sábado, 18 de julho de 2020

A filosofia da besta quadrada


Hélio Schwartsman não tem nada pessoal contra Bolsonaro. Mas torce para que morra

Augusto Nunes

Hélio Schwartsman já seria muito mais que um jornalista se fosse apenas um jornalista da Folha de S. Paulo. Quem trabalha por lá aprende desde a primeira pauta que já saiu da vida para entrar na História. Por respirar o mesmo ar que oxigenou os pulmões dos descobridores de uma verdade anterior a Gutenberg, um filhote da Folha descobre em um minuto que quem compreende a função social do jornalismo nem precisa saber escrever. Os recém-chegados também aprendem que a Folha, embora centenária, nasceu em 1983, com a missão de conceber, parir e amamentar a campanha das Diretas Já. Antes de reivindicar a paternidade da maior mobilização popular da história do Brasil, nada parece ter acontecido de relevante na trajetória do jornal que, nascido há mais de um século, capricha na pose de quarentão provido de notório saber sobre qualquer coisa.

Em 1964, por exemplo, a Folha apoiou com entusiasmo de pregador a queda do presidente João Goulart. Nos anos seguintes, não deu um pio sobre prisões de deputados, cassações de mandatos e outros pontapés na democracia. Com a decretação do AI-5, a empresa Folha da Manhã arrendou um dos seus jornais ao comando da repressão política. Mais de uma vez, terroristas souberam que morreriam no dia seguinte pela manchete que noticiava já na véspera a execução do prisioneiro, sempre “ocorrida durante uma troca de tiros com agentes dos órgãos de segurança”. A partir de 1968, a ditadura sem disfarces colocou sob censura, anos a fio, a revista Veja e o Estadão. A Folha não foi censurada um único dia. A direção e os jornalistas em cargos de chefia cuidavam voluntariamente de sonegar aos leitores notícias consideradas incômodas pelos generais no poder.

Alguém aí leu essas coisas na Folha? Nem vai ler. Os arqueólogos seletivos preferem exumar o indignado editorial sobre a brancaleônica invasão do jornal por fiscais do presidente Fernando Collor, ou textos iracundos resultantes de colisões frontais com outros governos, todas sem perdas ou danos consideráveis. A Folha só é boa de briga em períodos de temperatura política amena.

A boa saúde do Estado de Direito requer cuidados apenas quando começa uma sessão do STF

Realizada quando o regime militar aguardava alta na UTI, a campanha das Diretas Já foi tão perigosa quanto uma eleição de síndico. Para defender a democracia numa ditadura em estado de coma, basta a mobilização da Guarda Mirim de Taquaritinga. Sabe-se lá por quê, a Folha acaba de tirar do baú a fantasia de guardiã das instituições em perigo para prevenir um autogolpe do presidente eleito há menos de dois anos. Neste 2020, a boa saúde do Estado de Direito requer cuidados apenas quando começa uma sessão do Supremo Tribunal Federal. Ou quando um ministro termina a redação de uma decisão democrática.

Se um repórter contratado na véspera já entra na redação calçando coturnos imaginários, é compreensível que veteranos de guerra enfeitem a cabeça com um quepe de general paraguaio do século 18. É o caso de Hélio Schwartsman. Aos 55 anos, ele é o titular da coluna no alto da página 2. É também um dos editorialistas, cargo que garante ao menos um almoço por semana com o dono da empresa. Não é pouca coisa. Mas não é tudo: como informa o currículo resumido, o oficial graduado Hélio Schwartsman é filósofo. (Que fique claro: não se trata de mais um diplomado por uma das faculdades de Filosofia anexadas a universidades federais que só servem para enfeitar a sala de troféus de Lula com títulos de doutor honoris causa. Schwartsman é filósofo mesmo, daqueles condecorados com curso de aperfeiçoamento no exterior, barba de um dia e meio e tufos de cabelos nas orelhas que parecem filtros improvisados para impedir que o pensador acabe perdendo tempo com detritos intelectuais.)

