sábado, 18 de julho de 2020

O método de cancelamento não pode prosperar

A fúria com que os esquerdistas atacam e destroem os alvos do cancelamento faz parte do método para fragilizá-los e dissuadir qualquer um que cogite defendê-los


Bruno Garschagen

O método de cancelamento não é nem uma cultura nem uma novidade para a esquerda mundo afora. Após a Revolução Russa em 1917, os procedimentos podiam variar entre expurgo, esquecimento forçado, assassinato de reputação, prisão, execução. É famosa a estratégia de apagar das fotos aqueles que, considerados traidores, eram presos ou mortos. Lenin e Stalin usaram e abusaram do expediente. Os cancelados (das fotos e deste mundo) mais conhecidos foram Leon Trotsky, Nikolai Antipov, Sergei Kirov e Nikolai Shvernik, Nikolai Yezhov.

Décadas se passaram, mas o método continuou sendo usado em países que permanecem socialistas, como Cuba, China, Coreia do Norte. Nas democracias ocidentais, porque (ainda) não têm poder político para expurgar, prender, executar, os esquerdistas estão usando cada vez mais o assassinato de reputação para forçar o cancelamento daqueles que consideram os inimigos mais perigosos. E o fazem agora com endosso, articulação internacional, apoio financeiro e decisão empresarial de gente com muito dinheiro e em posição de liderança.

Não é novidade empresário ser socialista. F. Engels existiu para comprovar essa excentricidade. Talvez o elemento novo seja o fato de que, atualmente, muitos homens de negócios estejam agindo voluntariamente para a propagação de ideias socialistas, para financiar políticos e um projeto de engenharia social, e para cancelar todos os que se colocam como obstáculos. Se antes a maioria dos empresários era forçada a fazê-lo sob um regime totalitário, hoje o faz de bom grado.

O aprendizado dos fundamentos da sociedade britânica por parte de crianças filhas de imigrantes foi atacado

Em 1984, Ray Honeyford, diretor de um colégio de ensino médio em Bradford, no norte da Inglaterra, escreveu um artigo no qual descrevia os problemas enfrentados pelos professores que tentavam ensinar inglês aos filhos de imigrantes asiáticos. Publicado na revista Salisbury Review, editada na época pelo filósofo Roger Scruton, o texto de Honeyford defendia o aprendizado do idioma, da história e de princípios básicos que fundamentavam a sociedade inglesa como um dos elementos de integração das crianças e de suas famílias na sociedade britânica.

O diretor também atacava vigorosamente (e corretamente) a atitude dos pais imigrantes em relação aos filhos, que eram proibidos de participar de atividades escolares e enviados para passar meses ou anos no país de origem para não serem “contaminados” pela cultura britânica. O artigo também criticava a leniência da política multiculturalista em curso, que, baseada em equívocos como o de que a discriminação era a origem do baixo desempenho escolar dos filhos de imigrantes, desincentivava o trabalho dos professores, além de minar qualquer possibilidade de inclusão cultural por meio do ensino.

Reproduzido no jornal local, o texto provocou a reação de grupos organizados (também de esquerda) e políticos de Bradford, um dos quais o prefeito da cidade, Mohammed Ajeeb, do Partido Trabalhista, que exigiu a suspensão do diretor. Honeyford foi afastado, mas conseguiu na Justiça o direito de retornar ao trabalho. Mas a pressão foi tão intensa que ele aceitou antecipar a aposentadoria. Nunca mais lecionou ou dirigiu uma escola. O professor fora cancelado.

A atitude criminosa das autoridades permitiu a emergência de ressentimentos e conflitos raciais

Segundo Scruton, no livro Como Ser um Conservador (Editora Record, 2015), o caso “foi um exemplo de um prolongado expurgo stalinista executado pela autoridade de ensino criada para remover todos os sinais de patriotismo de nossas escolas e apagar a memória da Inglaterra do registro cultural”. E o próprio filósofo foi cancelado: “Dali em diante, a Salisbury Review foi rotulada como uma publicação ‘racista’ e minha própria carreira acadêmica foi posta em xeque”.

