sábado, 18 de novembro de 2017

Não há inocentes

João Pereira Coutinho

O problema do jantar no Panteão não é uma questão legal; é uma questão de maneiras, que são sempre anteriores à lei e até à moral. Isso devia ser tão evidente como não comer com as mãos nem assoar o nariz às mangas da camisa

RECORDAR É VIVER, já dizia o outro. Ou morrer, quando o assunto é nacional. Nos últimos dias tenho contemplado os sarilhos graves em que o Governo se meteu desde que chegou ao poder. Coisas inesquecíveis, como as mentiras sobre os administradores da Caixa Geral de Depósitos e respectivas declarações de rendimentos; os fogos do Verão de 2017; a pilhagem do armamento de Tancos e posterior aparição (com juros); a legionela; as autópsias esquecidas e a visita aos velórios; o jantar do Panteão.

Almas honradas, confrontadas com cada um destes episódios, repetiram sempre o mesmo adágio: demissões, demissões, demissões. Difícil discordar. Mas, tirando a saída da ministra da Administração Interna (que foi a saca-rolhas), o que significariam essas demissões?

Simples: em dois anos de Governo, já não haveria ministro das Finanças; ministro da Defesa; ministro da Saúde; ministra da Justiça; ministro da Cultura. E o próprio dr. Costa, que teoricamente chefia a banda, também já teria pousado a batuta.

Portugal tem hoje um Governo que já não devia existir. O facto de ainda se mexer é o melhor retrato da hipocrisia das esquerdas, da apatia da oposição e da anestesia dos portugueses. Na farsa em que Portugal se tornou, não há inocentes.

NUNCA GOSTEI DA IDEIA DE UM PANTEÃO NACIONAL. O projeto, obviamente afrancesado, sempre me pareceu uma forma pagã de colocar a Pátria no altar – e os "patriotas" no lugar dos santos tradicionais.


Coisa diferente é o respeito mínimo pelos mortos, ou até pela memória dos mortos. Não que eles se importem. Mas o respeito aos mortos sempre foi uma forma de respeitar os vivos e a mortalidade da nossa condição.

O problema da jantarada começa logo aqui: nesta falta de senso, que até uma criança alfabetizada facilmente compreenderia. Não interessa se existe uma lei que permite as garraiadas. O que impressiona é haver autoridades públicas para quem é normal a convivência de tachos e copos em espaço consagrado para outros fins. No fundo, o problema do jantar no Panteão não é uma questão legal; é uma questão de maneiras, que são sempre anteriores à lei e até à moral. Isso devia ser tão evidente como não comer com as mãos nem assoar o nariz às mangas da camisa.

Mas o episódio revelou outra coisa: o poder político, aqui ou em qualquer parte, está refém da histeria da turba. O filósofo Byung-Chul Han, que a Relógio d’Água tem feito o favor de publicar entre nós, é exímio no diagnóstico: a civilização só existe pelo papel dos agentes mediadores. Não somos juízes em causa própria – existem juízes para essa tarefa. Não governamos diretamente – existem representantes que cumprem esse papel. E etc., etc.

Este compasso de espera, capaz de arrefecer as loucuras das massas, foi abolido pelas redes sociais. E os Governos são meros serviçais das opiniões maioritárias, o que implica que a comunidade está dependente de instintos coletivos e não de qualquer racionalidade política.

Confrontado com o jantar, cabia ao primeiro-ministro explicar porque o autorizou. Mas como é a canalha a mandar, o dr. Costa preferiu juntar-se à gritaria e desculpar-se com ela. Para que a comédia fosse completa, só faltava responsabilizar o porteiro que abriu o templo para receber os comensais. 
Título, Imagem e Texto: João Pereira Coutinho, Sábado, nº 707, de 16 a 22 de novembro de 2017

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