domingo, 1 de setembro de 2019

[Pensando alto] Meu colega chinês e o novo porta-estandarte do capitalismo

Pedro Frederico Caldas


Por volta do século XVI a China detinha mais de 50% do PIB mundial. Fechou-se ao mundo e murchou. Chegou ao ponto de ser retalhada em zonas de interesses de potências europeias. O ópio grassou e o chinês era conhecido como “o homem doente da Ásia”. Em contrapartida, o mundo ocidental floresceu como nunca e a Europa se transformou no centro difusor da tecnologia e das liberdades individuais. O comunismo, mesmo para países, como a China, que nunca souberam o que era uma verdadeira democracia, se mostrou incompatível com a natureza humana e só prevaleceu por setenta anos a pulso e pelo emprego do totalitarismo, a forma mais cruel, profunda e abrangente de ditadura. Estou falando em comunismo aqui apenas como um registro histórico e para sublinhar o seu domínio sobre a China por cerca de quarenta anos.

O presidente americano Richard Nixon fez uma histórica visita à China (1972), no fim da era Mao, e se comprometeu a inserir a China no comércio internacional de que estava praticamente banida. A China, mudada a guarda, colocou numa gaveta de perdidos e achados a fórmula comunista e começou uma forte abertura para o livre mercado e para a livre iniciativa, mais que acelerada após a derrocada do bloco soviético. Para que vocês tenham uma noção mais precisa de como o capitalismo evoluiu na China, vamos relembrar uma historinha.

Quando das olimpíadas na China, a revista Veja fez uma edição especial sobre o país. Registrava que, já naquele ano, a China era menos estatizada do que o Brasil antes das privatizações do governo Fernando Henrique. Das muitas abordagens da revista há uma marcante. Um alto prócere do partido comunista chinês relatou ao repórter algumas discussões com membros do PT. Aqui abro parênteses para relembrar que o PT mantinha relações especiais com os partidos dos países comunistas, mesmo aqueles só nominalmente comunistas, como era o caso chinês, ao passo que procurava distância dos partidos democratas. Essa autoridade chinesa confidenciou que os emissários petistas revelaram que tinham como plano reestatizar o que fora privatizado, enquanto eles achavam um plano muito estranho pois a intenção era continuar a privatizar, em marcha batida, o que ainda era estatal na China. O PT, como sempre, estava descolado da realidade.
               
Mas esses fatos relatados não são novidade para quem acompanha a geopolítica. Por isso vou dar aqui uma impressão de um episódio que vivi.
               
Fazia um curso de inglês nos Estados Unidos e, como fiquei cerca de dois anos no curso, tinha como colegas, que se renovam aos borbotões, gente de toda parte do mundo, principalmente gente da ex-união soviética e chineses. Como era uma sala do último grau, um belo dia, a professora dividiu a turma em grupos para tratar de temas econômicos. O tema de meu grupo era como resolver o problema de um grupo industrial americano, de área de mão de obra intensiva, que estava caminhando para o insucesso face à concorrência da indústria asiática.

Fui pelo grupo escolhido como líder, sob o argumento de que me consideravam bem situado no âmbito da ciência econômica. Propus a eles o seguinte plano: a) o grupo deslocaria suas plantas industriais para um país asiático de baixa carga tributária, mão de obra bem qualificada e salários bem abaixo dos praticados na América; b) os principais e indispensáveis empregados, como alguns diretores, gerentes e técnicos seriam também deslocados junto com as fábricas; c) os centros de distribuição nos Estados Unidos seriam preservados para manter necessária capilaridade de distribuição dos produtos que viessem das plantas asiáticas; e d) aos mais de noventa e cinco por cento que seriam demitidos, o grupo econômico asseguraria plano de saúde por seis meses e pagaria a cada um dois salários por cada ano de serviço, assegurado sempre um mínimo de três. Estufei o peito ao apresentar o projeto ao grupo: posava de empresário eficiente e bonzinho.
               
Meu projeto, por mais óbvio que fosse, recebeu efusiva aprovação do grupo.
               
Mas aí, justamente aí, houve forte oposição de um dos membros. Era o chinês do grupo. Rapaz bem-apessoado, formado por uma das melhores universidades chinesas. Em suma, técnico refinado, boa formação cultural e já detentor de um manejo muito bom da língua inglesa, tanto que foi escolhido como o redator do grupo. Estava aprimorando o idioma para fazer pós-graduação numa das melhores universidades americanas.
               
