domingo, 10 de abril de 2016

Adeus - e obrigado! ... nós continuamos por aqui

(Este texto é de dezembro de 1992, e serviu como uma merecida e singela homenagem às Comissárias e Comisssários de Voo aposentados naquele ano. Na época, eu estava em plena ativa. Agora, passados quase 13 anos,  (2005) tendo-o encontrado num velho caderno de rascunhos, e aposentado como "eles", lembrei-me, com saudade e ternura, de um tempo que se já passou, permanece sereno e feliz graças ao privilégio da convivência com vocês, real ou virtual.
JP)

A atualização ortográfica segue o AO de 1990.

Eles têm vinte e poucos, trinta e tantos, quarenta ou cinquenta e alguns anos de idade. Vieram de quase todos os Estados brasileiros e até mesmo de países amigos. Alguns têm três ou quatro anos de voo. Outros, começaram ainda ontem. Mas também há aqueles com mais de trinta anos em rota. E muitos que sonham em começar...

Muitos deles têm cursos superiores que os habilitam ao exercício das mais variadas profissões. A grande maioria fala, pelo menos, um idioma estrangeiro - e há quem domine mais de dois!

Muitos também já estavam bem instalados profissionalmente, mas deixaram tudo o que faziam antes. Desistiram de concorrer a empregos melhores, interromperam estágios, cancelaram projetos, adiaram noivados, alguns, talvez, tenham até brigado com a família, enfim, deixaram tudo de lado para abraçarem o que consideraram uma experiência única: voar servindo.

Atenderam a milhões de viajantes, sem nem lhes saber o nome. Cansaram-se em plantões noturnos intermináveis. Cochilaram em seus incômodos lugares de descanso. Lidaram com o público e desempenharam muitas outras tarefas, registrando queixas e críticas, desaforos, inconveniências.

Organizaram galleys, carregaram e guardaram embrulhos, sacos e malas. Atenderam doentes. Trabalharam com equipamentos sofisticados e, também, com peças obsoletas, ferramentas enguiçadas, improvisadas, quebradas, inadequadas. Tiveram que mostrar sempre boa vontade e um sorriso cordial.

Aturaram bêbados, desequilibrados, arrogantes e prepotentes. Atenderam a diretores, presidentes, gerentes, chefes, assistentes, "olheiros", pilotos, mecânicos de vôo, colegas mil. Vip's, Cip's, assessores, empresários, "celebridades"... E, não raro, depararam-se com os "amigos" de "alguém importante", reivindicando tratamentos especiais e complicando-lhes o trabalho até o desespero!

Enfrentaram as emergências "naturais" e as mais imprevistas e delirantes. Continuaram mostrando boa cara e um sorriso bem-disposto. Aguentaram o frio e o calor, e "multidões" indisciplinadas. Prepararam-se intensamente para servir, agir, atuar. Guiaram viajantes, dando-lhes informações sobre tudo... Importava que explicassem, dessem a conhecer, contassem do seu país.

Como tal, cada um deles é um embaixador "full-time". E souberam recepcionar grupos de todos os quadrantes, cores, sexos e aparências...

Ajudaram idosos e deficientes, tiveram paciência com imbecis e difíceis ao trato. Trataram toda a gente com gentileza e afabilidade.

Mesmo quando as crianças se tornaram insuportáveis, em sua "natural" indisciplina e falta de educação.

Mesmo quando os viajantes eram grosseiros, estúpidos, perfeitos cretinos com o "rei na barriga".

Eles sorriam da mesma forma, amavelmente, controlando com eficácia as situações difíceis e tensas, mesmo que estivessem à beira de um ataque de nervos.

Venderam a volta.

Certamente, alguns sofreram e outros tiveram saudades de casa. Alguns adoeceram, e houve até quem fosse embora e não mais voltou.

Ajudaram-se mutuamente nas mais diferentes tarefas. E também andaram na "maior". Estabeleceram cumplicidades esfuziantes. E, com certeza, dançaram e namoraram.

Organizaram jantares, "happy hours" e festinhas de aniversário. Passeios, farras e noitadas.

Houve abstêmios e quem ficasse de pileque. Andaram em bando por esquinas, largos, catedrais, de noite, madrugada ou de dia, em mil lugares do mundo.

Riram solto. Contaram a vida uns aos outros. Falaram de suas terras, famílias, amigos, amores e desamores. Alegrias, vibrações, hesitações e inseguranças. Falaram de injustiças, combinaram viagens e visitas. Choraram sozinhos em quartos internacionais.

Passaram dez, vinte, trinta e poucos anos juntos, um tempo que ninguém pode tirar dessas Comissárias e Comissários de Voo.

E, ao se aposentarem, "malgré tout", brilha em seus olhos uma experiência diferente e inesquecível, a certeza de uma aprendizagem do mundo absolutamente incrível e radiosa.
As lágrimas se aproximam, já com saudades...
Isso é uma coisa que eles, as Comisssárias e Comisssários, não trocariam por nada.

Adeus e obrigado. Nós continuamos por aqui, no ano que vem.
JP
9 de abril de 2016


Um comentário:

  1. Caro Jim,
    Que maravilha de verdades, de fatos, de realidades descritas neste Texto!

    Muito Obrigado por nos relembrar em cada uma destas linhas, o quanto e quão intensa foi nossa Profissão.

    Te digo mais, eu vivi e realizei Literalmente tudo que está descrito neste Texto, com Orgulho, e Saudade!!!
    Um Abraço Fraterno a todos meus e minhas Colegas!
    Heitor Volkart

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