de astúcia e fertilidade de imaginação, que no “vai” alcançava um futuro muito além das minhas possibilidades de menino sem dono. Como se, num repente, topasse com outro mundo paralelo e desconhecido, esmagando taciturnamente meus sonhos desordenados. Na verdade, era mais feliz o “vem”, porque novamente retrogradava, recuava no tempo, passava pela infância querida, batia os pés no meu chão vermelho e tudo, tudo como num passe de mágica, se transformava.

Nessa conversão, voltava a ser criança outra vez. Dentro de mim, me sentia gente, apesar de morar com vovô João, senhorzinho encurvado pelo peso dos janeiros, seu rosto congelado sob as rugas, como o de um vivente sem vida, entretanto, simples de alma e humilde de coração. Retinha dentro de sua fragilidade, meu querido avô, uma paciência de Jó. Parecia um personagem saído de uma canção carnavalesca dos tempos do ronca. Na pele de um rei, me via poderoso, apesar de não ter mamãe por perto, papai ausente e separado dela, de não existir, tampouco, nenhum irmão da minha idade ou qualquer outra criança que me viesse fazer companhia. Embora prevalecesse essa lacuna, me aquilatava exaltado. De certa forma, fortalecido e solenizado. Como era bom estar de volta ao aconchego familiar! Vovó Martinha, entrincheirada nas suas horríveis dores de coluna, não regateava a atenção para comigo.

Sinto, por todas essas coisas, uma falta tremenda de seus pães quentinhos, do café feito na hora, de seus doces, da sua comida no fogão à lenha. Por volta das oito horas, logo depois do jantar, tendo por companhia a lareira, vovô João, acomodado em sua espreguiçadeira, fazendo prevalecer a sua imaginação, botava para fora histórias fantásticas, inventadas, contos classificados no prodigioso fichário que se transformara a sua memória.  Hospedeiro aos extremos, lhano e sociável, agarrado a esses enredos de espantos crescentes, criavam vida e forma, em suas palavras, bruxas e príncipes, fadas encantadas e cinderelas que se viam presas em castelos, por mãos de homens de corações maus, que transportavam criaturas inocentes em carruagens vermelhas, com cavalos de duas cabeças para um planeta desconhecido, cuja entrada ficava numa caverna, em meio da floresta densa e intocável...

Nesse retornar, me sentia envolvido pelo calor daqueles que me cercavam de carícias e afetos. Esses mimos se faziam quase opressivos, contudo, dentro de uma ansiedade que não chegava a ser tirana. Tardão da noite (não poderia me esquecer desse detalhe), meu Deus do céu... os vaga-lumes do campo vinham enfeitar a sacada, onde me sentava antes de dormir, para espiar compridamente o tempo. Tinha a impressão de que o céu caía inteiro do infinito e se postava, vencido, aos meus pés descalços de pobreza. Apesar dessa desproteção, eu era capaz de viver, numa única existência, uma série de outras realidades num percurso que se me abria com infinitas sucessões.

Como se fosse o apertar de um gatilho de uma arma poderosa, quebrava o marasmo, algo parecido com uma bala zunindo sons estranhos, libertando as vozes eufóricas dos sapos enterrados no brejo, dos grilos perdidos nas folhas das árvores e fazendo voar, num deslocamento pesado, os morcegos irrequietos que durante o dia dormiam negligentes e omissos na hospedagem do monjolo. Esses fatos, em conjunto, provocam uma espécie de explosão momentânea.

Em mil pedaços me reparto agora, me desdobro, me compartilho. Ao fazê-lo, me vejo correndo feito guri daninho, de um lado para outro do passadiço. A todo custo, pretendo reter a noite, com todos os seus segredos. Guardar tudo numa caixinha de madeira velha, que mantenho escondidinha debaixo de minha cama. Porém, as mãos trêmulas de moleque encapetado não me permitem tal façanha.  Agora, quando passados tantos e tantos janeiros, percebo, com certa tristeza, todas essas coisas se foram, se perderam, sumiram no abismo imensurável e não volta mais. Abobalhado, de queixo caído, me questiono: por Deus, todas essas relíquias para onde foram? Em que parte de mim está escondida aquela quadra risonha que fazia parte do meu dia a dia? Essas indagações giram em minha cabeça no ritmo de um motor sendo acionado numa aceleração sofrida.

Talvez seja por isso, que às vezes, na minha saudade, angústia imensa como um mar proceloso pancadeando restos de um naufrágio, recorde a infância distante, perdida, agora, na poeira do tempo...

Como é bom, como faz bem viajar ao passado! Encontrar o chão de terra vermelha (nele o pomar de laranjas e as bananeiras), entremeado entre as duas velhas montanhas rochosas que os dominavam do alto. De roldão, o abacateiro florido onde eu subia e rasgava as calças. Havia também, as galinhas, os patos, marrecos e porcos que vovó Martinha juntava no terreiro, quando saia à porta da cozinha, sem deixar de lado as pedras e bugigangas rejeitadas que colocava nos trilhos dos trens que cortavam a herdade...

Nessa minha agonia imorredoura e atroz, sempre falta o velho balanço, com seu barulho tênue que ficava esquecido nos fundos do quintal. Essa peça enferrujada, que me fazia sentir mais criança que o moleque peralta existente dentro de mim. Cadê o velho balanço?  Em que cantinho oculto de minha alma, em que desvio da minha lembrança, em que atalho nesse meu agora ele se quedou adormecido e estático? Indubitavelmente, era nesse velho balanço que viajava para o futuro.    


No mesmo passo, montado nele andejava, desenredado, roubava, com uma só mão segurando a corrente, o espaço distante, as nuvens que voavam baixinhas, o sol gostoso, o ar mormacento que respirava o vento ameno que tocava nas folhas, e também o calor que aquecia meus cabelos. Confortavelmente sentado nesse brinquedo, acomodado com todas as minhas quimeras e esperanças, a cabeça jogada para trás, roubava com arrojo o azul mavioso do infinito e, de contrapeso, a paz enternecedora dos olhos de Deus para enfeitar os caminhos incertos e desconhecidos da minha louca imaginação.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De São Paulo, Capital. 4-8-2017

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3 comentários:

  1. Como é bom recordar as peraltices da nossa infância, onde a felicidade era constante, ahhh o balanço esse sim é uma bela recordação, onde podiamos dar asas a nossa imaginação, sentir a brisa suave tocar nosso rosto, onde os sonhos mais loucos em nosso momento criança se faziam findar. Eram tantos sonhos guardados que com o tempo ficou perdido no ar. Lindo texto; parabéns Aparecido Raimundo de Souza. Muito gostoso recordar nosso tempo de crianca

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  2. Agradeço, carinhosamente, o comentário da "Essencial Produções", na pessoa da jovem Carla, ao meu texto "O Velho balanço". Obrigado, de coração.

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