sábado, 27 de janeiro de 2018

Na Bahia barroca, um Brasil autêntico que se foi…


Carlos Sodré Lanna

A arquitetura barroca nos oferece um aspecto do Brasil de outrora, autêntico porque refletia a alma de nosso povo. Para tornar mais fácil a compreensão do assunto, daremos dois exemplos que bem caracterizam esse estilo: o convento e a igreja da Ordem Terceira do Carmo [fotos acima e abaixo] em Cachoeira, cidade do Recôncavo baiano, que aparecem na fotografia desta página.

Os materiais usados nesse estilo arquitetônico são os mais facilmente encontrados na região onde se situam, como as pedras, a madeira, o barro para reboco, areia; na ornamentação, ouro em abundância, prataria, pedras preciosas e azulejos finos com motivos bíblicos.


O Convento do Carmo

O Convento do Carmo foi fundado em 14 de março de 1688, destinado a ser mais tarde riquíssima obra de arte e monumento histórico de destaque, mas sua construção estendeu-se pelo século XVIII. As principais finalidades dos carmelitas lá estabelecidos foram a evangelização dos índios e o atendimento espiritual dos colonos da região do Recôncavo baiano. Ele foi construído em torno a um claustro interno, formado por quatro galerias e dividido em nove celas, dois salões amplos e outras dependências.

Além deste edifício existe ainda a Igreja do Convento, com uma decoração interna ricamente ornamentada. Devido às restrições impostas pelo Marquês de Pombal — pérfido ministro português do século XVIII — que muito prejudicaram a vida religiosa na metrópole e nas colônias, o Convento do Carmo foi utilizado pelo governo para diversas finalidades, como quartel, Câmara Municipal, Tribunal do Júri e Casa da Moeda, que o deterioraram enormemente, mas sem alterar seu estilo.


Igreja da Ordem Terceira

A Igreja da Ordem Terceira do Carmo, que se observa do lado direito da foto acima, foi construída no início do século XVIII, sendo um dos mais belos templos barrocos do Brasil.

A parte interna da nave principal é toda ornamentada com jacarandá entalhado, revestido de ouro e pintado com impressionante riqueza cromática, além de ostentar azulejos finíssimos nas paredes laterais. No altar principal, uma imagem de Nosso Senhor do Bonfim [foto ao lado], quase em tamanho natural, entre resplendores de ouro, faz desse nicho uma joia sem par em nossa escultura religiosa barroca.

A fachada externa compõe-se de três partes, de épocas e estilos diferentes. Apesar disso, nada quebra a harmonia das severas linhas do edifício, onde o vazado das arcadas dá uma plácida sensação de leveza, equilibrando de maneira singela a densa fachada da igreja.

Impressão causada pelo conjunto: estilo simples, mas elegante, unindo Convento e Igreja em perfeita harmonia; riqueza interna de arte em ouro, prataria e talha em madeira; uma nota de religiosidade e tradição barroca que evoca um passado glorioso.

Deus e as Pompas

Fala-se muito, hoje em dia, de um “triunfalismo” da Igreja, que se trata de mudar para a chamada Igreja “dos pobres”. Não há dúvida de que o barroco é um estilo triunfal, com seus altares e paredes ricamente ornamentados e refulgentes de ouro e de prata. Mas estariam nossos antepassados errados ao honrar deste modo a Deus, seus anjos e seus santos?

Vejamos os ensinamentos da Sagrada Escritura. No Monte Sinai Deus dá diretamente a Moisés instruções sobre a maneira de construir os santuários em que ele queria ser adorado. Os filhos de Israel deveriam trazer para isso as primícias. “E estas são as coisas que deveis receber: o ouro, e a prata, e cobre, jacinto e púrpura, escarlate tinto duas vezes e linho fino… e pau de cetim … pedras de ônix, e pedras preciosas, para adornar o efod e o racional. E far-me-ão um santuário, e Eu habitarei no meio deles” (Ex. 25,3-8).


Os homens do século XVIII, em meio à abundância da descoberta de ouro e pedras preciosas especialmente em terras americanas, ofereciam a Deus o que de melhor possuíam, para O honrar e servir. E o fizeram através do estilo barroco, característico desse brilhante período de nossa história, no qual se encontra uma luz que ainda nos pode indicar o caminho a retomar, com vistas ao futuro, ou seja, a restauração da civilização cristã.
Título, Imagens e Texto: Carlos Sodré Lanna, ABIM, 27-1-2018

Obras consultadas:
1. Valentin Calderón — “O Convento e a Ordem Terceira do Carmo de Cachoeira”, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 1976. 
2. José de Azeredo Santos — “Igrejas de Minas do Século XVIII”, Catolicismo, Nº 173, maio/1965.

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