terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Preservando a gralha-de-bico-vermelho

Um projeto para a Serra dos Candeeiros prova que a melhor forma de proteger alguns animais é proteger os homens
Foto: José Caria
A gralha-de-bico-vermelho não pede muito. Apenas um terreno suficientemente limpo de vegetação para caçar escaravelhos e outros insetos rastejantes.
A ironia é que, se o Homem não der uma mãozinha, os matos crescem e a ave deixa de conseguir apanhar a bicharada. No Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, a gralha (em perigo de extinção, no nosso país) foi desaparecendo até só restar um bando de cerca de 80 indivíduos, concentrado numa encosta da área protegida. A razão é simples: com o abandono da pastorícia, que tradicionalmente mantinha a vegetação controlada, a espécie perdeu o seu habitat.
"Dantes, as aldeias aqui à volta tinham seis ou sete grandes rebanhos e havia gralhas às centenas, nos Candeeiros", recorda António Frazão, representante da cooperativa Terra Chã, na zona sul da serra. Quando os rebanhos desapareceram, a gralha acompanhou-os. A solução passaria por voltar a ter cabras na serra.

Em 2008, a Vodafone, a Quercus e a Terra Chã uniram-se num projeto para trazer de novo a gralha-de-bico-vermelho. Uma ideia simples e que, pelo caminho, ainda ajudaria a economia local com 150 mil euros para investir em cinco anos, contratou-se um pastor e comprou-se um rebanho de 150 cabras serranas. A cooperativa vende agora 50 litros de leite por dia, para fazer queijo, e tem os cabritos certificados. E este é só o primeiro passo. Entretanto, o projeto ganhou o apoio do Programa LIFE, da Comissão Europeia (425 mil euros para os próximos três anos), e deverá, agora, crescer em dimensão e em empregos gerados: a meta é ter mais 200 cabras, três pastores a tempo inteiro e uma queijaria, que dará trabalho direto a mais duas pessoas. Além disso, estimula-se o turismo na região, através da Rota dos Pastores, um programa que leva as pessoas a passarem um dia a guardar cabras, na serra, com um pastor, farnel tradicional incluído.
Em conservação, dois anos e meio é pouco, mas a verdade é que já foram avistadas gralhas na zona. Ainda não houve nidificação, mas é provável que as próximas primaveras vejam nascer as primeiras aves. Quem disse que salvar a Natureza é incompatível com os incentivos às economias locais?
Luís Ribeiro, Revista Visão, nº 929, 23 a 29 de dezembro de 2010 

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