Diante de tudo, o óbvio se impôs: o alerta de Honeyford não foi observado e aquilo que ele temia se tornou uma realidade na Inglaterra. A cidade de Bradford, por exemplo, passou a ser palco de uma segregação racial tão profunda quanto a da África do Sul nos tempos do apartheid. Quem o afirma tem conhecimento de causa: o psiquiatra e escritor inglês Anthony Daniels, que usa o pseudônimo Theodore Dalrymple e é colunista aqui na Revista Oeste. Tendo vivido e trabalhado também no país africano, Dalrymple fez essa comparação num texto dedicado a Honeyford no livro Nossa Cultura… Ou O Que Restou Dela (É Realizações, 2015).

Em “O homem que previu os distúrbios raciais”, Dalrymple defendeu o diagnóstico correto feito pelo diretor da escola e mostrou como a atitude criminosa das autoridades permitiu a emergência de ressentimentos e conflitos raciais em Bradford, a exemplo dos ocorridos em 2001.

Com base naquilo que testemunhou como médico de hospital público, em outros livros, como A Vida na Sarjeta, Dalrymple relatou casos terríveis de crimes cometidos por imigrantes e por seus descendentes nascidos na Inglaterra sob a apatia da polícia e das instituições políticas e judiciais. Tratei desse assunto, inclusive, no artigo “O suicídio da Europa”, publicado aqui na Oeste.

Uma farsa contra o conservador Roger Scruton, perpetrada por um jornalista de esquerda

Em 2019, 35 anos depois da publicação do artigo, foi a vez de Scruton sofrer uma nova tentativa de cancelamento por parte da esquerda britânica. O jornalista George Eaton, da revista inglesa de esquerda New Statesman, depois de entrevistar o filósofo, publicou partes editadas da transcrição alterando completamente o sentido das respostas e fazendo parecer que Scruton era homofóbico e racista.

Antes mesmo que pudesse se defender, Scruton passou a ser atacado imoderamente por esquerdistas, por membros do Partido Trabalhista e por integrantes do Partido Conservador. Ele foi, inclusive, desligado de um cargo não remunerado na comissão Building Better, Building Beautiful, da Secretaria de Habitação do governo de Theresa May. O objetivo da comissão era orientar a edificação de novas construções habitacionais. Com a história pegando fogo, o jornalista da New Statesman divulgou uma foto no Twitter em que celebrava com uma garrafa de champanhe a demissão de Scruton e a repercussão do caso.

Scruton só não foi completamente cancelado porque seu amigo Douglas Murray, também jornalista, conseguiu uma cópia da gravação da entrevista e a publicou na íntegra na revista The Spectator. O áudio revelou a farsa do jornalista da New Statesman e deixou claro que Scruton não era culpado daquilo de que fora acusado. O caso deu uma reviravolta, os tories que se precipitaram foram obrigados a se desculpar e ele foi convidado a reassumir o cargo na comissão de arquitetura do governo. Mas o filósofo faleceu antes que pudesse fazê-lo.

Desde a década de 1920 a esquerda brasileira cancela ou tenta cancelar os que considera inimigos

O caso mais recente de cancelamento na Inglaterra ocorreu com o historiador David Starkey, autor de livros best-sellers e apresentador de documentários sobre a Monarquia Britânica. Depois de dizer numa entrevista que “a escravidão não foi genocídio, caso contrário não haveria tantos negros na África ou na Grã-Bretanha” e de criticar o movimento Black Lives Matter, Starkey passou a ser alvo de ataques de todos os lados, perdeu contratos com as editoras Harper Collins e Hodder & Stoughton, foi obrigado a se desligar do Fitzwilliam College, da Universidade de Cambridge, da Universidade Canterbury Christ Church e do The Mary Rose Trust. Ele se desculpou publicamente, mas nada indica que conseguirá recuperar o que perdeu.

Honeyford, Scruton, Starkey são alguns de vários exemplos envolvendo nomes conhecidos que também foram alvo da turba na Inglaterra, como a escritora J. K. Rowling, e, nos Estados Unidos, o cartunista Robert Crumb, o humorista David Chapelle, o dramaturgo David Mamet, o professor da Universidade de Princeton, Joshua T. Katz, e, recentemente, o cientista Steven Pinker.

No Brasil, desde a década de 1920 a esquerda nativa cancela ou tenta cancelar todos aqueles considerados inimigos assim como os militantes “traidores”. Foi o caso de Antonio Bernardo Canellas, dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que ousou desafiar os bolcheviques no IV Congresso da Internacional Comunista, realizado em 1922 em Moscou, e, na volta ao Brasil, também o PCB. Foi julgado, expulso, perseguido pelo partido, que publicou um panfleto com título autoexplicativo: O Processo de um Traidor — O Caso do Ex-comunista A. B. Canellas.

