quinta-feira, 2 de junho de 2016

O presidente, Costa e os outros

Rui Ramos
Na política portuguesa, quase todos estão neste momento reféns uns dos outros, isto é, destituídos de iniciativa. Não há aqui Maquiavéis, mas apenas náufragos num regime à deriva.

Talvez o presidente gostasse de se libertar de António Costa; talvez Costa preferisse acabar com a sua dependência do PCP e do BE; e talvez o PCP e o BE não desdenhassem aumentar a sua influência. Talvez seja assim. Mas isso não quer dizer que eles saibam como obter esses resultados. Não há aqui Maquiavéis, mas apenas náufragos num regime à deriva.

Comecemos por Costa e o presidente. Costa perdeu as eleições e, para salvar a carreira, entregou-se ao PCP e ao BE. Uma boa relação com um presidente eleito pela direita é a última ponte que lhe resta para o lugar onde o PS costumava estar, e sobretudo uma prova de normalidade. Mas o presidente também precisa de Costa. A “popularidade” de Marcelo Rebelo de Sousa não é a da estrela televisiva, mas a do presidente que, ao contrário de Cavaco Silva, não é atacado pelo PS. É verdade: o actual presidente é exuberante e caloroso, onde o seu antecessor era reservado e formal. Mas é a maior das ilusões pensar que o feitio e o estilo bastam para o proteger: se conviesse ao PS, a exuberância haveria de parecer descontrolo, e a informalidade, ligeireza.

Costa e o presidente estão prisioneiros um do outro, e ambos estão prisioneiros do PCP e do BE. O presidente não terá dúvidas sobre o que significa uma governação subordinada ao PCP e ao BE, num país do Euro e a necessitar de investimento externo. Muito provavelmente, Costa também não. Mas por mais que para ambos isso seja claro, o presidente não pode simplesmente derrubar o governo de Costa para se livrar do PCP e do BE, porque arriscaria um choque com o PS; e Costa não pode demitir-se só para se libertar dos seus parceiros parlamentares em novas eleições, sem passar por um traidor à esquerda.

Não é por acaso que desde Novembro muita gente espera que o PCP e o BE despeguem, senão neste, então no próximo orçamento. Porque isso permitiria ao presidente e a Costa clamar que bem tentaram, mas que esta maioria, com esta composição ou nas actuais proporções, não serve para governar na UE. O presidente poderia então convocar novas eleições sem parecer que estava a querer prejudicar Costa, e Costa apelar às esquerdas para votarem no PS, se quisessem “políticas de esquerda” no quadro europeu.

O problema é que não é claro que o PCP e o BE queiram fazer o favor de sair. Com o actual arranjo, o PCP salvou os seus sindicatos de um declínio irremediável, e voltou a tutelar ministérios, como não acontecia desde 1976; o BE aumentou os seus tempos de antena e deu carreiras mediáticas à sua “nomenklatura”. Henrique IV, quando se converteu ao catolicismo para chegar ao trono de França, terá dito que Paris valia bem uma missa. E se o poder, para o PCP e o BE, valer bem a austeridade? E se, mesmo perante um apertão de Bruxelas, optarem por argumentar que, embora a solução seja má, com a “direita neo-liberal” no governo seria muito pior?

É inútil, por tudo isto, procurar adivinhar qual é a estratégia deste ou prever a próxima jogada daquele. Na política portuguesa, quase todos estão neste momento reféns uns dos outros, isto é, destituídos de iniciativa, à espera do que vai acontecer. Sim, é isto que é uma verdadeira crise política. 
Título e Texto: Rui Ramos, Observador, 31-5-2016

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