domingo, 29 de dezembro de 2013

O homem que salvou 30 mil vidas (?)

Desobedecer a Salazar era um prazer que normalmente saía caro. O mais célebre dos portugueses que se recusaram a acatar ordens do ditador, conhecido em todo o mundo, foi Aristides de Sousa Mendes.

 
Luís Almeida Martins
Os fugitivos formavam longas filas no passeio, junto do Consulado de Portugal em Bordéus. Nesse mês de junho de 1940, com a Wermacht a concluir a ocupação militar da França e a temível Gestapo nos calcanhares, dezenas de milhares de pessoas de terror estampado no rosto e as mãos vazias vinham pedir um visto de entrada no nosso país, que se mantinha formalmente neutro na Segunda Guerra Mundial. Homens, mulheres e crianças, a maioria judeus, deixavam tudo para trás, e já isso era uma terrível punição, embora nada de comparável com o pesadelo que lhes estaria reservado se caíssem nas garras dos nazis: as câmaras de extermínio. Mas não contavam com outro obstáculo: através da circular 41, Salazar ordenara a todos os cônsules portugueses que não concedessem vistos a “estrangeiros de nacionalidade indefinida, contestada ou em litígio; apátridas; e judeus, quer tenham sido expulsos do seu país de origem ou do país de onde são cidadãos”. Significava isto que os vistos ficavam vedados a toda a gente que se esforçava por escapar às sinistras confusões de uma guerra travada pelo desenho de novas fronteiras.

Os cônsules em geral acataram a ordem do ditador, mas não foi esse o caso de Aristides de Sousa Mendes, colocado exatamente no mais estratégico de todos os postos consulares portugueses em países ocupados pelo III Reich: o que ficava mais próximo de Hendaye, a porta de saída para a Península Ibérica neutral. No dia 16 de junho, antes ainda de a França ter assinado a capitulação, Sousa Mendes decidiu conceder vistos a todos os que lhos pedissem. Homem conservador e inclusive monárquico, que até então nunca havia entrado em choque com Salazar, teve nesse instante a percepção de que vivera 54 anos para chegar àquele momento de grandeza suprema. O rabino Jacob Kruger, de Antuérpia, a cuja família concedeu vistos e que o ajudou na tarefa ciclópica de passar à mão 30 mil documentos, tê-lo-á feito compreender que se tratava de salvar seres humanos do mais horroroso dos destinos.


Casa de Sousa Mendes, em Cabanas de Viriato
Colocado em Bordéus desde 1938, depois de ter servido em Zanzibar, no Brasil, nos EUA e, de 1929 a 1938, na cidade belga de Antuérpia, Aristides de Sousa Mendes era um beirão de Cabanas de Viriato pertencente a uma família aristocrática socialmente bem posicionada. Licenciado em Direito por Coimbra, casado com uma senhora judia, homem culto, conviveu na Bélgica com o legendário Albert Einstein e o dramaturgo Maurice Maeterlinck. Quando o Governo de Salazar o repreendeu por passar vistos contrariando as ordens recebidas, respondeu: “Se há que desobedecer, que seja a uma ordem dos homens, e não a uma ordem de Deus.”

Chamado em julho a Portugal, foi suspenso por um ano, viu o seu salário reduzido a metade e foi por fim reformado compulsivamente. Para os jovens de hoje, que ignoram o que é viver numa ditadura, a história de Sousa Mendes é esclarecedora: Salazar proibiu-o até mesmo de exercer a advocacia e retirou-lhe a carta de condução. Ele e a família caíram na indigência e só conseguiram sobreviver graças a ajudas particulares.

Homenageado no memorial de Yad Vashhhem em Jerusalém, o “Schindler português” (assim é chamado embora tendo salvo quase 30 vezes mais vidas do que este alemão antinazi celebrizado pelo filme de Spielberg A Lista de Schindler) morreria em 1954 na miséria, internado numa instituição de franciscanos. Mas é hoje um dos portugueses mais famosos do mundo.

O industrial sueco Raoul Wallenberg, enviado em 1941 como diplomata para Budapeste, salvou também entre 30 mil e 100 mil judeus húngaros dos campos de extermínio, passando-lhes passaportes temporários. Aprisionado pelos soviéticos em 1945, terá morrido no cativeiro, oficialmente em 1947.
Título e Texto: Luís Almeida Martins, in “365 DIAS com histórias da HISTÓRIA de PORTUGAL”, páginas 495 a 497.
Digitação: JP

Quando estava procurando fotos para ilustrar este artigo, achei "coisas" bem interessantes, como esta aqui:
 
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Antes que alguém grite "É despeito direitista!" abaixo um "despeito esquerdista":

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