sábado, 20 de janeiro de 2018

Da supernanny à supergranny


João Pereira Coutinho

No programa, uma mãe (Patrícia) é insultada e agredida por uma criança de 7 anos (a famosa Margarida). Antigamente, uma bizarria deste género não se curava pela exposição pública; era tratada em privado porque noções de “pudor” ou simples “bom senso” eram mais fortes do que qualquer câmara de televisão.

Portugal anda preocupado com os "direitos das crianças". Quando li as gordas (a propósito: até quando poderemos designar os títulos dos jornais por "gordas"?), quando li as gordas, repito, pensei que falassem da derrota de Santana Lopes nas eleições do PSD.

Falha minha. A criança era outra: o "Furacão Margarida", prodígio de 7 anos que a SIC se propôs educar no programa Supernanny.

A comissão de proteção de menores acredita que o programa viola os direitos dos petizes, designadamente o direito à imagem, à reserva da vida privada e à intimidade. A ERC e a Ordem dos Psicólogos já foram chamados a intervir. E a Unicef mostra igual preocupação, esperando-se para breve mais uma resolução do Conselho de Segurança da ONU.

Curioso: no País onde uma seita religiosa é acusada de raptar os filhos dos outros, foi preciso o "Furacão Margarida" para provocar abalo nas consciências protetoras. Creio que o abalo é escusado. Comecemos pelo básico: direito à imagem, à reserva da vida privada e à intimidade? Em que mundo vive esta gente? Provavelmente, no mundo pré -2004, quando ainda não existia Facebook para horrorizar a cristandade. Basta consultar a página de qualquer "amigo" virtual (ou até real) para contemplar a imagem, a privacidade e a intimidade da criança a serem devassadas com sentimentos cândidos. O petiz na cama; o petiz no banho; o petiz no pote em reflexão e esforço – tudo sob likes, aplausos e corações de paixão ardente.

Especialistas vários não se cansam de alertar: imagens de crianças nas redes sociais servem de pasto para o submundo pedófilo. Mas isto não horroriza os guardiões da infância. Nem, obviamente, os respectivos progenitores.

Mas a histeria é escusada porque eu fiz questão de assistir ao programa. Dizer que gostei seria um exagero. Embora, aqui entre nós, é possível espremer dali duas ideias que merecem partilha com o leitor.

A primeira, nada original, é que a falência da educação contemporânea é assumida sem vergonha. No programa, uma mãe (Patrícia) é insultada e agredida por uma criança de 7 anos (a famosa Margarida). Antigamente, uma bizarria deste género não se curava pela exposição pública; era tratada em privado porque noções de "pudor" ou simples "bom senso" eram mais fortes do que qualquer câmara de televisão.

No mundo pós-Facebook, estes conceitos perderam a sua validade. Se, por hipótese, eu publico fotos da minha filha no penico, porque não partilhar com o País o momento em que a minha filha despeja o seu penico sobre a minha cabeça?

De resto, e descontando o lado circense da coisa, aqui declaro que a supernanny está inocente. Desconheço a obra da sra. Teresa Paula Marques. Mas na sua "intervenção" confesso que me causou estranheza certas expressões que eu julgava banidas do discurso contemporâneo.

A supernanny falava na importância de "regras"; de "autoridade"; de "limites"; de "respeito"; e, lá pelo meio, até ousou uma referência às dificuldades típicas das "famílias monoparentais".

Engraçado: a julgar pela doutrina estabelecida, eu pensava que as "famílias monoparentais" não tinham nenhuma desvantagem em especial. Aliás, convenci-me do inverso: ter filhos a solo representa um grito de libertação que só pode terminar em beleza para a mãe (ou para o pai) e para a criança. Afinal, onde mora a verdade?

Em lugar nenhum. Ou, então, em milhares de casas onde as crianças deixaram de ser crianças – e passaram a tiranizar adultos tão infantis quanto elas. Se calhar, o escândalo da Supernanny está precisamente aqui: na imagem cómica e patética que os adultos encontram ao espelho. 
Título e Texto: João Pereira Coutinho, SÁBADO, nº 716, de 17 a 23 de janeiro de 2018

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