Aparecido Raimundo de Souza
O MACIEL BARBOSA resolveu, de
última hora, que tinha de participar da corrida que acontecia todos os anos no
segundo domingo de novembro. Assim, foi até o local da inscrição e mandou
brasa. Não esperava ganhar o primeiro lugar, claro, nem reunia condições físicas
para isso. A coisa só ficaria na brincadeira. Ao menos aliviaria um pouco o
estresse do dia-a-dia, e, de roldão, esfriaria e acalmaria os muitos problemas
com a rotina inervante da vida, sem contar com a falta de serviço, contas para
pagar, telefone celular mudo, prestações
do carro vencidas, “etc., etc”.
Pegou o número que a moça lhe
estendeu num pedaço de papel-cartão e voltou ligeiro para casa. No caminho,
antes de chegar para o almoço, resolveu tomar uma cervejinha. Lugar comum, de
costume, o barzinho do Fred Frederico – amigo das peladas de todos os sábados
no campinho da estação ferroviária e no tempo das vacas gordas, das malhações
na academia “Mens sana incorpore sano”, de um outro da turma, o Leandro “Olho
Saltado”. Mal sentou, chegou atrás, no vácuo, o Tadeu Fantini, dono da loja de
móveis e aparelhos eletroeletrônicos, além de roupas para homens, mulheres e
crianças, seguida por um item infindável de materiais de construção e uma farta
lanchonete perto da Praça da Prefeitura.
O Fantini, rico e poderoso na
cidade, agiotava sem escrúpulos e por conta disso, (não perdoava nem a mãe).
Atrelado ao azar, o Maciel devia à ele os juros de umas promissórias,
(assinadas desde os tempos em que esses documentos se faziam moedas de trocas),
barganhados a vinte e cinco por cento com prazos a se perderem de vista. Por
conta desse “papel” o capital havia sido pago, só em “costurar buracos na
colcha”, ou seja, nas prorrogações, a título de juros, afora o cara ter
abocanhado uma televisão último tipo, geladeira, cama de casal e o anel de
formatura da esposa, a dra. Rubia, única médica ginecologista da região, além
de relógio, vídeo, filmadora e um veículo Citroën Aircross branco praticamente
novo e até móveis do consultório da dra Rubia com cadeiras, sofás,
escrivaninhas, mesas, arquivos e computadores. Maciel Barbosa tremeu na base.
Fugiu tanto do infeliz e eis que, de repente, saído dos quintos do inferno, do
nada, a sua frente aparece o cidadão como urubu magro secando a carniça gorda.
— Estava passando, vi você, resolvi parar...
— Fez bem. Ia te ligar daqui a pouco...
— E a “baba”?
— Segunda-feira, sem falta.
— Tudo?
— Só uma refrescada, com o restante para mais trinta dias...
— Ok. Passa lá no meu comércio...
— Com certeza.