quinta-feira, 29 de agosto de 2019

O esforço inglório dos nossos fake media contra os acontecimentos verídicos

José Mendonça da Cruz

A generalidade dos media portugueses, com as televisões à cabeça -- e, dentro destas, a SIC na vanguarda -- não produz hoje informação. O que produz é propaganda, omissão e desinformação, ou seja, o fruto do trabalho dos ativistas, serventes e dos pobres diabos sem deontologia nem espinha que, aparentemente, poluem as redações. Chamemos-lhe, abreviadamente, «a clique».


Este tipo de intoxicação tem já episódios antigos. Como o de Reagan, um mero «cowboy» de filmes B, que, inconvenientemente, derrubou o império soviético e mudou o mundo; ou do segundo Bush, ignorante por se referir aos gregos como «grecians», palavra que os ignorantes desconheciam existir em inglês, e ser o equivalente do nosso «helénicos». Ou talvez de Kohl, um aventureiro que unificou a Alemanha (coisa que nenhum homem de esquerda faria). Mas estes eram apenas episódios. A intoxicação é, agora, total e generalizada.

É por isto que, a cada vez que, perante a baixa de tiragens, ou audiências, ou vendas, leio ou ouço os porta-vozes das aflições dos nossos media clamar por ajudas e subsídios, eu me sinto extremamente confortado. Por enquanto, ainda não vivemos num país inteiramente socialista; por enquanto, os media ainda dependem da opinião dos consumidores.

É que a maioria dos que ainda consomem o produto da generalidade dos media portugueses, deixaria de consumir se soubesse os erros que a clique divulga, os factos relevantes que a clique ignora, e as verdades que a clique propositadamente oculta.

Infelizmente para a clique dos media, qualquer indivíduo que goste de estar informado tem cada vez maior facilidade em obter informação fidedigna em blogues, sites noticiosos e imprensa internacional, onde dispõe de dados, números, factos relevantes e relatos verídicos, ou seja, aquilo que a clique chama «fake news».

Dois casos apenas. Um amor de estimação e um ódio de estimação (um novo), respectivamente, da clique.

Diz-nos a clique que a ativista sueca do ramo de negócio da ecologia, a Greta, é heroica, impoluta e iluminada, a versão secular de uma santa. Tanto que, para evitar poluir o ambiente, viajou de barco para uma conferência em Nova Iorque. A TSF, com total destemor do ridículo, disse até que ela viajava num «iate ecológico». Foi pena não nos terem informado que a rapariguinha e o pai regressarão à Europa de avião; e que quatro indivíduos viajarão agora de avião até aos EUA para trazerem o iate de volta ao Mónaco e às mãos do proprietário, filho da princesa Carolina. Seria evidentemente excessivo pedir à clique que explicasse se é este o futuro que deseja: o dos pobres e remediados quietos em casa, enquanto os ricos e os arautos de causas trabalham ou fazem férias de iate ou fragata, sem o incómodo das multidões e do convívio com a maralha.

O que a clique seguramente deveria ter informado, é que santa Greta padece da síndrome de Asperger, e que, como facilmente aprenderia no site da CUF (são privados, são um horror!), as manifestações mais habituais desse problema são, nomeadamente, «conversas longas mas quase em monólogo, sem percepção se o ouvinte deseja falar ou mudar de assunto (...) obsessão por um ou dois temas muito específicos, como estatísticas de desporto, horários de comboios, meteorologia; incapacidade de compreender ou mostrar empatia em relação aos sentimentos dos outros; (...) atitude inflexível face à mudança».

Já sabíamos que Trump é incompetente politicamente, apesar de ter derrotado santa Hillary, e economicamente apesar de colocar a economia a crescer mais de 3%, o rendimento familiar em alta, os impostos em baixa, e o emprego branco, negro e «latino» em alta recorde, e de ter renegociado com grande vantagem tratados com o México e o Canadá. Trump é, além disso, segundo a clique, um criminoso que conduz o mundo à beira da guerra ao destratar a Coreia do Norte, apesar de ter levado a Coreia do Norte à mesa de negociações, que continuam, e ter sido o primeiro líder mundial a afrontar os abusos monetários e comerciais da China. A clique também nunca contará que, caso as negociações com Pyongyang cheguem a bom termo, Trump cortará os biliões de dólares anuais de apoio à Coreia do Sul (como intenção mediata não está nada mal para um néscio).

