sábado, 24 de agosto de 2019

[Pensando alto] A Amazônia, seus mitos e o rei da Noruega

Meu caro Jim,
Segue, anexo, artigo atualíssimo sobre a Amazônia e seus mitos. Bem que o rei da Noruega, que deu um esporro em Temer (acho que todos já se esqueceram desse episódio), poderia ser substituído pelo Macron, que, pela diferença de idade, parece ter se casado com a mãe (complexo de Édipo?).

Um abraço 
Pedro Frederico Caldas


Somos sempre aptos à gentileza para com as pessoas que não nos interessam.
Oscar Wilde

Tudo que ilude, encanta.
Platão

Ponham, por especial obséquio, um mapa da América do Sul em cima da mesa. Dentro do conjunto da América do Sul, contemplem com atenção o mapa do Brasil. Olharam com atenção? Se não, deem outra olhada. Bem, vamos chegar a uma conclusão juntos.


O Brasil tem a forma geométrica de um maciço retangular que corre de Noroeste para Sudeste. Um dos países do mundo que tem a forma mais regular. O que destoa dessa forma é aquela perninha pendurada a Sudeste, do Rio de Janeiro para baixo. Se fizermos a poda dessa perninha, fica só o grande retângulo maciço. Vocês, com a afoiteza de sempre, hão de perguntar e daí, cara, vai começar a conversinha fiada?

               
Hum... às vezes sim, às vezes não. É justamente esse pedacinho insignificante que produz oitenta por cento da riqueza nacional. Tem mais. Como o resto não produz o suficiente para sequer existir, recursos são drenados às mãos cheias daquela perninha para sustentar o resto do País. O restão fica como aquele filho que nunca toma tenência. Não estuda, não trabalha, e tenta passar o resto da vida explorando os coitados dos pais. Ensaiei esse tema em texto de 21 de abril, que pode ser lido dentre os já publicados, intitulado “OS ORIXÁS, MÃE MENININHA DO GANTOIS E SÃO PAULO PROVEDOR”. Poderíamos acrescentar parte do Espírito Santo e o sul de Minas à tal perninha e aduzir que o Centro Oeste é grande produtor agropecuário. O problema é até quando essa situação pode ser tolerada pela parte produtiva do país?

Esse quadro pode ficar pior. A coisa fica péssima mesmo quando se chega àquele Norte imenso que se chama Amazônia, mais de um terço da área do Brasil.* Vai se construir uma grande estrada por lá (tudo lá tem que ser grande), drena-se mais recursos da perninha pequena para ligar nada a coisa nenhuma, com quase nula repercussão econômica. Pegam-se recursos escassos para malbaratar em áreas que não vale a pena. E as indústrias de Manaus? Não são indústrias, são sorvedouros de subsídios para concorrer com as indústrias que pagam... os subsídios.
               
Você é do Norte, mora na região amazônica? Se avexe, não; você não tem culpa, você também é vítima. Tivesse sorte, poderia ter nascido e vivido no Sul, no meio de algo que se pode chamar de civilizado. Nem precisa dizer, pois sei que aqui e ali, fora do Sul do Brasil, há ilhas de civilização, como alguns bairros de algumas capitais, ou lugares muito bonitinhos e muito aprazíveis do interior, principalmente no litoral. Sei que você está indignado. Ninguém quer fazer parte do problema, todos querem ser a solução. Mas não adianta ameaçar vir remando sua piroga até aqui para me dar umas porradas. É melhor conversarmos. Dizer que felicidade cabe em qualquer cantinho não adianta, não estamos falando de realizações individuais, estamos tratando de todo um país.

Ditos todos esses desaforos, que a verdade às vezes assume esses aspectos, pois há coisas sabidas que não devem ser ditas, faço um intervalo para me banhar nesse grande rio da cultura e da ignorância chamado de redes sociais. Você poderá, por exemplo, banhar-se nas águas do Google, essa desgraça formidável criada pelos desgraçados capitalistas americanos. Mãeeee(!), quando se usou a pólvora em batalha pela primeira vez? Deixa de ser tolo, menino, procura no Google! E a raiz quadrada de 937? Procura nessa peste de Google, menino, não enche o saco, ora bolas!
               