Ele aprovava todo o plano, achava uma boa sacada, mas desaprovava veementemente as indenizações que o plano preconizava. Fez os cálculos em sua inseparável maquininha o jogava na mesa o desperdício que aquilo representava. Eram números enormes por ser um grupo industrial de mão de obra intensiva. Por que pagar o que não era devido, exclamava!  O dinheiro que seria jogado fora, segundo sua concepção, poderia representar a sorte da realização do plano, que considerava bem bolado e factível, contanto que não se pagasse aos empregados demitidos aquilo que a legislação americana não obrigava.
               
Por mais que que eu e os outros membros do grupo repisássemos ser uma boa prática compensar de alguma forma quem perderia o emprego, ele insistia que muito pior seria um hipotético fracasso do plano justamente pelo desfalque de recursos a serem indevidamente despendidos. Arguia que jamais se faria uma bobagem dessa na China. Aduziu que não fazia sentido econômico se proteger quem estava perdendo o emprego se a empresa, dentro do plano a ser executado, seria salva e geraria mais empregos do que os que estavam sendo eliminados. Seus argumentos sob o ponto de vista econômico eram irrespondíveis e, dentro dessa lógica fria e matemática, porém mais eficiente, foi dobrando um por um dos participantes e, ao cabo, conseguiu me persuadir também.
               
Essa abordagem cartesiana, a disciplina e o empenho, poderão transformar a China na maior economia do mundo, como era há cinco séculos. A China poderá ser a mais bela joia na coroa do capitalismo, ou melhor, o triunfo final e definitivo dos princípios do livre mercado e do respeito ao direito de propriedade.

A China, arrastando o seu entorno asiático, poderá se transformar no porta-estandarte do capitalismo no Século XXI. O único problema é uma certa inclinação ao keynesianismo. De um lado, o povo produzindo como nunca; do outro, o governo injetando crédito em excesso, incentivando um povo de tendência poupadora a se endividar e elevando a dívida pública a níveis já preocupantes; os bancos jogando dinheiro a rodo em obras sem paralelo que agora não encontram comprador. Há cerca de 60 milhões de residências construídas sem haver quem possa comprar. A bolha chinesa está murchando e tomara que vá se desinflando aos poucos, caso contrário, se explodir, o país poderá entrar em uma crise sem paralelo. Os números fantásticos de seu crescimento econômico nas últimas décadas já desceram a patamares mais lógicos.
               
A China continuará a mandar, como tem feito, seus melhores estudantes para cursos de economia e administração nas boas universidades, principalmente as americanas, inegavelmente as melhores. Não pode cair é na besteira de mandar seus quadros para fazer graduação ou pós-graduação com professores como Belluzzo, Mercadante, Guido Mantega ou Bresser Pereira. Voltariam querendo fazer Plano Cruzado, Plano Verão, congelamentos e outras estranhezas econômicas. Seria o fim da picada e o comprometimento econômico da China.
               
Mas, algum inadvertido ou saudosista inconformado poderá perguntar “se a China não é comunista”. A resposta é não, claro que não é. A sua lista de bilionários muito em breve poderá liderar o ranking da revista Fortune. O nome e a manutenção de um partido único podem mais se assemelhar a um fascismo mitigado, que irá desaparecendo com o tempo. Por enquanto, a unidade de comando político incontrastável permite-lhe tomar medidas urgentes na área econômica, muitas vezes postergadas ao limite da irresponsabilidade pelos governos e parlamentos de nações democráticas.
               
Se por lá houvesse a necessidade que o Brasil está tendo de fazer uma reforma trabalhista e previdenciária, as medidas necessárias já teriam sido tomadas sem nenhuma discussão.
               
Mas se a China não é comunista e pode ser o mais vistoso porta-estandarte do capitalismo, qual a mensagem a ser dirigida às viúvas de Marx e Lenin, em suma, à esquerda, agora sem estandarte e sem proposta?  A mensagem pode ser resumida em duas palavras:
               
- Bye, bye...




Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, 13-7-2017

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Um comentário:

  1. https://vozdabahia.com.br/comunismo-cristaos-sao-vigiados-por-policiais-na-porta-de-suas-casas-na-china/

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