Num trecho do panfleto, citado no livro Um Cadáver ao Sol (Ediouro, 2005), de Iza Salles, revela-se a declaração de princípios de qualquer cancelamento, do passado e do presente: “A questão está para nós morta e liquidada, como liquidado e morto para o movimento revolucionário está Bernardo Canellas, traidor indigno e vil. Mas é necessário dissecar este cadáver. É preciso desnudá-lo, rasgar-lhe o couro mau, desfibrar-lhe as carnes ruins, pôr-lhe as vísceras ao sol, espremer-lhe o fígado esgorgitado de torpeza. Temos o punho rijo e o ferro é de qualidade”.

É necessário reagir adequadamente com base na coragem e não se deixar intimidar

Já nos anos 1960, tanto a esquerda taciturna quanto a festiva cancelavam todos aqueles de esquerda que não fossem suficientemente de esquerda, todos aqueles que não estavam interessados em política (os alienados) e todos aqueles que eram suspeitos de apoiar ou colaborar com o regime militar.

Na década de 1970, a maior vítima talvez tenha sido o cantor Wilson Simonal. Condenado por ordenar o sequestro e a tortura do ex-contador de sua empresa, o cantor passou também a ser acusado por esquerdistas de ser dedo-duro dos militares porque circulou a informação de que teriam sido agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) que executaram os crimes a pedido de Simonal. O cantor, que sempre negou as acusações, foi insultado, cancelado e teve a carreira completamente destruída sob a apatia covarde dos artistas que tinham medo de receber tratamento similar por parte da esquerda.

Desde então, vários foram os alvos, várias foram as vítimas. Como o compositor Tom Jobim, que, em 1986, foi cancelado por esquerdistas por ter negociado o uso de sua música Águas de março e sua participação num comercial de TV para a Coca-Cola. Neste século 21, a vítima mais recente foi o jornalista Leandro Narloch, que, acusado injusta e abjetamente de fazer comentários homofóbicos, foi cancelado pela militância e demitido pela CNN Brasil.

Para ser alvo do cancelamento, não importa se você diz a verdade ou se diz coisas deploráveis, mas qual posição política você representa e se sua opinião está ou não em desacordo com o dogma do esquerdista. Para a esquerda, que tem o controle ou exerce enorme influência sobre os meios de comunicação, universidades, grandes empresas, basta você ser identificado com a direita para que, estando numa posição relevante, seja vigiado e punido por qualquer opinião correta ou equivocada — não importa.

A fúria com que esquerdistas atacam e destroem a vida de suas vítimas faz parte do método para fragilizá-las, mas também para dissuadir qualquer um que cogite dizer o que pensa ou sair em defesa do cancelado. Hoje não é mais necessário um Estado totalitário para que essa legião consiga aplicar expedientes infames contra seus inimigos. Lamentavelmente, parte da direita brasileira vem mimetizando esse comportamento nas redes sociais sob a justificativa de reação simétrica.

Não estou aqui defendendo que posições políticas infames e opiniões desprezíveis sejam aceitas ou normalizadas seja lá quem for seu autor e independentemente de sua ideologia. Acho tão abominável quem defende hoje o comunismo quanto quem defende o fascismo, o nazismo e ideologias autoritárias e totalitárias de esquerda ou direita. O problema é outro: o cancelamento como método para calar conservadores, liberais e todos aqueles que ousam se levantar contra o dogmatismo esquerdista.

Essa atitude covarde no Brasil se mantém entre os membros das patotas universitárias, jornalísticas, empresariais, políticas, mas tem havido reação da sociedade. Perante ataques cada vez mais baixos, as pessoas têm reagido contra quem ataca e em defesa do atacado, como aconteceu em relação a Narloch e casos anteriores. É a única forma, aliás, de impedir que a horda esquerdista determine o rumo das coisas, que aja impunemente e que faça parecer ser mais poderosa do que efetivamente é.

O método do cancelamento não pode prosperar, pois, se me permitem o trocadilho em inglês, cancel culture is a cancer culture. E só há uma forma de neutralizá-lo: reagindo adequadamente com base na coragem dos que não se deixam intimidar.

Título e Texto: Bruno Garschagen é cientista políticomestre e doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa) e autor dos best-sellers Pare de Acreditar no Governo e Direitos Máximos, Deveres Mínimos (Editora Record). Revista Oeste, 17-7-2020, 9h30

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