sábado, 2 de abril de 2016

A Luz de Abril

Imagem: www.IEgool.com

José Carlos Bolognese
Tenho uma relação de sentimentos conflitantes, alegres e tristes, com o mês de abril. Sua luz e temperaturas amenas inauguram uma fase gostosa do ano. Nas minhas lembranças da aviação viajando mundo afora, este mês começava com um alívio das temperaturas extremas. Não nasci neste mês, mas coisas importantes na minha vida ocorreram neste espaço de trinta dias. Antes de entrar para a aviação já curtia esta parte do ano que vai até mais ou menos outubro, na maior parte do planeta. Mas foi viajando que descobri que ao contrário dos seres humanos, o clima em lugares distantes e muito diferentes uns dos outros é capaz de ficar suportável por sete meses, sem discrepâncias radicais.

Na manhã de 6 de abril de 1970, meus pés me levaram a um lugar onde minha cabeça jamais sonhara chegar; as instalações da Varig no aeroporto de Congonhas. No dia anterior, um domingo, cumprira a busca na seção de empregos de um grande jornal. Sem saber ao certo o que procurava – só estava claro que não podia viver de brisa – topei com um interessante anúncio da Varig procurando candidatos à função de comissário de bordo. Gostava de aviões, adorava ver Electras e Viscounts voando no céu distante, mas eu, penetrar naquele mundo, era outra história, mais ou menos como viajar a outro planeta. Com 22 anos já tinha trabalhado bastante, mas a aviação jamais iria ser outro emprego para mim. Ia ser – e foi – outra vida.

Esta outra vida começou de fato após a primeira entrevista e a aprovação nos primeiros exames de admissão. Não demorei a descobrir a grande empresa onde ia trabalhar por sua disposição em bancar dispendiosos exames de saúde, apostando de antemão no profissional que precisava formar. Não sei como ficou depois do meu tempo e como é agora quando um jovem se prepara para a adorável profissão que eu tive. Só sei que conheci uma empresa, na época, muito generosa com seus trabalhadores e este é um sentimento que fica para sempre. Quarenta e seis anos depois, ainda me felicito pela nossa mútua escolha: a da Varig e a minha.

O dia 11 de abril de 2006 amanheceu com a sua costumeira luz do lado de fora e uma radiosa luz de esperança no coração dos variguianos. Tive a sorte – que também compreendi como um dever – de fazer parte do grupo que lotou um MD-11 rumo a Brasília, onde esperávamos parar a lenta destruição da Varig e encontrar alguma forma de recomeço. Alguns meses antes desta viagem de sonho, participamos de muitos movimentos para salvar a empresa e descobrimos a dureza que é estarmos certos dos próprios direitos, argumentar, expor os fatos à luz da razão e sermos tratados com a triste indiferença dos que, sem nenhum escrúpulo, culpam as vítimas por suas desgraças. Reflexão à parte, me vem um título associado à Varig: “A Pioneira”. Embora a contragosto, também fomos “pioneiros”, alguns anos antes dos outros brasileiros a testemunhar e sofrer a ação nefasta desse projeto criminoso de poder, isto é, do mesmo grupo político que nos dias atuais quer arrastar o país para um abismo ainda maior do que aquele onde despejaram a Varig e seus trabalhadores.

Quase uma década depois, ainda acho complicado lidar com as lembranças e os sentimentos relativos a este dia tão especial. O primeiro sentimento foi de alegria por rever um monte de gente bacana com quem convivi na Varig por muitos anos. Um outro, mais ingênuo talvez, foi entrar e voar no MD-11... eu adoro esse avião! E depois disto vivo oscilando entre decepções e esperanças.

Então, chegando lá, fomos à luta. Passeatas ordeiras, bem comportadas como convém a quem preza sistemas organizados - até recebemos elogios dos policiais acostumados a lidar com as badernas autonomeadas de “movimentos sociais” - caminhadas pelos corredores da câmara e do senado em busca dos apoios necessários - tanto àquela época como agora – e uma vigília no ministério da Defesa na vã expectativa de que um pulsilânime ministro, pau mandado, fosse capaz de fazer alguma diferença. Não fez, nem antes nem depois de uma inoportuna chuva no começo da noite decretar o fim da nossa vigília.

As primeiras horas do dia seguinte, 12 de abril, também um dia lindo e luminoso, foram de expectativas e especulações, mas deixadas de lado um pouco por questões práticas como ir para o aeroporto, check-in, voo de Boeing 757 e chegada no RJ. Porém, conforme as emoções e esperanças do momento e contra relógio, pode-se dizer que o dia 11 durou até a manhã do dia seguinte... Então desaba sobre nós o 12 de abril de 2006... O dia que já foi um tanto amenizado, mas ainda não acabou, pois neste dia começou, para valer, o drama dos aposentados do Aerus e, de certo modo, a partir daí, aceleraram-se as mutretas que acabaram com a Varig.

Somente agora, neste 2016, nós os sobreviventes, estamos podendo fazer algumas coisas que não foram eliminadas pelo passar do tempo. Outras ficaram para trás, inexoravelmente. Afrouxaram a corda no pescoço, mas as tornozeleiras da incerteza ainda prendem nossos pés.

O mês de abril, com sua luz e clima gostoso, tem para mim e meus eventos pessoais um significado marcante. A partir de 2006 porém, este mês passou a habitar o imaginário de todos os que trabalharam na Varig e ainda sofrem pela sua extinção. Que a luz deste mês e de todos os outros iluminem nossos caminhos. 
Título e Texto: José Carlos Bolognese, 1-4-2016

Um comentário:

  1. Caro Bolo! Salvei está linda foto, entre as minhas, e admiro-a como uma linda manhã de Abril! Bolo, lindo Relato, sensível, nos toca como Colega, nos remete a vários sentimentos semelhantes aos teus. Muito Obrigado! Sensibilizado!
    Um Abraço!
    Heitor Volkart

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