Aparecido Raimundo de Souza
A MORTE CHEGA para buscar mais um. Trata-se do número
2674238549582408128596848695086, ou melhor, desta senha. A pessoa, assim que for
encontrada, deverá deixar imediatamente o mundo dos vivos. A Morte se disfarça
numa linda mulher de arrepiar os cabelos, até de quem não os possui mais. O
rosto é jovem, o sorriso impecável, a voz maviosa. Traz, na mão, o celular com
uma agenda eletrônica conectada diretamente com o Homem Lá De Cima.
O sujeito a ser levado, pelo horário (seis horas da manhã), deve estar purgando
os pecados num vagão de metrô em direção a estação Clínicas. Talvez não o que
ela acabou de entrar. É preciso procurar minuciosamente. O futuro ‘de cujus’
está indo em direção ao trabalho. A Morte tem a ficha dele completa, porém, em
face de ter havido um probleminha de transmissão, justamente na hora do
ingresso dentro do vagão do metrô, a Internet deixou de estar conectada com o
provedor do Rei do Universo. Por este motivo, o aparelho da Morte não está
conseguindo visualizar, na telinha quem é o sujeito.
Neste passo, apesar da ausência momentânea da internet, a Morte sabe que a
criatura pode andar por ali, em algum lugar, agrupada aos demais que viajam
furdunceados numa algazarra só. É um jovem de trinta anos, 1.78 de altura, 75
quilos, olhos penetrantes e sedutores. Está indo para seu trabalho, no Hospital
das Clínicas da Universidade de São Paulo. Em face do rosto ter desaparecido da
sua telinha, a Morte precisará usar de outro recurso mais rudimentar, qual
seja, averiguar um por um o sujeito a ser pinçado. Como senhora e representante
da vida e dos destino de cada ser vivente, põe em prática um ensinamento
aprendido com o Altíssimo.
“Se na hora agá houver alguma dúvida, ou interferência entre nosso servidor e
os computadores aos cuidados da turma do anjo Gabriel, use seu charme. Murmure,
ao passar pelos rapazes, de ouvido em ouvido, a senha desta pessoa que resolvi
trazer aqui para cima. Ele é um excelente infectologista, apesar de muito
jovem. Todavia, talentoso, criativo, tem garra. Me ajudará com as almas que
chegaram e não param de ser enviadas para cá, a todo instante, vitimadas pela
Covid-19. Não o perca de vista, nem erre o alvo. Este menino nos será muito
útil por aqui”.
Assim, pois, viaja a morte em direção à Terra. Aqui chegada, procura seguir à
risca conforme lhe ordenou o Criador. Enquanto percorre vagão por vagão, cada
jovem com as características físicas do futuro defunto, a princesa murmura, em
seu ouvido a senha, de forma que só ele escute a sua voz adocicada e maviosa.
Voz que se manifestará, unicamente para o escolhido do Pai Celestial, não
sabendo ela, contudo, qual será a sua reação. Poderá ser de espanto, com a
preciosidade aceitando o desfecho trágico do imediato ou, no pior dos mundos,
tentando fugir.