O que eu quero dizer é que a internet e as brilhantes ideias materializadas em torno dela geraram uma rede de informação e comunicação formidável. Fenômeno novo. Há pouco mais de uma geração, aí pelos Anos Setenta, sequer se suspeitava pudesse um dia vir a existir. E a pensar que tudo só está exatamente no começo. Mas também nela há uma espécie de sambódromo eletrônico. Ai você lê que “a Amazônia é o pulmão do mundo”; que “o Brasil é muito rico porque a Amazônia tem vinte por cento da água doce do mundo”; que “a biodiversidade da Amazônia fará do Brasil a maior potência econômica mundial”; que... vá acrescentando o que sua imaginação puder.
               
O pior nem é isso. De peito inchado de ufanismo proclamamos que devemos preservar a floresta para o futuro da humanidade. Ficamos também orgulhosos porque Temer tomou um esporro de um mentolado rei da Noruega. Quanto orgulho! Nosso presidente tomou um justo e merecido esporro de sua majestade, o rei de araque! Onde já se viu uma coisa dessa, o rei querendo salvar a Amazônia e o Brasil querendo desmatar.
               
Para que este texto não fique por demais extenso, tenho que queimar etapas. Mas voltarei ao tema, quantas vezes necessário seja.
               
Sempre me considerei um ambientalista, mas nunca cai no paganismo de substituir Deus pela Mãe Terra (Pachamama). Filósofos e pensadores modernos muito atilados começam a chamar atenção para esse fenômeno. Um grande número de pessoas, ainda que sedizentes crentes, não têm mais convicção religiosa. Como é muito difícil viver sem religião, caíram numa espécie de paganismo, passaram a adorar a natureza. Os comunistas colocaram o Estado no lugar de Deus. Derreado o comunismo, os povos antes dominados por essa estranha doutrina voltaram a entulhar as igrejas, a fé renasceu. Já essa nova espécie de paganismo é encontradiça entre os jovens, mas eles, lógico, nem de longe percebem tal fenômeno. Ainda está pouco estudado, embora já bastante observado.
               
Nos anos oitenta, começou um ciclo muito prolongado de seca na região cacaueira. Como sempre gostei muito de estudar geografia e clima, meu interesse foi-se aguçando. Nesse período, assisti uma palestra maravilhosa proferida pelo professor Paulo de Tarso Alvim, membro da Academia Brasileira de Ciências, cientista da área de fisiologia vegetal, mas de amplos conhecimentos em outras áreas, inclusive em clima. O título da palestra foi Meio Ambiente. Homem muito arguto, começou dizendo que meio ambiente era um pleonasmo, pois meio era ambiente e ambiente era meio. Falou sobre o ciclo de seca que então vivíamos, a influência do El Niño, da La Niña, enfim, falou sobre clima e sobre a Amazônia. Didaticamente explicou que a chuva nunca cai onde se forma. Disse que o clima não muda. Transcorrem milhares e milhares ou milhões de anos para haver uma mudança de clima. Deu toda uma explicação científica sobre o porquê. Depois falou sobre a lenda de que a Amazônia era o “Pulmão do Mundo”.  Disse que leu um artigo de um colega fazendo essa afirmação. Mais que depressa escreveu ao colega perguntando qual tinha sido a fonte para tal afirmativa. O colega respondeu que lera num artigo de um cientista alemão de cujo nome não se recordava. Com sua verve, disse que, nos meios científicos, quando se queria dar ares de coisa séria a uma bobagem sempre se atribui a um cientista alemão. Creio que os amigos Carlinhos Macedo e Lício Fontes estavam presentes. A palestra foi feita no âmbito do Rotary Clube de Itabuna.
               
