terça-feira, 20 de agosto de 2019

[Livros & Leituras] Resgatando os condenados

Jordan B. Peterson

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Antes de ajudar alguém, você deveria descobrir por que essa pessoa está com problemas. Você não deveria simplesmente presumir que ela é uma nobre vítima de exploração e circunstâncias injustas. Essa é a explicação mais improvável, e não o contrário. Em minha experiência – clínica e de outras áreas – isso nunca foi simples assim. Além do mais, se você comprar a história de que tudo de terrível aconteceu do nada, sem a responsabilidade pessoal por parte da vítima, você nega a essa pessoa toda sua capacidade de ação no passado (e, por implicação, no presente e no futuro também). Dessa maneira, você a despe de todo o poder.

É muito mais provável que tal indivíduo apenas tenha decidido recusar o caminho para o topo por causa de sua dificuldade. Talvez essa devesse ser a suposição padrão ao se encontrarem situações assim. Isso é árduo demais, você pode pensar. Talvez você esteja certo. Talvez seja um passo muito grande. Mas observe que o fracasso é fácil de compreender. Não é necessária explicação alguma para sua existência. Do mesmo modo, medo, ódio, vício, promiscuidade, traição e trapaça não exigem nenhuma explicação.

Não é a existência do vício, ou a indulgência com ele, que requer uma explicação. O vício é fácil. O fracasso, também. É mais fácil não carregar um fardo. É mais fácil não pensar, não fazer e não se importar. É mais fácil deixar para amanhã o que precisa ser feito hoje e afogar os próximos meses e anos nos prazeres baratos do hoje. Como o infame pai do clã dos Simpsons diz, imediatamente antes de engolir uma jarra de maionese com vodca: “Isso é um problema para o Homer do Futuro. Amigo, não invejo aquele cara!”

Como posso saber que seu sofrimento não é um pedido para que eu sacrifique meus recursos só para que você possa momentaneamente impedir o inevitável? Talvez você nem se importe mais com o colapso iminente, mas ainda não queira admitir. Talvez minha ajuda não retifique nada – não possa retificar nada – porém, mantém essa conscientização tão terrível e pessoal temporariamente afastada. Talvez sua miséria seja uma exigência imposta a mim para que eu falhe também, de modo que a distância que você tão dolorosamente sente existir entre nós possa ser reduzida enquanto você se degenera e afunda.

Como posso saber se você se recusaria a jogar esse jogo? Como posso saber que eu mesmo não estou fingindo ser responsável enquanto estou inutilmente “ajudando” você, de modo que eu não tenha que fazer algo verdadeiramente difícil – e genuinamente possível?

Talvez sua miséria seja a arma que você brande em seu ódio por aqueles que conseguiram se erguer enquanto você esperava e afundava. Talvez sua miséria seja sua tentativa de provar a injustiça do mundo, e não uma evidência de seu próprio pecado, de sua própria falha, de sua recusa consciente em lutar e viver. Talvez sua disposição para sofrer pelo fracasso seja inexaurível, considerando-se o que você está tentando provar com esse sofrimento.

Talvez seja sua vingança contra o Ser. Como, exatamente, eu deveria ser seu amigo quando você se encontra em um lugar assim? Como, exatamente, eu conseguiria?

Sucesso: esse é o mistério. Virtude: isso que é inexplicável. Para fracassar, basta cultivar alguns maus hábitos. Você só tem que esperar a sua vez. E, uma vez que alguém tenha passado tempo suficiente cultivando maus hábitos e esperando sua vez, estará muito enfraquecido.

Muito daquilo que ele poderia ter sido já se dissipou, e muito do pouco em que se transformou é agora real. As coisas desmoronam por vontade própria, mas os pecados dos homens aceleram sua degeneração. E depois vem o dilúvio.

Não estou dizendo que não existe esperança de redenção. Mas é mais difícil tirar alguém de um precipício do que puxá-lo de uma vala. E alguns abismos são muito profundos. E não sobra muito do corpo lá embaixo.

Talvez eu devesse pelo menos esperar, antes de ajudá-lo, até que esteja claro que você quer ser ajudado. Carl Rogers, o famoso psicólogo humanista, acreditava que era impossível começar um relacionamento terapêutico se a pessoa que buscava ajuda não quisesse melhorar. Rogers acreditava ser impossível convencer alguém a mudar para melhor. Pelo contrário, o desejo de melhorar era uma precondição para o progresso. Já atendi a pacientes que buscaram tratamento por decisão judicial. Eles não queriam minha ajuda. Foram forçados a procurá-la. Não funcionou. Era tudo uma farsa.

(...)
Título e Texto: Jordan B. Peterson, in “12 regras para a vida – um antídoto para o caos”, páginas 81, 82 e 83. Alta Books Editora, Rio de Janeiro, 2018.
Digitação: JP, 20 de agosto de 2919

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