quarta-feira, 6 de julho de 2016

Eduardo Paes fala o óbvio sobre a segurança no Rio. É horrível mesmo! Por que os faniquitos?

Em entrevista, prefeito diz o que todo mundo sabe: a Olimpíada deve ser segura em razão das forças federais que atuarão na cidade durante os jogos
Reinaldo Azevedo
Que coisa, né? Se o prefeito do Rio, Eduardo Paes, tivesse concedido uma entrevista à CNN e dito que a segurança pública do Rio é exemplar, estaria, a esta altura, sendo chamado de louco, marqueteiro e irresponsável. Mas ele disse justamente o contrário, como a todos é óbvio: é horrível! Parece que se prestou pouca atenção ao aspecto mais importante de sua fala: ele saudou o fato de que, durante os jogos ao menos, a área estará entregue ao governo federal: Forças Armadas, Força Nacional de Segurança e reforço da Polícia Federal.

Paes é, para todos os efeitos, o anfitrião do maior evento do mundo. Não há nada que se compare. Já são tantas as inseguranças no país — e no Rio em particular — que me parece que é um dever do prefeito fazer tanto a crítica como emitir um sinal de tranquilidade. E, não por acaso, ele o fez numa emissora de alcance internacional.

Sim, há a lamentar, e ele próprio o fez, que, antes e depois da Olimpíada, tudo se dará no padrão de sempre.

Goste-se ou não do estilo de Paes, conheço pouca gente que não o considere um bom prefeito do Rio. A exceção é o socialismo deslumbrado da linha Freixo. Ou seja: animador de festa da esquerda do Leblon. A gestão, em escala municipal, é operosa, sim. “Ah, mas ele está no PMDB há nove anos e só descobriu agora que a segurança pública e a saúde não funcionam?” Não vejo mal nenhum que lideranças políticas, em algum momento, façam autocrítica.

Mas isso é com ele. Sempre que petistas lambem por aí suas feridas, isso é visto como um sinal de humildade e realismo. Também haveria a saída Dilma: “Não há nada de errado com o Rio, e as críticas todas são coisa da oposição que gosta do quanto pior, melhor”.

Parece evidente que há um contraste entre a qualidade da gestão municipal e a qualidade da gestão estadual, esta, sim, em pandarecos. As razões são as mais diversas: da recessão, que atinge todos os Estados, passando pela queda da receita do petróleo e, como é óbvio, a incompetência. Pior: os sinais vinham sendo dados há muito tempo, nas mais diversas áreas. Mas onde estava a crítica? Mais a imprensa do que Paes tinha o dever de fazê-la. E não a fez.

Imprensa
Sei que vou entrar num terreno espinhoso, mas essa é a minha cara. Em parte, a imprensa fluminense — ou mais propriamente carioca — tem sua parcela de culpa, não é mesmo? Especialmente no que respeita à segurança pública. E sei muito bem do que falo porque apanhei bastante em razão desse tema.

Durante uns bons anos, fui crítico isolado — e “isolado” quer dizer, nesse caso, “único” — da política de segurança do Rio. O arquivo está aí. Sempre entendi que as UPPs — Unidades de Polícia Pacificadora — já traziam um pecado de origem. Quando se fala em “pacificação”, é preciso dizer quem está em guerra. A paz entre as forças de segurança e a bandidagem é e será sempre a paz dos bandidos.

A cultura das elites intelectuais cariocas, incluindo a imprensa, é de tal sorte complacente com suas misérias e assombros que cismou até de chamar “favela” de “comunidade”, como se o vocábulo edulcorado e politicamente correto mudasse a realidade daquelas pessoas.

Assim, para chegar à “comunidade”, a Secretaria de Segurança Pública fazia o que eu chamava de trabalho “Espanta Bandido”. E, pouco depois, lá se viam autoridades, jornalistas e artistas exaltando o fato de que a polícia havia feito seu trabalho sem dar um tiro. Pois é… Parecia que o bandido também havia se convertido à boa causa.

Oh, como esquecer que, na campanha eleitoral de 2010, quando disputou com o tucano José Serra, que havia sido governador de São Paulo, Dilma prometeu implementar o modelo de segurança do Rio Brasil afora? Matava-se, então, no Estado o triplo do que se matava em terras paulistas. E daí?

A imprensa paulista, ou mais propriamente paulistana, odeia São Paulo. Talvez seja preferível. É preferível a crítica permanente à suposta segregação do que a exaltação, igualmente permanente, à suposta integração.

Este sou eu falando, não Eduardo Paes: o modelo de segurança pública do Rio seria um fiasco ainda que o Estado estivesse nadando em dinheiro.

Se quiserem culpar Paes porque ele é do PMDB, como Sérgio Cabral e Pezão, ok. Mas essa é uma tarefa que cabe ao governo do Estado.

Quanto à entrevista, no caso em particular, prefiro um prefeito que fale a verdade a um que minta. 
Título e Texto: Reinaldo Azevedo, VEJA, 5-7-2016

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