Anos depois, fui ao Chile. Ao retornar, comprei no aeroporto um livro escrito por um cientista peruano sobre a Amazônia. Não conseguia parar de ler. Quando cheguei ao Brasil, o livro já estava lido. Tudo o que Paulo Alvim dissera na palestra – e muito mais -, estava lá escrito, principalmente sobre a região Amazônica, sob o crivo de farta documentação. Daí em diante não parei mais de ler sobre clima. Sobre aquecimento global (global warming), afora muitos artigos, já li vários livros escritos por cientista de primeira, dos quais destaco Climate Change – The Facts, The Climate Wars e Human Causes Global Warming, além de ser leitor assíduo de alguns blogs científicos, principalmente do respeitadíssimo Roy Spencer. Assim, estou relativamente bem informado. Em função disso, sinto alguma diversão quando leio as bobagens propagadas pela imprensa brasileira, principalmente pela Globo, embora essa rede já esteja mudando o tom da conversa. Al Gore, por exemplo, tão em voga entre os ecoalarmistas brasileiros, disse, bem lá atrás, que em 2014 a Florida estaria embaixo d´água. Fico aqui pensando que eu deveria estar saindo de barco do décimo segundo andar para fazer compra em algum supermercado flutuante. Já pensaram que maravilha seria pescar um mahi-mahi de minha varanda! Grande Al Gore!
               
Mas, vamos ao que interessa. A Amazônia não é nem nunca foi o “pulmão do mundo”. Essa região, como dizem os cientistas, não passa de ambiente em “clímax ecológico”, vale dizer, consome todo ou quase todo oxigênio por ela mesma produzido. É como uma pessoa de parcos recursos, consome o que produz, nada ou quase nada restando para investir. Produz oxigênio e sequestra gás carbônico, para, ao depois, emanar o gás carbônico e sequestrar o oxigênio, numa troca de soma zero. Trata-se de uma floresta velha, em clímax ecológico. Os reflorestamentos, tão criticados por ecologistas equivocados, esses, sim, produzem mais oxigênio do que consomem, por formarem florestas novas. Representam um balanço positivo para a natureza.
               
E o desmatamento da Amazônia? O que fazer? Imaginem se aquela perninha do Sul fosse uma floresta como a Amazônica; imaginem o Sul de Minas para baixo todo coberto por florestas, até os pampas gaúchos. Que seria do Brasil? Imaginem os Estados Unidos e toda a Europa florestados. Nunca se esqueçam que já foram assim, iguaizinhos à Amazônia. O que seria do mundo?
               
Meus amigos, devemos lutar por água limpa, ar limpo, rios e mares não poluídos, que isso sim é importante. Vejam quão maravilhosas foram as transformações que o homem fez no mundo. Deus e o mundo viaja a Paris, Nova York, Rio de Janeiro, Londres, São Petersburgo. As pessoas pegam um jato, jantam no avião, dormem e acordam para tomar café em Miami ou New York! Que Maravilha! Cortam os Estados Unidos de carro, por autoestradas maravilhosas, por linhas férreas intermináveis, canais lindos. De avião veem, lá embaixo, plantios modernos parecendo tabuleiro de xadrez. Reportam em fotos, publicações no Instagram, Facebook, e e-mail as maravilhas do mundo. Tudo acrescido à natureza por esse animal maravilhoso chamado homem.
               
É verdade que muitas atividades conseguem degradar a natureza. Mas nada que não possa ser reparado. Aí estão, já revitalizados, o Tâmisa, o Sena e outros rios que cortam grandes centros urbanos. Centenas de canais cortando Fort Lauderdale e o Sul da Flórida, percorridos por centenas de milhares de barcos (na Flórida há 600 mil!) e, ainda assim, as águas permanecem puras e cristalinas. Na verdade, a degradação do ambiente está em países pobres, sem consciência ambiental e sem dinheiro para melhorar o ambiente.
               
É trágico e paradoxal ver jovens que moram em lugares onde os esgotos não são tratados, onde a água não é tratada, onde o lixo se acumula nas ruas, tudo pela ação humana, bradando nas redes sociais contra o “Aquecimento Global”.
               