Já sabíamos que o Brasil e o seu povo se suicidaram ao eleger Bolsonaro, em vez de mais um corrupto (que, aliás, acaba de ser condenado), fruto e filho dileto de um bando de corruptos.

Mas a clique tem agora um ódio novo, Boris Johnson. Boris Johnson é, para a clique, um ódio mais ingrato, pois tem mais política num dedo do que a clique no corpo inteiro, e mais cultura e educação em dez gramas de cérebro do que a clique tem no seu cérebro coletivo (embora alguns palermas da clique se aventurem debalde a sugerir que não é assim). Mas desinformation oblige. Logo...

Logo, soubemos hoje que a decisão de Boris Johnson de «suspender o Parlamento», causou «grande polêmica» e suscitou até acusações de «comportamento ditatorial».

Que se passou, de facto, e que se esquece a clique de informar?

-- que Johnson não «suspendeu o parlamento». Nos termos constitucionais pediu a suspensão da sessão parlamentar, que foi autorizada pela rainha;

- que a sessão parlamentar em curso era já a mais longa de toda a história de Inglaterra;

- que é normal a sessão parlamentar ser suspensa antes do discurso da rainha em que exporá as principais medidas do programa de um novo governo britânico (como é o caso do anúncio dos cortes de impostos, do combate ao crime, e dos grandes investimentos em infraestruturas que Johnson já anunciou).

- que é normal a sessão parlamentar ser interrompida para férias, embora eu acrescente que nunca por um período tão longo (assim tentando eu demonstrar que não é preciso omitir o que não nos convém para discutir um ponto).

- que a senhora que classificou Johnson de «ditador de pacotilha», a senhora Sarah Wollaston, tem a grande autoridade moral de ser a mesma que em poucos meses abandonou o Partido Conservador em favor do Change UK, e depois o Change UK em favor dos Liberais Democratas, sem nunca achar que precisava de perguntar alguma coisa aos eleitores da circunscrição por que foi originalmente eleita.

O que a clique, de qualquer forma, recusa informar, é que a «polémica» de Johnson é apenas alta política: a redução do tempo de conspiração dos críticos dos no-deal Brexit e dos remainers (que, de qualquer forma, já dispuseram de três anos); que as principais medidas do programa de governo são uma arma poderosa em caso de eleições (que Johnson quase proclama que deseja); que quanto mais crível for um Brexit sem acordo mais a UE tenderá a negociar.

O que a clique nunca informará é que uma Inglaterra livre da UE poderá negociar um tratado bilateral com os EUA que além de vantajoso, pode atirar o Tratado Intercontinental para as calendas ou para o lixo; que um Brexit sem acordo escancara uma porta que os burocratas de Bruxelas receiam ver sequer entreaberta; que sejam quais forem para a Inglaterra as consequências econômicas do divórcio com a UE, as consequências econômicas no continente terão neste consequências políticas (os agricultores franceses que perderem o seu principal cliente ainda votarão Macron? Os polacos e os húngaros sob sanções da UE não terão novas ideias? Os partidos entre eurocéticos e euroalérgicos de França, Alemanha, Itália e países nórdicos não terão novo alento?)

Tudo isto seria mais esclarecedor, mais complexo, mais informativo? Pois seria. Mas a clique não quer esclarecimento, nem complexidade, nem informação. A clique quer apenas uma vulgata e uma agenda. Elas resumem-se na velha descrição certeira: «a filosofia do falhanço, o credo da ignorância, e o evangelho da inveja».
Título e Texto: José Mendonça da CruzCorta-fitas, 28-08-2019

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