quinta-feira, 11 de julho de 2019

O Presidente, o futuro PM e a desinformação suicida

José Mendonça da Cruz

1. Os factos. 
O embaixador de Inglaterra nos EUA, Kim Darroch, que se entretinha a dizer em círculos diversos de Washington que o Brexit, a política do seu governo, era um desastre, enviou para Londres um despacho a dizer que o Presidente americano era «inepto», «inseguro» e «singularmente disfuncional».

Azar, o texto que deveria ser confidencial transpirou para a imprensa. Ora, o Presidente americano não é uma figura decorativa como outros Chefes de Estado, ele é o chefe do executivo; a «relação especial» Reino Unido - EUA sempre foi uma pedra de toque entre os dois países, e ela é ainda mais crucial para Londres, agora, em vésperas de Brexit. Donde resulta que a demissão do embaixador era uma necessidade e uma evidência de política externa.

O putativo futuro Primeiro-Ministro inglês, Boris Johnson (antigo diretor da Spectator, autor de uma biografia sobre Churchill, antigo presidente da Câmara de Londres, antigo ministro dos Estrangeiros, e Membro do Parlamento), recusou-se, portanto, a defendê-lo num debate com o outro candidato, Jeremy Hunt, que não será Primeiro-Ministro -- decerto por coisas como esta.


2. As cabecinhas formatadas. 
Acontece que os jornalistas, digamos assim, dos órgãos de informação, assim digamos, portugueses, têm sobre a mesa ou gravado nos escassos neurónios um manual que diz que tudo o que é americano é mau, que se for republicano é pior, e que Trump, sobretudo por causa dos excelentes indicadores económicos e sociais do seu mandato, é péssimo. E que qualquer outro governante que não seja socialista é no mínimo «excêntrico» e normalmente «xenófobo e de extrema-direita».

3. A versão progressista. 
Sendo assim, a notícia em 1., depois de passada pelas cabecinhas em 2., sai assim:

- que o embaixador Kim Darroch está a ser perseguido por dizer a verdade;
- que Boris Johnson não o defendeu e está «a ser alvo de fortes críticas».
- ponto final.

A versão é confrangedoramente lacunar e medularmente estúpida. Mas é a que passa em jornais e telejornais portugueses. Os quais, pressupondo a estupidez dos espectadores, vão aplicando a vulgata e dando tiros nos pés todos os dias, enquanto todos os dias se queixam das «redes sociais» e do que eles julgam que são fake news.
Título e Texto: José Mendonça da Cruz, Corta-fitas, 11-7-2019

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