quarta-feira, 9 de agosto de 2017

[Aparecido rasga o verbo] A barca de Caronte

Aparecido Raimundo de Souza

NÃO SEI EXPLICAR OS MOTIVOS E AS CIRCUNSTÂNCIAS.   De uns dias para cá, venho sentindo, na pele, estar quase a transpor os umbrais do desfecho dos meus dias e passar desta à categoria de cadáver. Também percebo, amiúde, que a vida me foge por entre os dedos, como o calor do sol nos cabelos, tudo num processo lento, e pejorativo. Entrevejo, igualmente, os olhos ofuscados por manchas brancas e opacas. Quase não distingo as pessoas dos objetos. Pior, os objetos das pessoas. Ao meu redor, um vento frio canta coisas do além. Ouço o sussurro da morte em repetitivo cantochão. Sua aproximação, ainda que de forma amena e afável, me causa uma espécie de calafrio mórbido progredindo corpo inteiro. Todavia, essa sensação, não chega a ser totalmente de sobressalto ou de angustia. Diria, para ser mais preciso de satisfação perene.

Fico imaginado, em ótica inversa, como a vida é engraçada e nos prega peças a todo instante. Ontem mesmo, ontem mesmo me olhei no espelho. Quero dizer, espiei para o que restou de tudo o que um dia pensei ter sido. Que decepção!... daquele homem cheio de vida e esperança, empertigado, vaidoso, emproado e cheio de viço, fiquei reduzido a um punhado de rugas. Refolhos feios, inexpressivos, empanturrado de contrariedades e dissabores. Retrato à flor da pele, sem retoques, sem maquiagens, sem as interferências de um fotochopp. Estampas estorvadas em preto e branco da caminhada derradeira, que me resta para viver. Um carro velho, caindo aos pedaços, em comparação comigo, parecerá tremendamente mais significativo e valioso que aquela imagem desfigurada, fastiosa, sisuda e feia diante do espelho mudo e abetumado. Mas o que fazer? O que fazer?  C’est la vie. É a vida!

Pois é! Tenho que partir, bem sei. Desabrochar para campos verdejantes e dar lugar a outros jovens que estão imediatamente atrás. Por sua vez, os médicos precisam de meu corpo para aprender a curar uma pá de gente que abunda, a toda hora, de lugares os mais apartados, trazendo mazelas e enfermidades diferentes e complicadas.  É a eterna lei da natureza se renovando. E lei, é lei. “Dura lex sed lex”. E fim de papo... sem contar que o tempo é implacável e austero...


Por assim, não serei eu, simples mortal, que pretenderá transformar o que o Grande Homem do universo deixou escrito no livro do destino. Só me resta, pois, aceitar a realidade, nua e crua e esperar. Esperar, esperar, pacientemente vencido, conformado e deformado pelo calejar dos anos.  Esperar, bem sei, é preciso, pela hora limite, pelo instante concluso de atravessar o grande braço deste imenso aguaçal brumoso, que me levará ao outro lado.

Perguntas com relação a isto afloram num turbilhão desordenado. Como será o outro lado? O que haverá à minha espera naquela banda sombria da margem desconhecida? Quem estará por lá, me recepcionando? Para onde irei, afinal, quando o sopro do gozo voluptuoso de respirar me deixar nos braços gélidos da eternidade? Diz um axioma antigo, que “na morte, todas as perguntas serão respondidas”. Será? Pelo sim, pelo não, o que me causa certo pavor e sobressalto - gostaria de saber certas coisas agora, enquanto estou aqui -, à espera, como uma locomotiva obsoleta num desvio da linha. Descobrir segredos insondáveis, imperscrutáveis e esfíngicos, enquanto me flagro a esquadrinhar o barqueiro que virá me apanhar para a travessia sem regresso, a ida sem volta, a partida sem adeus. O que será de mim? Escabreado, inseguro, me questiono bolado e incrédulo, quando afinal, estiver a bordo do escaler, ladeado pela intrigante Dama da foice? O que será de mim?

