sábado, 1 de agosto de 2026

Esta capa da Veja talvez seja um dos retratos mais acabados da degradação do jornalismo brasileiro, que se tornou vassalo do sistema


Karina Michelin

Uma revista que durante décadas se orgulhou de confrontar o poder agora se ajoelha diante dele. Em vez de fiscalizar as instituições, agora as sacraliza e ainda exige reverência - Nada mais abominável. 

Ao transformar uma urna eletrônica em um “monumento à democracia”, a Veja promove a mais perigosa inversão de valores. Democracia não é um dogma nem uma religião -  é o direito de questionar máquinas, governos, tribunais e qualquer instituição do Estado. 

A urna eletrônica na capa da Veja e o artigo publicado parece mais uma peça de marketing nos moldes soviéticos, um objeto de adoração, um verdadeiro bezerro de ouro diante do qual o cidadão deve apenas se curvar. Questioná-la passa a ser tratado como blasfêmia - é a clara substituição do pensamento crítico pelo dogma político. 

O jornalismo nasceu para desconfiar do poder e trazer ao conhecimento da sociedade aquilo que o sistema prefere manter oculto da população, não para canonizá-lo. Quando a Veja afirma que criticar uma tecnologia é um “desserviço às instituições”, ela passa a atuar oficialmente como guardiã da narrativa oficial do regime. 

Esse é o aspecto mais vergonhoso desta capa. Uma revista que, durante décadas, orgulhou-se de confrontar o poder agora se ajoelha miseravelmente diante dele. A quem a Veja serve? Ao jornalismo ou a esse regime nefasto instaurado no Brasil?

Título e Texto: Karina Michelin, X, 1-8-2026, 11h37

Um comentário:

  1. COVID E A IMPRENSA
    Li os editoriais e a reportagem do Wall Street Journal sobre os diários de Anthony Fauci e seu depoimento ao Senado. Independente da posição que cada um tenha sobre a origem da Covid ou sobre as políticas adotadas na pandemia, há um ponto que me parece inescapável: o papel da imprensa.

    O jornal sustenta que revelam que a imprensa e jornalistas tinham uma relação de excessiva proximidade com Fauci, havendo os que deliberadamente queriam ajudá-lo a silenciar os críticos, como parte dos principais jornalistas e apresentadores dos Estados Unidos. Em vez da postura tradicional de ceticismo, que é a essência do bom jornalismo, muitos profissionais teriam assumido a função de validar uma narrativa oficial, tratando questionamentos científicos legítimos como desinformação ou teoria conspiratória.

    O problema não está em um jornalista concordar com uma autoridade pública. O problema surge quando deixa de exercer sua função essencial: perguntar, desconfiar, confrontar versões e permitir que hipóteses plausíveis sejam debatidas. A IMPRENSA no Brasil fez igual ou pior.

    A ciência avança pelo escrutínio, não pelo silêncio. E a imprensa cumpre sua missão quando protege o debate público, não quando escolhe quais perguntas podem ou não ser feitas.

    As informações reveladas pelos diários podem deixar a maior lição institucional, que talvez não seja sobre Anthony Fauci, mas sobre o perigo de qualquer imprensa abandonar a crítica para tornar-se porta-voz do poder. Quando isso acontece, perde a ciência, perde a democracia e perde, sobretudo, a confiança do público.

    Os recentes documentos divulgados pelo Senado americano talvez não tenham como principal personagem Anthony Fauci.

    O verdadeiro protagonista é a imprensa. Qual jornal deu ampla divulgação à audiência de ontem? Onde está a Globo e o Jornal Nacional?

    FOLHA, ESTADÃO, O GLOBO foram cúmplices acríticos das medidas de segregação das pessoas e destruição da atividade econômica: “A economia a gente vê depois!”. O jornalismo abandonou a atitude crítica que constitui sua razão de ser para assumir a defesa de uma narrativa oficial.

    O problema nunca foi discutir a hipótese da origem laboratorial da Covid. O problema foi transformar sua mera discussão em tabu. Em ciência, hipóteses são examinadas; não são interditadas.

    Em democracia, perguntas são respondidas; não são censuradas.

    O jornalismo existe para submeter o poder ao escrutínio, jamais para blindá-lo.

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