Bom, e os tais vinte por cento da água doce do mundo proporcionado pelo Amazonas e seus afluentes, não é uma riqueza? Não, não é. Toda essa água é despejada praticamente sem nenhum proveito no Oceano Atlântico. O maior desperdício de água doce do mundo. Se nossa orografia se assemelhasse à americana, isso não aconteceria. Sabe as montanhas que começam no Sul da Bahia e correm até o Rio Grande do Sul, perto do Uruguai? Se esse conjunto de serras e montanhas tivesse direção inversa, direção Norte, como acontece com os Appalachian/Allegheny Mountains, na costa Leste dos Estados Unidos, a Bacia Amazônica encontraria esse obstáculo no Leste, ás águas correriam pelo centro do Brasil e iriam desaguar pelas bandas do Rio Grande do Sul, junto com o São Francisco e todos os rios do trajeto. Ai, sim, esse rio teria a importância do rio Mississippi, o Brasil teria uma vastidão navegável e nossa riqueza seria muito maior.
               
Mas não podemos mudar essa orografia adversa. Então, o que fazer em termos práticos. Muito simples, podemos derrubar a mata amazônica, de forma planejada, onde os solos fossem propícios à agricultura e à pecuária. Façamos que a Amazônia seja o mais produtiva possível. Conservemos, todavia, a floresta nos solos arenosos.

Mas isso não faria parar de chover na região? Bom, melhor estudar princípios básicos sobre clima para não repetir coisas que cientificamente não fazem sentido. Nunca se esqueça: uma região é deserta porque não chove, assim como uma região tem floresta porque chove. Tirada a mata do Sul, continuou a chover normalmente no Sul. A chuva não é causada pela mata, a mata é que é causada pela chuva. Se fosse possível plantar e irrigar todo o deserto de Atacama, no Chile, e manter as árvores por irrigação, tudo ficaria um verde lindo, mas lá continuaria sem chover. As áreas desérticas plantadas em Israel, graças à irrigação, continuam desérticas.
               
Já escrevi muito. Prometo que se houver comentários e eu sentir que algo mais precisa ser explicado ou mais bem esclarecido, como diria Temer, fá-lo-ei.
               
- Calma lá, my friend, não atiça fogo e sai de fininho, não, tá pensando o quê?  E o rei da Noruega, o tal rei de araque, com fica nisso?
               
- Okay, procurem na Amazônia o cacho mais viçoso que houver; retirem desse cacho a maior e mais viçosa de todas e mandem para ele, com os nossos cumprimentos.
               
Um bom fim de semana para todos.

*Não confundir a Amazônia legal, criada com o fito de ampliar benefícios e renúncias fiscais, com a Amazônia verdadeira.
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, 6-7-2017             

Colunas anteriores:
“A Petrobrás é do povo brasileiro” e outras bobagens

6 comentários:

  1. José Manuel
    @JosManu25681760

    Excelente, claro e atualíssimo texto sobre a Amazônia.
    Parabéns ao escritor e revista Cão que fuma.

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  2. Sei não... (ou sei?) Tenho a impressão que Jair Bolsonaro "aumentou" a sua popularidade.

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  3. Mais de 90% do oxigênio da terra é produzido pelos oceanos.
    Os plânctons produzem o tal oxigênio que nos ajuda a sobreviver e ao mesmo tempo oxida nossas células fazendo-nos envelhecer.
    O maior devorador de fitoplânctons são as baleias e o tubarão martelo, nem por isso sugiro suas mortes.

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  4. @DineshDSouza

    Nothing unusual is happening with the Amazon. So if you want to stop eating meat or driving your SUV or using air conditioning, go right ahead. Just realize you are not helping the planet or anyone else. You are just doing it to feel good about yourself for no valid reason

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  5. Meu Caro Jim Pereira,
    O "Fale Conosco" não está permitindo acessos.
    Como faço para submeter um artigo que estou escrevendo sobre as queimadas na Amazônia, para a sua apreciação e publicação? Neste artigo, ofereço uma perspectiva que ainda não vi na imprensa ou na internet.

    Um abraço forte,
    Marcus Kerr (ex-comissário da Pioneira)

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