sábado, 24 de março de 2018

Uma vítima entre 60 mil

Alberto Gonçalves

Dado que Marielle Franco partilhava uma religião que se limita a considerar a vida dos fiéis e a desprezar as vidas restantes, o barulho seletivo e sonso em volta da sua morte é inteiramente adequado

Há dias, o homicídio de uma vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, causou particular consternação em Portugal. Da indignação nas ponderadas “redes sociais” a votos de pesar no parlamento, o assunto dominou a atualidade durante os dois ou três dias da praxe. Porquê? O que distinguia uma vítima de quem, suponho, 99,95 dos portugueses nunca ouvira falar?

Captura de tela matéria no G1

Não foi o facto de ser brasileira. Em termos quantitativos, o Brasil é, com impecável avanço, o país com mais assassínios no mundo, e o décimo quarto qualitativamente. A cada ano, mais de 60 mil pessoas são por lá mortas a tiro ou métodos alternativos, sendo o Rio um lugar bastante prolífico na matéria. A circunstância de o Brasil possuir, desde o sr. Lula, uma legislação altamente restritiva no que respeita à posse de armas de fogo é apenas um pormenor, decerto irrelevante. Relevante é a habitual ausência de comoção deste lado do Atlântico.

Não foi o facto de o crime ter tido uma provável motivação política. Na vizinha Venezuela, são frequentes as matanças por razões “ideológicas”, com ou sem aspas, e nenhuma comove os portugueses “oficiais”. Mesmo no Brasil, e mesmo no universo da política municipal, só em 2017 foram abatidos perto de quarenta autarcas, de filiações diversas e por motivos sortidos. Nem um suscitou a atenção da Assembleia da República.

Não foi o facto de a dona Marielle ser “favelada”, impostura repetida nos obituários e desajustada a uma cidadã que trepou pela escada social e pela política. Além disso, “favelados” a sério são alvos preferenciais da cultura de violência predominante no Brasil e não consta que estimulem vigílias em Lisboa.

Não foi o facto de a dona Marielle ser, conforme lembraram os “media” com curioso frémito, “mulher, negra e lésbica”. Entre as resmas de cadáveres baleados ou esfaqueados no Brasil, é estatisticamente impossível não haver milhares pertencentes a mulheres, muitas delas negras, algumas lésbicas, cujo triste fim não mereceu lamentos de cançonetistas e homenagem de deputados. Além disso, seria grotesco que, nestes “inclusivos” tempos, o género, a “raça” ou a orientação sexual influenciassem a piedade ou a indiferença das massas.

Não, senhor. O homicídio da dona Marielle provocou rebuliço porque a senhora era “ativista”, suave código para “comunista” e autorização, ou ordem, para luto carregado. Uns mandam e, por convicção, medo, contágio ou perturbação, os demais obedecem. Tivessem as balas atingido um democrata comum, dos que prezam a liberdade e ninharias afins, o caso passaria à obscuridade com discrição e a ajuda de dois terços da AR: a unanimidade fúnebre abençoa unicamente os que combatem injustiças discutíveis em prol de injustiças inomináveis. Absurdo? Nada. Dado que Marielle Franco partilhava uma religião que se limita a considerar a vida dos fiéis, e a desprezar as vidas restantes, o barulho seletivo e sonso em volta da sua morte é inteiramente adequado.

Notas de rodapé:
1. Depois do ministro das Finanças, soube-se que o dr. Costa também pediu bilhetes para a bola. Em paragens menos folclóricas, o pedido seguinte seria o de desculpas, e talvez o de demissão. Por cá, é uma tradição respeitável, um pretexto para gracejos no parlamento, um pormenor imune a juízos de valor, uma simples pincelada na vasta aquarela da portugalidade. O mistério nem é tanto o sermos governados por burgessos, ou os burgessos se divertirem à nossa custa. O mistério é nós gostarmos.

2. É como a história do sujeito que faleceu com um resfriado agravado pelo camião que lhe passou por cima. Já sabíamos que os incêndios do ano passado haviam sido provocados por um raio despropositado, eucaliptos imaginários, a perfeita “tempestade de fogo” (?), alterações climáticas, agiotas da madeira, o sr. Trump, a incúria das populações, maluquinhos da aldeia, o governo de Passos Coelho, a ausência de cabras “sapadoras”, a seca, a desdita, etc. Soube-se agora de uma insignificância que é capaz de ter qualquer coisa a ver com o assunto: entre março e outubro, o governo recusou total ou parcialmente sete avisos da Proteção Civil para a necessidade de mais bombeiros e aviões no terreno. No meio destas curiosas desavenças burocráticas morreram cento e tal pessoas, fora trocos materiais. Das que sobreviveram, e a julgar pelas sondagens, uma boa parte continua a apoiar o PS, e outra parte rechonchuda apoia as seitas que apoiam o PS (PSD “moderado” incluído). São livres disso. Não se livram é de confundirmos os lamentos pela tragédia com um cinismo cruel e até um bocadinho demente.

Foto: Miguel Silva
3. Ao contrário de alguns, não me parece mal que uma criatura como o sr. Fernando Rosas ande a tossir palavreado pelas televisões e pelos jornais. Para ser sincero, até acho pedagógico: a presença dele ilustra na perfeição o caldo de subserviência e miséria a que chegou o chamado “espaço mediático” nacional. A título de exemplo, há dias o sr. Fernando Rosas decidiu que o CDS só tem um dirigente gay porque “é moderno”. Dos portentos intelectuais do BE, uma pessoa habitua-se a ouvir quase tudo. Porém, nunca tinha ouvido que, à semelhança da cor dos suspensórios do sr. Fernando Rosas, a homossexualidade é uma questão de moda. A ser verdade, há sujeitos que, embora propensos a entusiasmar-se com a Amy Adams, resignam-se ao apresentador Malato porque as tendências Primavera/Verão assim obrigam. A ser mentira, não é, apesar de tudo, das maiores proferidas por cabecinhas do BE. Claro que, na boca de um político de “direita”, a frase seria uma exibição de ódio e intolerância. Na boca do sr. Fernando Rosas, à solta na coutada do macho esférico, a atoarda passou, salvo por uns exaltados que no Facebook exigem a punição da personagem. Esquecem-se de que, dia a dia, hora a hora, instante a instante, a personagem já sofre o pior dos castigos: ser o sr. Fernando Rosas.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 24-3-2018

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