Habituado a produzir uma tese por dia, o colunista-editorialista-filósofo elevou a produtividade depois do pouso no Brasil do coronavírus. Com tempo para piruetas mentais mais audaciosas, não é surpreendente que tenha sido ele o autor do texto publicado pela Folha na edição de 8 de julho deste ano. O título é o resumo da ópera: PORQUE QUERO QUE BOLSONARO MORRA. Se os bares da Vila Madalena estivessem abertos, Schwartsman talvez se limitasse a impressionar os amigos, todos escritores sem leitores, com a mera declamação da frase. Enquanto a plateia se recuperava do surto de criatividade e ousadia, o autor poderia até retirar-se sem pagar a cerveja consumida e esquecer o espasmo de imaginação. Certamente a prorrogação da quarentena soprou ao colunista a ideia de jerico: que tal ordenhar o título imbecil até colher o suficiente para o artigo do dia?

E então entrou em campo o filósofo. Depois de reiterar na primeira linha seu apoio ao vírus chinês que infectara o presidente da República, Schwartsman fez a ressalva: “Nada pessoal”. Como assim? O que há na cabeça de alguém que deseja a morte de alguém sem nenhum motivo específico para odiar o condenado? A continuação do besteirol informa que o autor do texto estava raciocinando como um adepto de algo chamado “consequencialismo” — embora jamais tenha sido “consequencialista”. Se fosse, acreditaria que “ações são valoradas pelos resultados que produzem. O sacrifício pode ser válido, se dele advier um bem maior”.

Seria interessante ouvir Schwartsman dissertar sobre os mistérios do consequencialismo

E qual seria, no caso do presidente brasileiro, esse misterioso “bem maior”? “No plano mais imediato”, pontifica o pensador de galinheiro, “a ausência de Bolsonaro significaria que já não teríamos um governante minimizando a epidemia nem sabotando medidas para mitigá-la”. Nas linhas seguintes, ele jura que a cada declaração de Bolsonaro favorável à reabertura da economia cai a taxa de isolamento e aumenta o número de óbitos. Quer dizer: no Brasil, não é o vírus que anda matando gente. É Bolsonaro. Embora proibido pelo STF de interferir na estratégia de combate à pandemia, o presidente é responsabilizado por Schwartsman por todas as mortes ocorridas no Brasil. Só não morreu mais gente, avisa, graças ao patriotismo e à perspicácia de governadores e prefeitos.

No fim do desfile de sandices, Schwartsman garante que as mortes seriam reduzidas em outros países, cujos habitantes se espelham nos maus exemplos de Bolsonaro. O prefeito de Bolonha, quando o fantasma da crise sanitária começou a agigantar-se, lançou a campanha “Abrace um chinês”. O prefeito de Milão decidiu que a cidade não iria parar. Em metrópoles que adotaram o isolamento total, a curva de óbitos permaneceu ascendente. Mas o colunista da Folha acha que a solução viria com a morte de Bolsonaro. Fez mal o governo federal ao tentar enquadrar Schwartsman como criminoso. Ele merece continuar à solta e exercendo o direito à liberdade de expressão.

Seria interessante ouvi-lo dissertar sobre os mistérios do consequencialismo. A Alemanha nazista matou seis milhões de judeus (entre os quais poderiam ter figurado ancestrais do colunista), convencida de que o mundo seria melhor com a erradicação de raças inferiores. Com a eliminação física de Trotsky, teria Stalin garantido uma União Soviética menos brutal? O Brasil teria ficado menos idiota se fosse atendido quem torceu pela morte da dupla Lula e Dilma? Há outro bom motivo para manter Schwartsman livre, leve e solto. Como todo filósofo, o pensador da Folha certamente se angustia com três enigmas antigos como o mundo. Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?

Para eliminar a primeira interrogação, bastou a Schwartsman uma incursão pelo mundo maravilhoso do consequencialismo. Se não sabia quem era, agora já descobriu quem é: uma perfeita besta quadrada.
Título e Texto: Augusto Nunes, revista Oeste, 17-7-2020, 9h31

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