terça-feira, 14 de abril de 2026

[Livros & Leituras] O Salazarismo

Jacques Georgel, Publicações Dom Quixote, Coleção “participar”, outubro de 1985, 436 páginas.
Original publicado em 1981, Éditions Cujas.

O Salazarismo", da autoria do politólogo francês Jacques Georgel (1931-2013), é uma obra de referência incontornável para a compreensão do Estado Novo em Portugal. Publicado originalmente em francês em 1981, e traduzido para português em 1985 com prefácio de Mário Soares, o livro distingue-se na historiografia da época por oferecer uma perspectiva globalizante e analítica de um regime que se estendeu por mais de quatro décadas, ao invés de se limitar a relatos memorialísticos ou a estudos parcelares de aspetos específicos.

Georgel aborda o fenómeno salazarista através de uma análise sociológica rigorosa, focando-se nas interpretações do regime e na sua inserção no contexto mais vasto dos autoritarismos e fascismos europeus do século XX. A obra examina em profundidade as estruturas ideológicas, políticas, sociais e económicas do salazarismo, procurando desvendar os mecanismos de poder e controlo que permitiram a sua longevidade.

O autor disseca temas cruciais como:
A génese e consolidação do regime.
A natureza corporativa do Estado.
As políticas repressivas e a censura.
O papel da Igreja Católica e das elites conservadoras.
A política colonial e o isolamento internacional de Portugal.

Através desta abordagem erudita, Georgel proporciona uma chave de leitura essencial para estudantes, historiadores e todos os interessados na história contemporânea de Portugal, mapeando as características únicas e as contradições de um período determinante da história do país.

O autor apequena Salazar. Entendo por que Mário Soares (Partido Socialista) o prefaciou.

Nas páginas 208 e seguintes, sobre o início da guerrilha em Angola, só são mencionados os “massacres” e o “genocídio” do exército português. Nem um pio, mesmo inaudível, sobre os massacres da UPA, do Holden Roberto, no Norte de Angola.

Eu estava presente no enterro dos policiais mortos no ataque à Esquadra da Brigada Móvel, no início da Estrada do Catete.

Leitura cansativa, devido à fonte da letra e diagramação. 

Todavia, contudo, recomendo a leitura.

👍👍👍👍

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2 comentários:

  1. Assim não vamos lá, Sérgio
    Henrique Pereira dos Santos
    Gosto de Sérgio Sousa Pinto, tenho genuína simpatia por ele, e isso é completamente independente de haver matérias em que discordamos radicalmente.
    Ontem, por acaso, ouvi-o dissertar sobre o Estado Novo (Sérgio Sousa Pinto ainda não tinha feito dois anos no 25 de Abril, portanto o que conhece desse mundo é de estudar e de ouvir dizer) e não vou discutir o quadro negro que traçou sobre a sociedade de medo da época.
    Chamou-me a atenção, no entanto, um argumento completamente absurdo que usou.
    Citando de cor (ou seja, com eventuais diferenças em relação ao que realmente disse), Sérgio Sousa Pinto diz que conhece os argumentos do grande crescimento do PIB nos anos 50 e sobretudo sessenta, mas que é um argumento sem valor nenhum porque, diz ele, vindo o país da pedra lascada e dos carreiros de bois, era fácil ter crescimento de 4 ou 5% ao ano (uma das coisas de que gosto em Sérgio Sousa Pinto é esta habilidade para usar hipérboles como forma de deixar claro o que pretende dizer, sabendo toda a gente que são exageros retóricos. Já falar em crescimentos de 4, 5 ou 6%, é uma modéstia relevante em relação a vários dos anos em causa).
    Em rigor, a primeira manipulação consiste em deixar sub entendido que quem fala do período de maior crescimento (e convergência com os países mais desenvolvidos, este aspecto não é despiciendo) entre meados dos anos 50 e 1973 (eu uso sempre 1973 para balizar este período porque estou convencido da importância que teve o choque petrolífero da época) é porque quer glorificar o Estado Novo e não apenas por ter algum amor à objetividade, respondendo ao argumento recorrente de que o Estado Novo empobreceu o país e as pessoas, o que é redondamente falso.
    Não seria, no entanto, este aspecto que me faria escrever este post, é mesmo a substância do argumento de Sérgio Sousa Pinto, que está a dizer que quanto mais pobre se é, mais fácil é ter crescimento económicos robustos.
    O argumento não tem pés nem cabeça por uma razão simples: quando mais pobre se é, menor é o capital disponível, e o crescimento económico exige capital (uma circunstância externa que de repente faz fluir um monte de dinheiro para o lado do pobre, como no caso dos países produtores de petróleo, pode levar a um crescimento extraordinário de países pobres, embora isto possa dar origem à "maldição dos recursos" que dificulta o crescimento quando um fluxo extraordinário de dinheiro entra num país cujas estruturas económicas não estão preparadas para responder produtivamente a esse fluxo).

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    1. É, no entanto, muito interessante por entreabrir a porta a mais uma mistificação sobre as grandes conquistas de Abril: o 25 de Abril forçou e tornou mais rápida a resposta a problemas sociais relevantes que existiam, isso sim, é claro, mas à custa de uma substancial destruição de capital e subsequentes dificuldades económicas.
      Do ponto de vista da sociedade os anos posteriores ao 25 de Abril são de baixos crescimento (em grande parte por causa do tal choque petrolífero, com certeza, mas também como consequência da destruição de capital que dificultou a resposta da sociedade ao choque petrolífero) e do ponto de vista do Estado traduziu-se em intervenções sucessivas do FMI, para mitigar os efeitos do desequilíbrio das contas públicas.
      É a minha vez de dizer que conheço o argumento de que os grandes grupos económicos ligados ao regime é que beneficiaram dos grandes crescimentos do PIB nos anos 50 e 60, até 1973, exatamente por estarem ligados ao regime, portanto esta destruição de capital era inevitável com o desmantelamento desses grupos, só que o argumento carece de demonstração como, aliás, Vítor Bento e Luciano Amaral já demonstraram, ao analisar a história do grupo CUF (Luciano Amaral) e no prefácio ao livro daí resultante (prefácio de Vítor Bento que vai para lá do grupo CUF).
      A história económica do impacto do 25 de Abril no país, e em especial os efeitos da destruição de capital promovida ativamente pelo PC, pela extrema esquerda, pelo MFA posterior a setembro de 1974 e por grande parte do Partido Socialista, está por fazer, o que é pena.
      É pena porque ajudaria a limitar o absurdo de grande parte da argumentação anticapitalista (muito visível nas redações dos jornais, se alguém tiver dúvidas, é só ver a maluqueira das discussões sobre a política de habitação), pela demonstração, inequívoca, de que a destruição de capital promovida logo depois do 25 de Abril, sobretudo no ano e pouco que vai de setembro de 1974 a novembro de 1975, nos prejudicou a todos.
      A ideia peregrina de que não se podem discutir os lados mais sombrios do 25 de Abril porque isso é servir a reação, é uma ideia que ainda que tivesse alguma validade quando o regime não estava inteiramente consolidado, do que duvido, seguramente é hoje uma ideia que prejudica mais a democracia e a celebração do 25 de Abril do que seria desejável.
      Henrique Pereira dos Santos, Corta-fitas, 19-4-2026
      https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/assim-nao-vamos-la-sergio-8711968

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