sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Como se os credores não se importassem

Luís Naves
A decisão do Tribunal Constitucional teve várias consequências: a dureza do chumbo implicou a perda de face do governo, que perdeu credibilidade externa; por isso, o resgate vai endurecer; o previsível aumento do IVA afectará sobretudo os mais pobres, que pagam este imposto de forma desproporcionada; a tímida recuperação do emprego está sob ameaça; e, finalmente, Portugal pode tirar o cavalinho da chuva no que respeita a uma eventual saída à irlandesa do programa de ajustamento.

Ontem, nas televisões, foi um festival de gente contente com as desgraças governamentais. Julgo que estes analistas estão equivocados. Se não houver mais chumbos, o País poderá concluir um programa cautelar de um ano, mas as condições serão provavelmente duras e as negociações difíceis. Se houver mais chumbos, o TC empurrará Portugal para o segundo resgate. Este dura três anos, envolve muito mais dinheiro e os credores vão exigir aos partidos condições leoninas. Haverá eleições antecipadas e o centro-direita será provavelmente trucidado nas urnas, mas o custo para a esquerda pode revelar-se demasiado elevado, pois os europeus vão exigir garantias sobre uma revisão constitucional e serão eles a indicar os artigos que pretendem alterar.

Sem resgate, isto era tudo bem mais simples, mas vejam a questão do ponto de vista de Berlim: se os portugueses têm um problema de Constituição, muda-se a Constituição. O TC deixa de ser relevante e não me admirava se os credores nos exigissem um sistema mais presidencial. Os partidos terão de assinar esse memorando com revisão constitucional, ou não haverá mais empréstimos. É isso ou a bancarrota. E não está afastada a hipótese de pesadelo: a Grécia a sair do euro e a levar-nos na água do banho. Seria a ruína da classe média em Portugal e julgo que ninguém deseja como futuro um cenário argentino. Por tudo isto, não compreendo a alegria infantil daqueles que, por detestarem o governo, viram nesta decisão grandes vantagens para o País.
Título e Texto: Luís Naves, O Fragmentário, 20-12-2013
Grifos: JP

País é um substantivo ao qual essa gente não têm o menor apreço, por mais que encha a boca quando pronuncia essa palavra. O negócio é impedir por todos os meios e fins que este Governo, democraticamente eleito, consiga recolocar o país nos trilhos... pois que tal objetivo alcançado eliminará os dentes dos que hoje riem... pegou?

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