segunda-feira, 9 de março de 2020

Sim, sou trans e sou conservadora. Como isso é possível?

Júlia Viviane Kurz

Em março de 2019, marquei de jantar com uma ex-colega de faculdade. Éramos amigas desde aquela época – cerca de dez anos – embora a vida tivesse nos enviado para caminhos distantes que nos mantiveram longe uma da outra nos anos anteriores. Não nego que estava nervosa. Me arrumei, saí de casa e cheguei mais cedo do que o combinado.

Essa ansiedade era justificada. Seria a primeira vez que ela me veria depois da transição. Minha amiga chegou e se sentou à mesa depois de um cumprimento sincero. Foi então que os olhos dela ganharam um tom sério, quase desafiador. Como se eu tivesse adentrado um território proibido e devesse, portanto, ser banida da sociedade. Não era a primeira, tampouco a última vez que encontraria tal comportamento.

A questão da transexualidade foi sequestrada pela esquerda. Foto: Pixabay

Foi nesse momento que ela disse: “Não acredito que você é de direita!”

Tal atitude não me estranhou. Na verdade, era a situação que eu mais esperava encontrar desde o dia em que desceu por minha garganta o primeiro comprimido de estrogênio. Essa surpresa, devo acrescentar, ocorre independentemente das crenças políticas de meu interlocutor. Pessoas de esquerda, como minha amiga, sempre seguem o mesmo roteiro, e ele passa pela inevitável constatação de que a esquerda protege minorias.

Já a surpresa da direita ocorre por outro motivo. Eles acreditam na narrativa de seus opositores de que orientações sexuais diferentes se limitam a protestos políticos e que o simples fato de alguém ser transexual é uma afronta ao seu modo de viver e à estabilidade social.

Uma análise mais aproximada dessas duas constatações revela que elas são manifestações diferentes do mesmo fenômeno: a ignorância. A transexualidade ainda não é completamente entendida pelos cientistas (precisamos deixar isso claro), mas existem várias pesquisas sérias sendo feitas que nos dão novos insights todos os dias (muitas delas são desconhecidas até mesmo pelos especialistas da área, que preferem dedicar seu tempo à doutrinação, e não ao esclarecimento).

Transtorno de identidade sexual

De um ponto, pelo menos, posso ter certeza: se não houvesse marxismo, se não houvesse feminismo, se não houvesse o movimento LGBT, ainda assim existiriam transexuais. O fenômeno conhecido por “terceiro sexo” já era comum em sociedades primitivas e foi documentado, por exemplo, em tribos indígenas nos Estados Unidos.

Fora do meio, poucos sabem que a transexualidade é descrita no Catálogo Internacional de Doenças com o número F64.0 – transtornos de identidade sexual. Devido às suas complexidades, explicar as suas minúcias exigiria um artigo dedicado. Portanto comecemos por uma definição simples: é uma incompatibilidade a percepção que a pessoa tem de si mesma e sua manifestação física – o corpo. É algo que chamamos de disforia de gênero e, como se vê, se trata de um conceito que não tem relações com esta ou aquela ideologia política.

Ainda assim, existe a ideia de que nós temos a obrigação moral de nos aliarmos à esquerda, a única que propõe “políticas públicas para a população trans”, como se essas ações coletivistas fossem necessariamente corretas e imunes a críticas. Estamos falando de absurdos como banheiros trans, atletas trans competindo com mulheres e a nefasta ideologia de gênero, responsável por tanto sofrimento. Entender essas questões, e saber que elas não são a mesma coisa que a disforia, é imprescindível para começar a compreender a transexualidade.

Há dois resultados aterrorizantes da aplicação deste pensamento e que são pouco ou nada debatidos no Brasil. O primeiro é o grande número de profissionais que se dizem especializados na questão trans e que recomendam a seus pacientes a terapia hormonal sem o diagnóstico correto de disforia de gênero. No livro When Harry Became Sally [“Quando Harry virou Sally”], o jornalista Ryan T. Anderson expõe casos de pessoas com quadros depressivos sérios e que foram falsamente diagnosticados como transgêneros após uma ou duas consultas, apenas para inflar as estatísticas.

A aplicação exagerada desta prática levou ao surgimento dos detransitioners, pessoas que iniciaram a terapia hormonal e descobriram que ela não era a solução para seus problemas. A maioria aponta que foi induzida a alterar radicalmente seu corpo (algo praticamente irreversível) por terapeutas que lhes negaram tratamento alternativo.

Transexualidade e conservadorismo

Vejamos agora o outro lado. Se não existe ligação entre a transexualidade e a esquerda, existe uma incompatibilidade entre a transexualidade e aquilo que chamamos de direita? As pessoas que mergulham fundo no real significado de conservadorismo (e não aquilo que seus opositores dizem que é) sabem que seu princípio básico é a defesa das tradições, entendidas como o conhecimento acumulado pelas gerações e transmitidas para os mais jovens. Mas isso de forma alguma implica rejeição de novas ideias. Se isso fosse verdade, a visão conservadora não teria sobrevivido em um mundo que, hoje, é tão diferente do de séculos anteriores e que vivenciou tantos avanços sociais e tecnológicos.

Não há motivos para rejeitar a transexualidade sob a ótica de que ela seria progressista, sem analisar suas particularidades. No fundo, estamos tratando de um fenômeno semelhante a transtornos como depressão e autismo. Ser transexual não significa necessariamente acreditar que a ordem social baseada na família precisa ser extinta (uma tese marxista, afinal).

No fundo, as pessoas que sentem impulsos transexuais são capazes de decidir como devem responder a ele – algo que só pode ser garantido em um sistema de livre mercado baseado no princípio de que cada um pode escolher como viver sua vida, desde que respeite determinadas regras de convivência – chamadas leis – criadas para estabelecer um ambiente com um mínimo de segurança.

Tal sistema só pode ser garantido sob o capitalismo porque, em sua essência, as definições de direita e esquerda se referem à organização do governo. Para o que se convencionou chamar de direita, o poder (ou seja, a liberdade) é dado aos indivíduos para viverem suas vidas da melhor maneira possível. Já a esquerda acredita que todas as vontades devem obedecer ao plano do governante, que não se importa com a vontade da população. O impulso transexual, neste caso, é percebido como algo que entra em conflito com o dogma de obediência total ao governo central.

Voz política

Como agente político, o transexual tem pouca voz política no Brasil, especialmente porque se trata de um grupo de pensamento diverso que tende a ser homogeneizado e, acima de tudo, não compreendido mesmo por aqueles que dizem querer ajudá-lo.

Há várias questões pertinentes à transexualidade que são vistas como afrontas. Mas o contrário também é verdade. Esse debate só pode começar de verdade quando as pessoas (e não os políticos) aceitarem entender o transtorno e os sofrimentos envolvidos e julgarem as pessoas pelos seus méritos, e não porque, por acaso, pertencem a um grupo mal visto pela sociedade em geral.

Há poucas coisas mais conservadoras do que isso.
Título e Texto: Júlia Viviane Kurz, especial para a Gazeta do Povo, 9-3-2020

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