sexta-feira, 12 de julho de 2019

[Aparecido rasga o verbo] Doença incurável

Aparecido Raimundo de Souza

QUANDO CHOVE, PARA TUDO. Pelo menos na minha rua. E atentem que estou fazendo referência à avenida principal, a que corta o bairro, de um extremo a outro. A água é tanta, mas tanta, que nenhum carro pequeno atreve a se aventurar arriscando a vida útil do veículo em meio à enxurrada lamacenta que desce de dois morros em derredor da via principal. O mais engraçado e jocoso. A novela não é de hoje. Tem mais tempo no ar que a escolinha de atores das tardes chatas e repetitivas da Rede Globo. 

A confusão igualmente vem de longa data. Desde os tempos em que minha avó andava por aqui numa bicicleta de uma roda só. Bastou o tempo fechar a cara, franzir o cenho, por meia hora, que seja, e o complexo demográfico, em peso, se perde comprometido, envolvido, impossibilitado, hipotecado e, claro, acorrentado num intransitável, embaraçoso e improbo. Com essa perturbação efervescente da ordem, as lojas fecham as portas, os transeuntes se ilham à procura de abrigo e o trânsito, o trânsito se torna um salve-se quem puder no caótico do engarrafamento.

Tudo toma forma de arrocho, desses bem atados e amarradiços.  Grosso modo, vira um enorme nó.  Nó de nó górdio o que é pior. O folhetim é o mesmo do idêntico ao anterior. Sempre! Os atores, idem. Nunca se revezam. No cotidiano das putarias entra prefeito, sai prefeito e o quadro horripilante não muda as tintas. Nem as promessas que os safados e pilantras fazem (geralmente em épocas eleitoreiras), trazem alguma coisa de novo, de útil ou de diferenciado. Nessas ocasiões em que a raia miúda precisa ir às urnas, à força bruta de uma democracia de merda, de um estado de direito apodrecido pela corrupção, vejam, caros leitores e amigos, são as mesmas histórias, as mesmas promessas, as mesmas fuças lendárias de sempre que voltam à cena e entram com tudo no picadeiro.

Nada se modifica se altera ou se transforma...  e o povo sofrido, pisoteado, impaciente, como sempre, de mãos atadas, os pés amarrados, venda nos olhos, e inconsequentemente a massa disforme encabeçada pelo Zé Povinho tomando no meio dos cornos, para não mencionar um lugar mais apropriado a essas enfiadas de bananas, como por exemplo, no rabicó esbagaçado e literalmente pandarecado do desditoso.

Resumindo a disfunção erétil, senhoras e senhores. A galera numa hipótese diagnóstica de quem vê a coisa de fora: é o velho mal que não sara, que não cura, que não debela que não cicatriza. E não estanca o sangue dos inocentes para que a hemorragia cesse de vez.  Na última chuvarada que cobriu o azul infinito, uma senhora em idade bastante avançada se machucou caindo num bueiro aberto quase defronte ao portão aqui de casa.

Foi parar a criatura, no hospital com sérias escoriações. Mas está bem. Sobreviveu meio que a trancos e solavancos. Conseguiu sair se safando com vida, graças ao bom Pai. Para alegria e regozijo de toda a confraria, fora de perigo. Pois bem. Como em todas as situações, sempre surgem loucos pirados no pedaço querendo aparecer. Devo registrar que em razão disso, tivemos surpresas várias. Alguns sem juízo, e, portanto, mais atrevidos se fanfarrearam a se exibirem aos exploradores de eventos.

E para mostrar que nada temiam se atiraram ao incerto das águas furiosas que mais se assemelha a uma cachoeira desenfreada à flor da natureza em polvorosa. Parecia Foz do Iguaçu. No derradeiro temporal que se abateu por aqui, tipo “marés com ímpetos de destruição”, além dos barracos que desabaram, levando consigo fogões, geladeiras, televisores, sofás e camas, houve um caso em que um cadeirante quase chegou a óbito. Faltou pouco para se aproximar de São Pedro com seu barquinho de madeira envelhecida.

Careceu abandonar seu assento sobre as duas rodas no meio da praça e voltar carregado por quatro passantes generosos, entre outros fatos de importância suma, que rascunharam, sobremaneira, o desarranjo impiedoso que se alastrou sobre a pequena e bucólica cidade. Passada a chuva, ressurgido o sol ainda que anêmico interceptado e detido o medo, refreadas as tensões, as coisas todas (ou quase) voltaram ao normal.

Ao habitual fragilizado, debilitado, depauperado. Ao comum do dia a dia, as incertezas do amanhã sempre desconhecido. E novamente entraram no jogo das precariedades, os bens vestidos, os caras de pau, os safardanas envernizados, os larápios de colarinho branco, os enganadores dos Manés acorrentados em seus cotidianos e aos artifícios de promessas novas, de juramentos que nunca serão cumpridos.

Quando outra vez e novamente vier à chuva, o velho filme voltara em cartaz, a preços altos. No mesmo terço, o picadeiro, no circo montado no campinho de futebol ao lado na matriz se encherá até as bordas de veteranos palhaços e suas peraltices sem nexo. A preços abusivos, imoderados e guindados às exorbitanciedades. E as águas, caros leitores? As benditas continuarão correndo, intermitentemente, pelos “long chemins” em busca da trilha dos sonhos de todos nós, de todos nós, pobres e indefesos mortais a mercê do estrangeiro inesperado.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, do Rio de Janeiro. 11-7-2019

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