Justamente agora que eu tinha comigo a força do touro, a astúcia da raposa, a coragem do jaguar e a sabedoria dos anciões... coincidentemente agora, o que me acontece? Chega a hora da partida. Num piscar de milésimos de segundos, me pego chorando. Chorando copiosamente, profusamente, inesgotavelmente. A tez disforme, desproporcionada por pelancas, acabada, encarquilhada, banhada em pranto. As lágrimas rolam como pingos derramados de uma taça cheia demais. Por instantes, recordo meu passado. Desde que nasci, vivi e cresci me estacionei entre a dor, o ódio e, de contrapeso, as mais diversas formas de rancores e sofrimentos. Ninguém, nessa longa jornada até aqui, me estendeu uma mão amiga. Jamais recebi um carinho, um gesto de afeto, ou de afago.

Somente me deparei com punhos cerrados e ameaçadores. Caras fechadas, semblantes retraídos, portas e janelas fechadas. A tal da felicidade, se de fato existe, nunca bateu de frente comigo. Tampouco me acenou com gestos efusivos. Talvez, seja por essa razão, que, de igual forma, em tempo algum, tenha amado verdadeiramente alguém, e, a todos que me cercaram, tratei com desamor e falta de afeição. A falta de amor, a gente aprende na marra, cria um despenhadeiro intransponível entre as criaturas, ao passo que a renúncia rebenta com o passadiço, não permitindo que elas se embaralhem num amplexo fecundo e revigorante.

Quem sabe seja por isso (autor de tantas disfunções negativas, por onde andei, por onde pisei), só tenha conseguido semear e receber, em quantidades idênticas, desavenças e inquietações, desgraças e amarguras, tristezas e martírios. Talvez, seja por isso, ironicamente, em nenhum momento e lugar, tenha sido verdadeiramente próspero e afortunado, ditoso e opulento. Estou, e sinto isso aqui dentro do peito. Pressagio, algumas horas adiante, talvez minutos, passar à categoria de defunto. Falecido, apagado, examine, inerte, olvidado. Não há o que esconder resguardar, encobrir ou tapar. Ponto pacífico, quanto à extinção. Ela é certa como dois e dois são quatro.

Contudo, o que mais me entristece, me amofina me angustia o, que me tira as poucas horas de calmaria e sossego, é saber que ninguém se importará comigo. Ninguém! Meu passamento não trará caridade ou condolência à misericórdia de nenhum ser humano. Não deixo parentes próximos, ou amigos, nem esposa ou filhos. Absolutamente nada de útil ou aproveitável que possa o agora e, a “depois”, o amanhã, se pegar e dar continuidade ao que um dia fui (se é que fui), ou o que, aqui nesta terra, algum momento representei.

Apesar das flagelações e dos pesares, nessa dolência minguada, me resta uma certeza sólida, encorpada, consolidada, maciça. Uma assertiva cruel, amarga, bárbara, contudo, firme, convincente, certa e decisiva: olhando com estes olhos cansados de velhice, para o céu bonito e garboso, esmerado e airoso, vejo astros, estrelas e planetas que flutuam sobre mim. Claro que as demais pessoas também vêm, mas, com certeza, não desfrutam de todas essas pequenas felicidades como eu experimento e saboreio, ou como vislumbro, dentro do meu transe amadurecido. Na verdade, esses astros, essas estrelas e esses planetas são como pedras dispostas que um anjo amigo, descido lá do infinito, acondicionou em meio do rio enorme, para não ficar muito triste, nem melancólica, a minha navegação. Essa navegação seja em que circunstância for (não importa o tempo passado ou vivido) será idêntica a de um marinheiro em sua viagem inaugural.  

Alguma coisa me diz, me sopra ao pé do ouvido, antes de chegar do outro lado, antes mesmo de pisar à praia ignorada, minha alma se desprenderá do corpo físico e irá à frente, pulando daqui e dali, para lá e acolá, por sobre esses minúsculos rochedos, deixados pelo querubim, como se, numa série de saltos cadenciados me preparasse o novo lugar onde deverei aportar.

E confesso, me vejo assim: horrorizado, receoso, assombrado, alarmado, confundido, à sombra do meu fantasma, e, na cola dele, grudado em seu pelo, saltando de um obstáculo a outro, entremeio do rio caudaloso, e depois, já do outro lado, calmo e débil, definhado e enfraquecido, sossegado e saciado, abonançado e feliz, sobretudo feliz, viajando pelo espaço agreste deste lindo céu imensurável, colossal e sem medida, em rota de colisão aos abraços lisonjeiros e cordiais benévolos e acolhedores do DEUS PAI, O TODO PODEROSO.
Título e texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De Ribeirão Preto, interior de São Paulo, 8-8-2017 

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