quarta-feira, 24 de maio de 2017

Guardadores de rebanhos

João Pereira Coutinho

Quando Passos afirma que o governo atual copia o modelo do anterior, ele não se engana nem engana ninguém. Mas quem o ouve? Não o partido. Não os jornalistas. Muito menos as multidões enlouquecidas que se reúnem no Marquês ou no aeroporto de Lisboa.


TENHO ANDADO a pensar em Pedro Passos Coelho. Inevitável. A visita do Papa foi um sucesso? Passos Coelho. O Benfica ganhou o tetra? Passos Coelho. Uma canção portuguesa venceu a Eurovisão? Passos Coelho. E quando eu julgava que a tareia tinha terminado, eis a economia a crescer com vigor no primeiro trimestre. A sério: se o homem não é um mártir, quem é?

Sou insuspeito: critiquei o seu governo na altura própria. Mas, na altura própria, saudei o seu principal feito: ter arrancado o País da bancarrota socialista. O País, reconhecido, deu-lhe uma vitória nas legislativas. Mas sem maioria no parlamento, que fazer?

Paulo Portas, que não nasceu ontem, percebeu o que aí vinha e saltou do barco. Passos Coelho esperou: que a estratégia de Costa e Centeno levasse o barco para o iceberg. Houve sinais. Mas, aos primeiros sinais, Costa e Centeno abandonaram a velha rota e optaram por outra mais velha ainda: uma economia assente nas exportações e no investimento, não no consumo interno, que, aliás, desacelerou.

Quando Passos afirma que o Governo atual copia o modelo do anterior, ele não se engana nem engana ninguém. Mas quem o ouve? Não o partido. Não os jornalistas. Muito menos as multidões enlouquecidas que se reúnem no Marquês ou no aeroporto de Lisboa para bebedeiras coletivas com os feitos alheios.

Eu, se fosse o dr. Passos, esquecia a política por uns tempos. E aproveitava a onda patrioteira para regressar às origens. Com uma voz de barítono que não envergonha ninguém, tentava o festival do próximo ano. Para regressar em grande, já não basta falar. É preciso cantar.
Título e Texto: João Pereira Coutinho, SÁBADO, nº 681, de 18 a 24 de maio de 2017 
Digitação: JP

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